​Reclusos contam "verdadeira história" no primeiro livro escrito numa prisão em Cabo Verde

PorExpresso das Ilhas, Lusa,12 abr 2026 7:28

Quarenta e sete reclusos da cadeia central da capital cabo-verdiana contam "a verdadeira história" no primeiro livro escrito numa prisão em Cabo Verde, iniciativa que juntou contos e reflexões e despertou, em alguns, desejo de se tornarem escritores.

"Foi uma surpresa para nós reclusos. Encarámos isso com confiança e naturalidade e acreditamos que éramos capazes de dar o nosso contributo de uma forma positiva", disse à Lusa Nickson Tavares, 34 anos, no pátio da prisão, onde cumpre nove anos de reclusão e está a poucos meses de sair.

A obra, intitulada "Vozes Falam Por Trás Das Grades", reúne textos produzidos no âmbito de um projeto que pretende dar voz às pessoas privadas de liberdade e promover a sua reintegração social.

Nickson decidiu escrever sobre o seu último dia em liberdade, um momento que descreve como o mais marcante da sua vida.

"Resumi um bocado dos crimes que cometi e que me fizeram estar cá. Foi o dia mais marcante porque a última conversa que tive com a minha família", explica.

A escrita tornou-se um processo de reflexão e libertação emocional para o recluso.

"Este projeto mudou muito a minha forma de encarar a vida. Hoje sou capaz de expressar através da escrita. Foi como uma semente plantada em mim que hoje está a dar frutos, porque já tenho dez títulos de livros e três já estão prontos", afirma, acrescentando que pretende publicar as obras quando sair em liberdade.

O impacto do projeto chegou também à família.

A reação da mãe foi um dos momentos mais marcantes.

"Ela chegou a chorar e disse-me que hoje sente algo por mim que há muito tempo não sentia, que sente orgulho de mim", conta, apontando que o seu desejo é ser "escritor e reconhecido internacionalmente".

Entre os participantes está também a portuguesa Ana Rita Lopes, 45 anos, que cumpre três anos de prisão e relata uma vida marcada por episódios de violência e mudanças de percurso.

"Quando me falaram do projeto onde nós podíamos finalmente contar a nossa história sem filtros, eu achei importante, porque normalmente a sociedade condena-nos, rotula-nos. Então eu decidi participar porque podia dar o meu relato, tal como a moeda tem duas faces. A primeira face já tinha aparecido, que é a que aparece no Facebook e na televisão, e eu finalmente ia ter a oportunidade de contar a história por trás das grades, que é a verdadeira história", disse.

A reclusa considera a participação "a experiência mais enriquecedora e de maiores aprendizagens" da sua vida.

"Cresci numa família com berço quase de ouro e conhecendo as más pessoas, acabei por entrar em caminhos que me eram desconhecidos, mas que eu quis entrar", conta, relatando episódios de violência, perseguições e fuga com os filhos.

Licenciada em Letras, afirma que sempre sonhava escrever um livro e a prisão acabou por lhe proporcionar essa oportunidade, tendo já uma obra própria pronta para publicar.

"Hoje posso morrer feliz. O livro chama-se ‘Uma Mulher Presa em São Martinho’, com 155 páginas", disse.

Cleiton Costa, 33 anos, cumpre pena há seis anos e refere que o processo da escrita o levou a revisitar o passado.

"Estive envolvido com droga, com bebida. Não foi fácil. Mas agora eu quero mudar porque escrevo todos os dias", disse, relatando que aprendeu a ler e escrever na prisão e vai continuar após sair em liberdade com projetos ligados ao seu bairro e às crianças.

Michel Veiga, 32 anos, refere que a motivação foi contar a sua própria história.

"Eu fazia letras de música, mas um livro nunca", refere, realçando que a participação abriu novas perspetivas para continuar a escrever.

A coordenadora do projeto, Lena Marçal, explica que a iniciativa começou em 2021 e envolveu 47 participantes.

"Muitos não têm apoio dos pais, outros perderam-nos cedo, ficam ao cuidado de avós ou tios e acabam por entrar em percursos de crime", revela, acrescentando que a iniciativa permitiu mais convivência entre os participantes na cadeia e contribui para a sua reinserção social.

Lena Marçal defende ainda a expansão do projeto a outras ilhas.

"A literatura e a escrita são uma arma muito poderosa e transformadora do ser humano", conclui.

O diretor-geral dos Serviços Prisionais e de Reinserção Social, Odair Pedro, destaca no livro que se trata da primeira vez que reclusos registam em obra as suas trajetórias dentro e fora do sistema prisional.

Segundo o responsável, o conteúdo poderá também contribuir para a definição de políticas públicas no setor e para a prevenção da criminalidade.

Cabo Verde tem uma população prisional de cerca de 2.000 reclusos, sendo que a taxa de reincidência criminal é de 25%.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,12 abr 2026 7:28

Editado porFretson Rocha  em  12 abr 2026 8:05

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