Dezasseis tripulantes retidos em São Vicente por abandono dos armadores

PorLourdes Fortes, Rádio Morabeza,3 fev 2026 12:23

Dezasseis tripulantes estrangeiros permanecem retidos no porto do Mindelo, desde 2025, devido a problemas financeiros dos armadores. Os trabalhadores fazem parte de dois navios distintos: o pesqueiro galego, Novo Ruivo, de bandeira portuguesa, e com doze tripulantes, e um navio senegalês, de um armador italiano, com quatro tripulantes.

Dados avançados à Rádio Morabeza pelo Capitão dos Portos de Barlavento, Aguinaldo Lima, indicam que o Novo Ruivo está em Mindelo desde Setembro de 2025.

“Na semana passada, na sexta-feira, o embaixador de Angola esteve a bordo do navio, inteirando-se da situação dos compatriotas angolanos. Temos contacto com a embaixada da Indonésia também, no sentido de repatriar os tripulantes indonésios. Estão a bordo, têm água, têm comida, portanto o problema maior é a questão dos salários em atraso. A alimentação é assegurada via o agente, a Limage, que faz o abastecimento. O navio veio para descarga de pescado, depois recebemos uma nota do tribunal de um arresto, em 19 de Setembro de 2025. Depois de um mês, mais ou menos, foi levantado o arresto, mas o navio acabou por ficar aqui porque o dono estava com problemas financeiros”, explica à rádio.

A tripulação do navio é composta por cinco indonésios e sete angolanos, cuja alimentação está a ser assegurada pela agência Limage. Segundo o Capitão dos Portos de Barlavento, à Rádio Morabeza, as autoridades nacionais estão em contacto com a embaixada de Angola em Cabo Verde e com a embaixada da Indonésia em Dakar para o repatriamento dos tripulantes.

Quanto ao navio senegalês, pertencente a um armador italiano, encontra-se ancorado na baía com quatro tripulantes senegaleses há vários meses. A embarcação está sob tutela do tribunal, através de um fiel depositário. A tripulação mínima garante os cuidados do navio nas condições básicas.

“Uma situação idêntica: um armador italiano que há vários meses não paga os salários aos trabalhadores. Inclusive, este navio ainda se encontra arrestado, ancorado na Baía do Porto Grande, e é uma preocupação enorme para a Autoridade Marítima ter um navio aqui ancorado há vários meses, com este tempo que se faz sentir neste momento. É uma época de muito vento, não é? Neste caso, o tribunal indigitou um fiel depositário. Esse fiel depositário tem dado um contributo, prestando assistência aos tripulantes, com alimentação. São quatro tripulantes, todos de nacionalidade senegalesa. São situações que nos afligem bastante e são muito complexas. Esse armador também é italiano, está fora e alega problemas financeiros”, refere.

Questionado pela rádio sobre a intervenção das autoridades cabo-verdianas, Aguinaldo Lima indica que têm mantido contacto constante com os armadores através do agente, “pressionando para a resolução do problema dos salários”.

O Capitão dos Portos de Barlavento destaca a dimensão humanitária da situação. “Fazemos o papel de intermediário. Eu pessoalmente já fui ao navio com a Polícia Marítima e um oficial-depositário e constatei as condições em que vivem. As condições são muito pouco dignas. Temos feito esforços, através do oficial-depositário, e do agente, mas o agente também está limitado, porque os armadores têm dívidas com ele e não querem assumir mais responsabilidades em nome deles. Isso complica a situação”, lamenta.

Estes casos somam-se a dezenas de processos abertos globalmente pela Federação Internacional dos Trabalhadores do Transporte (ITF) por abandono de tripulações, a maioria em navios com bandeiras de conveniência, como Panamá, Serra Leoa ou Belize.

Dados do ITF mostram que, em 2024, cerca de 90% dos navios abandonados navegavam sob bandeiras de conveniência, uma prática generalizada de registo de navios em países com regras de navegação frágeis, segundo a ITF.

Foto: depositphotos

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Autoria:Lourdes Fortes, Rádio Morabeza,3 fev 2026 12:23

Editado pormaria Fortes  em  3 fev 2026 17:22

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