A luta contra a violência obstétrica

PorSheilla Ribeiro,18 jul 2021 8:36

O momento do parto deve ser especial para toda a mulher e requer um tratamento excepcional. Contudo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas últimas décadas, muitas mulheres têm-se queixado de que o parto por vezes é frio e até traumático. Numa declaração publicada em 2014, a organização afirma que as parturientes têm sofrido abusos, desrespeito e maus-tratos nas instituições de saúde. Nesta reportagem, trazemos relatos que destacam a importância de ter profissionais de saúde com práticas humanizadas na assistência num momento único na vida de uma mulher.

“Não tive uma experiência muito agradável no meu primeiro parto, com 30 anos, e por esta razão decidi não ter o meu segundo filho no país. Tive uma gravidez normal, entretanto, o meu bebé crescia rapidamente e como eu sou baixinha não estava a suportar o peso e o médico disse que a cada dia que passava a data do parto se antecipava” narra Luana (nome fictício).

Num sábado, já com 35 semanas, a bolsa de Luana rompeu, mas sem que ocorresse a dilatação. Luana ficou internada até segunda-feira à espera da dilatação que não acontecia.

“Na segunda-feira, levaram-me para uma sala onde me foi aplicada uma injecção popularmente conhecida por malagueta, para provocar o parto. O sofrimento que veio a seguir, não se compara com nada, nem no meu segundo parto, que foi natural, tive tanta dor”, conta.

Para Luana o pior foi ouvir de um enfermeiro que teriam de fazer cesariana porque o bebé corria risco de vida, o que lhe fez perder o controlo e a consequente subida da pressão arterial.

Conforme relata, a cesariana deveria ser feita muito antes de segunda-feira já que é uma pessoa hipertensa e que não apresentava dilatação. Desta forma, testemunha, poderia ser evitada o sofrimento causado pela injecção.

24 horas depois de dar à luz, Luana teve convulsão e ficou entre a vida e a morte. Isto, diz, derivado de um “movimento brusco” de uma funcionária do hospital, quando esta lhe levantou para trocar os lençóis.

“Houve muita falta de cuidado, poderiam evitar aquela injecção, a forma como o enfermeiro disse que a criança corria risco de vida e a forma como lidaram comigo 24 horas depois do parto foi desagradável. Jurei nunca mais ter outro filho no meu país”, finaliza.

A enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstetrícia, Denise Cardoso, explica que a violência obstétrica pode ocorrer de várias formas.

“A violência ocorre quando o profissional da saúde não sabe comunicar com a utente e verbaliza agressões, ou mostra-se insensível com a sua dor; a questão de não permitir que a mulher exercite, que deambule; quando é feita a raspagem dos pelos, uma série de coisas que, normalmente, as pessoas não sabem que podem dizer ao profissional que assiste ao parto que não quer, ao menos que sejam estritamente necessárias e acabam por permitir”, explana.

O que é parto humanizado?

Segundo Denise Cardoso, o parto humanizado ocorre quando toda a atenção e o cuidado são centralizados na mulher e nas suas necessidades e o profissional da saúde assume uma postura de assistência.

“Porque o parto pertence à mulher, à família. A questão de minimizar os procedimentos evasivos que são naturalmente realizados durante o trabalho de parto, a questão dos constantes toques vaginais, a questão da manipulação excessiva durante o período expulsivo, enfim, são aspectos que devem ser tidos em conta, ou não devem de todo persistir quando se fala da assistência ao parto porque são considerados violência obstétrica”, refere.

A enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstetrícia defende que se a mulher tiver uma pessoa que a encoraja, sente-se mais capaz de realizar o seu parto.

Por isso, frisa, a forma de comunicar entre o profissional da saúde e a mulher em trabalho de parto é importante quando se fala de assistência humanizada.

O posicionamento durante o período expulsivo também faz parte do parto humanizado. Denise Cardoso sustenta que a mulher deve ser livre para escolher como quer posicionar-se para parir, se pretende se exercitar ou caminhar.

“Já sabemos que não se deve restringir a alimentação durante o trabalho de parto, que a parturiente precisa de energia para conseguir passar por aquele período que pode ser mais ou menos longo dependendo de mulher para mulher”, indica.

Esta profissional advoga que deveria ser considerada a questão do acompanhante, dado que a mulher se encontra num local que lhe é estranho, com pessoas estranhas independentemente de serem ou não profissionais da saúde.

“Geralmente reclamam que não há apoio nenhum e isto acontece, na nossa realidade, por causa do número de pessoas que estão na sala do parto, que é um número bastante reduzido e muitas vezes não conseguem dar aquela assistência que se pretende”, reputa.

A par disso, destaca, é preciso que os profissionais estejam conscientes para tal situação e que queiram fazer diferente tendo em conta a falta dos recursos humanos e materiais no país.

“É preciso pensar na mulher e num parto que é seu, o parto não é do profissional da saúde”, diz.

Desafios da institucionalização do parto humanizado

De acordo com a enfermeira, para conseguir instituir o parto humanizado, em qualquer parte do mundo, é preciso ganhar as boas práticas obstétricas.

Por sua vez, as boas práticas obstétricas passam por não realizar procedimentos ou comportamentos que violam, de alguma forma, fisicamente ou psicologicamente uma mulher durante um trabalho de parto.

“É um momento de bastante vulnerabilidade para a mulher e, portanto, tudo que ela não precisa é que alguém lhe fale mal, ou que lhe toque de forma desnecessária, ou que alguém lhe proíba de se mexer, ou que alguém lhe proíba de comer”, enfatiza.

Em Cabo Verde ainda há muitos desafios que têm a ver com a introdução das boas práticas a nível hospitalar, desafios relacionados ao espaço físico e condições estruturais, segundo a especialista.

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“Nós temos situações em que numa sala de pré-parto temos três camas separadas por uma cortina, o que não confere de todo, privacidade para a mulher e faz com que muitas vezes não se permita um acompanhante”, observa.

Contudo, no seu entender, o maior desafio está associado à formação do pessoal que presta assistência na sala de parto, com relação às boas práticas obstétricas.

“Para conseguirmos pôr em prática a questão do parto humanizado, não precisamos de muito. Precisamos, sim, melhorar em termos de recursos físicos e materiais e de pessoas mais atentas, mais sensíveis”, considera.

Impactos mentais na humanização dos cuidados

Em declarações ao Expresso das Ilhas, a psicóloga pós-graduada em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, Maria Dias, esclarece que a mulher passa por três ciclos de transformação fundamental ao longo da sua vida, sendo a gestação a que traz mais alterações a nível psíquico, físico e social.

Por conta dessas mudanças, profere, cada vez mais os aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério estão sendo “amplamente valorizados, estudados e reconhecidos”.

“Existe o mito de que a gestação é um momento de plenitude e de realização, o mundo cor-de-rosa. Esse facto social é um dos factores que pode despoletar alterações emocionais significativas. Porque muitas vezes a mulher tem medos, ansiedades, não gosta de estar grávida, não gosta do sexo do bebé, e por causa desse mito, muitas vezes não expressa sua real emoção, por medo do julgamento social”, desenvolve.

Não entendendo o porquê de não estarem seguindo o padrão social da plenitude, as mulheres tendem a se culparem e a sentirem-se estranhas por não estarem cabendo no “formato social”, o que desencadeia o stress, ansiedade, podendo desenvolver sintomas de depressão ou ainda o adoecimento psíquico.

“Em cada trimestre da gestação a mulher vai lidar com ambivalências, medos, ansiedades, e frustrações específicas. Essas alterações emocionais significativas necessitam ser acolhidas trabalhadas durante todo o pré natal, para evitar o adoecimento psíquico”, cita.

As alterações emocionais significativas têm consequências na saúde da mãe, e também influência de forma considerável a saúde do bebé, como por exemplo o baixo peso, a prematuridade, que está associado a maior risco de morbilidade infantil, de acordo com a psicóloga.

Maria Dias ressalva que a gestação, por si só, é um risco de alterações emocionais, e que quando acontecem complicações obstétricos, violência psicológica, física e outras intercorrências, estes podem potencializar ou mesmo serem a causa do adoecimento mental.

“Por isso a importância de se continuar na aposta da humanização dos cuidados, que devem começar no pré-natal. Porque ao contrário do que se pensa, a humanização dos cuidados não deve ser uma tarefa só das maternidades, começa desde o pré-natal e em todas as estruturas de saúde”, advoga.

Uma outra forma de humanização do parto, do ponto de vista da psicóloga, “é devolver à mulher o protagonismo na hora do parto”, para que esta possa entender que os profissionais da saúde estão presentes para assistir, orientar e intervir, apenas quando necessário.

“Humanizar é termos profissionais cientes da gestante como um ser em transformação em todos os níveis”, afirma.

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No passado sábado, o Movimento Eco-Feminismo de Cabo Verde realizou, online, uma conversa aberta sobre o tema a “humanização da assistência ao parto – desafios e perspectivas”.

O evento abordou temas ligados à implementação de políticas de humanização do parto, dos desafios institucionais na sua implementação, de modo a sensibilizar e conscientizar os profissionais da saúde sobre a violência obstétrica no país.

“Sabemos que muitas mulheres passaram por momentos desagradáveis durante o parto. O Eco-Feminismo achou interessante falar sobre isso na perspectiva de melhorar e humanizar o parto no Hospital, como sendo algo natural. Porque a nossa vocação é trabalhar a mulher juntamente com a natureza e o clima”, revelou a porta-voz do movimento, Maria Veiga.

Segundo a porta-voz a finalidade foi promover discussões para a formulação de políticas públicas de humanização da assistência ao parto.

“O parto constitui um dos momentos mais delicados de uma mulher. Então a sua felicidade pós-parto depende do arranque do momento do parto. O nosso objectivo é combater a violência obstetra que tanto pode ser verbal ou psicológica. Mas, sobretudo apelar a um trabalho profissional mais eficaz e eficiente no momento do parto”, asseverou.

Para além de trabalhar o desenvolvimento sustentável, a inclusão social, a justiça social e climática, o Eco-Feminismo é um movimento que defende a igualdade entre os géneros, o fim da opressão sexista, assim como a consciência das conexões entre a mulher e a natureza. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1024 de 14 de Julho de 2021.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,18 jul 2021 8:36

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  19 jul 2021 11:18

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