“Certamente, Cabo Verde está num bom caminho para chegar a 2030 e contribuir para a redução da doença a nível global”, refere.
O biólogo, com doutoramento em saúde pública, conhece a instituição por dentro e sucede a Celina Ferreira, que se aposenta e deixa viva a meta de erradicação, em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.
“Sim, é possível, até porque temos uma prevalência bastante baixa [0,6%] e em todas as estruturas há prevenção, capacidade diagnóstica e tratamento gratuito para pessoas seropositivas”, diz, assinalando o trabalho dos centros de saúde, espalhados pelas ilhas.
Adilson de Pina entra no centro de saúde de Achada Santo António, na capital, Praia, para mostrar um exemplo de cuidados primários gratuitos que, de forma integrada, acolhem quem procura formas de prevenção, diagnóstico ou tratamento contínuo – essencial para manter a carga viral baixa, incapaz de se transmitir.
Tudo de forma confidencial, sem discriminação em relação a outras doenças.
No primeiro andar, Madalena Monteiro, psicóloga, atende quem recebe o diagnóstico.
“A primeira fase é complicada” e ainda há a ideia de associar VIH à morte, refere, ao descrever a sua missão: “o nosso trabalho é este, mostrar que, neste momento, a ciência evoluiu de tal maneira que podemos acabar com o tabu e a vida continua”.
Adilson de Pina assinala que existem diferentes opções, por exemplo, “um injetável bianual, lançado em 2025: a cada seis meses a pessoa faz o tratamento” para reduzir a carga viral.
Com as inovações “que Cabo Verde vai acompanhando” e os serviços prestados através dos centros de saúde, “é possível” atingir a erradicação do vírus até 2030, acredita.
Mas é preciso manter vivo um conjunto de mensagens chave: a conquista “não depende apenas das políticas do Governo, depende muito da sensibilidade da população e é este o desafio maior. Criar um certo contrato com a população seropositiva de que devemos seguir as regras” de nunca abandonar o tratamento, nem menosprezar a prevenção.
Ao comité que Adilson dirige cabe assegurar que os mecanismos de diagnóstico e o tratamento estejam sempre disponíveis no país, com uma equipa multidisciplinar que faz o seguimento e a ligação aos parceiros internacionais, num cenário de cooperação cada vez mais difícil.
“Temos conseguido garantir tudo isso, apesar do cenário global em que há reduções de financiamentos e de parcerias. Mas trabalhamos com os recursos existentes e procuramos oportunidades para conseguirmos garantir os ganhos já alcançados e dar a continuidade ao trabalho”, assinala.
Por outro lado, a relação do comité com parceiros internacionais requer pessoal especializado que não é fácil encontrar no arquipélago, devido à mobilidade global, que leva muitos cabo-verdianos para o exterior.
Adilson de Pina espera, por isso, poder contar com atrativos do Estado para reter talentos, nomeadamente através de um plano de carreiras, como já aconteceu noutras áreas da saúde.
Em 2026, Cabo Verde espera avançar com o processo de certificação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) do fim da transmissão vertical (na gravidez) do VIH.
O pedido já foi feito, está a ser finalizado um relatório global dos últimos cinco a 10 anos, para dar provas do fim da transmissão, seguindo-se a avaliação por um comité independente da OMS.
“Após esta avaliação externa, caberá à OMS decidir se as provas mostram o fim da transmissão vertical e certificar o país. Na nossa região africana, Cabo Verde poderá ser um dos primeiros” a receber a certificação, que se poderá juntar a outras, refere Adilson de Pina, assinalando a eliminação da malária, rubéola, sarampo e outras doenças preveníveis por vacinas.
“São ganhos que demonstram uma certa qualidade do sistema de saúde a nível nacional”, concluiu.
O comité trabalha diretamente com grupos onde o VIH ainda tem prevalências mais altas, como as pessoas portadoras de deficiência (2,3%), as trabalhadoras de sexo (3,9%), toxicodependentes (3,1%) e homens que fazem sexo com outros homens (9,5%), além da histórica vulnerabilidade biológica e socioeconómica das mulheres.
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