O movimento começa cedo. Ainda antes do meio-dia já se formam filas junto às bancas e restaurantes espalhados pelo interior da ilha. Automóveis particulares, carrinhas de excursão, autocarros de turistas e até viaturas alugadas percorrem diariamente as estradas que ligam os municípios de Santiago, transportando visitantes em busca de sabores, paisagens e experiências que se tornaram marcas de referência.
O fenómeno é particularmente visível aos fins-de-semana, mas há muito que deixou de se limitar a esses dias. Ao longo da semana, são cada vez mais os turistas e residentes que percorrem quilómetros para experimentar pratos tradicionais, conhecer paisagens rurais e viver experiências que dificilmente encontram noutros destinos.
Num momento em que o turismo cabo-verdiano continua fortemente associado ao segmento sol e praia, Santiago começa a afirmar-se através de uma oferta diferente, assente na gastronomia, na cultura, na ruralidade e, sobretudo, no contacto humano.
O interesse surge numa altura em que Cabo Verde beneficia de uma visibilidade internacional crescente. Nas últimas semanas, as redes sociais foram inundadas por publicações de influenciadores, viajantes e criadores de conteúdos que manifestam curiosidade em conhecer o arquipélago. Muitos procuram precisamente aquilo que Santiago oferece em abundância: a autenticidade.
Turismo assente na autenticidade
Com a maior população do país, uma riqueza cultural reconhecida e uma gastronomia diversificada, Santiago reúne condições para se afirmar como um dos principais destinos de turismo de experiência em Cabo Verde.
Ao contrário de outros destinos onde a principal atracção são as praias, em Santiago muitos visitantes procuram conhecer o quotidiano das comunidades, experimentar a gastronomia tradicional e estabelecer contacto directo com as pessoas.
Essa autenticidade é apontada pelos próprios operadores e comerciantes como um dos principais factores que explicam o crescimento da procura.
Pastel de milho que se tornou paragem obrigatória
Em São Domingos, uma das paragens mais conhecidas da ilha continua a ser a banca de Dona Titina, herdeira da receita de pastel de milho que atravessou gerações e conquistou visitantes nacionais e estrangeiros.
Entre clientes que entram e saem sem interrupção, a comerciante recorda que tudo começou de forma simples, no quintal da sua casa.
"Não sei ao certo quando começou a actividade de fazer pastel de milho. Lembro-me da minha mãe a fazer. Depois das dificuldades da vida resolvi continuar para garantir o ganha-pão. Inicialmente fazia os pastéis no quintal de casa e confesso que tinha vergonha. Depois começaram a chegar mais pessoas a solicitar e o espaço ficou pequeno. Foi então que saí do quintal para a rua."
Hoje, o local transformou-se numa referência gastronómica da ilha.
"Aqui recebemos pessoas de todo o canto do mundo. Temos turistas que não sabemos sequer que língua falam, mas entendemo-nos de uma maneira ou de outra."
Segundo explica, o crescimento das redes sociais e da divulgação feita pelos próprios visitantes contribuiu para aumentar a notoriedade do espaço.
"O pastel de São Domingos deixou de ser apenas um petisco tradicional para se tornar uma marca. Temos turistas que levam o pastel para fora e enviam fotografias a comer pastel em países que nem sabíamos que existiam."
Apesar de considerar que o movimento já foi mais intenso, garante que a procura continua elevada.
"Temos filas de clientes e alguns já consideramos família. Aqui criámos laços de amizade. É mais do que um ponto de venda."
A realidade observada em São Domingos repete-se noutros pontos da ilha. À medida que se avança para o interior, multiplicam-se os espaços que transformaram a gastronomia tradicional num verdadeiro atractivo turístico.
São Lourenço dos Órgãos: gastronomia e tranquilidade
Em São Lourenço dos Órgãos, o movimento turístico faz hoje parte da rotina de vários estabelecimentos.
No Espaço Padjudo, a aposta recai sobre os sabores tradicionais cabo-verdianos. Cachupa, carne de porco, linguiça da terra e outras especialidades atraem visitantes provenientes de diferentes pontos da ilha e também do estrangeiro. Segundo o responsável, Mário, os dias mais intensos começam à sexta-feira e prolongam-se até domingo.

"Recebemos aproximadamente 600 pessoas por dia durante os fins-de-semana. São pessoas que vêm de longe para conhecer e experimentar os pratos. Temos uma grande adesão de estrangeiros e isso mostra que existe interesse pela nossa gastronomia."
Para o empresário, São Lourenço dos Órgãos ocupa hoje uma posição estratégica no turismo da ilha.
"Hoje podemos dizer que São Lourenço dos Órgãos é o coração turístico da ilha de Santiago. Temos potencial para desenvolver muitas actividades e impulsionar o desenvolvimento local. As pessoas procuram o interior para descansar, para fugir da rotina, para aproveitar o clima tranquilo e acolhedor."
O crescimento da procura, contudo, também trouxe novos desafios.
"Hoje temos dificuldades para encontrar funcionários. Muitas vezes temos clientes suficientes, mas falta mão-de-obra para responder à procura."
Mas o Padjudo está longe de ser o único espaço a atrair visitantes.
A poucos quilómetros dali, outro estabelecimento tornou-se uma referência para quem percorre o interior da ilha.
O aroma da cachupa acabada de fazer, da carne assada, do pão com carne e das especialidades tradicionais denuncia a chegada ao conhecido Espaço Nanda.
Ali, os visitantes encontram não apenas comida, mas também música, convívio e um ambiente que muitos consideram parte da experiência turística de Santiago.
"Como já é do conhecimento nacional e internacional, servimos tudo o que é tradicional. Temos atracções musicais aos fins-de-semana, mas mais do que um bar, somos um ponto turístico."
Segundo uma funcionária do espaço, os clientes chegam de diferentes origens.
"Recebemos caravanas de estrangeiros, pessoas de outras ilhas e muitos clientes locais. Criamos memórias. Há clientes que regressam aos seus países, mas sempre que voltam a Cabo Verde fazem questão de nos visitar. É gratificante."
Economia local ganha novo impulso
O percurso pelo interior da ilha revela que o turismo gastronómico não beneficia apenas os restaurantes. Ao longo das estradas surgem pequenos negócios familiares que também encontram no aumento do fluxo de visitantes uma oportunidade para gerar rendimento. É o caso de uma conhecida vendedora de milho cozido e assado que, apesar de não possuir um espaço construído, se tornou uma referência para quem passa pela zona durante a época do milho. Conhecida por muitos apenas como Maria, conta que a sua banca se tornou uma paragem quase obrigatória.
"Aqui ainda não temos um espaço construído. O meu local de venda é à beira da estrada. Quando chega a época do milho toda a gente já conhece o ponto e faz questão de parar. Ao longo do dia, são dezenas de clientes. Param sempre inúmeras pessoas para comprar. Autocarros e carrinhas de turistas fazem questão de parar. Às vezes trazem dinheiro que nem conheço. Só pergunto se o banco aceita e vendo."
Mas, para Maria, o segredo do sucesso vai muito além do produto.
"A ilha de Santiago é rica. Rica de cultura, rica de sabor e rica de amizade. Enquanto outras ilhas oferecem lindas praias, o que também temos, nós oferecemos outra coisa: construímos laços."
A comerciante faz uma pausa antes de acrescentar:
"Não vendemos apenas um produto. Vendemos com amor, com espírito limpo e de coração aberto. É isso que faz as pessoas voltarem."
Barreira linguística deixou de ser obstáculo
Histórias como a de Maria mostram que, muitas vezes, a comunicação vai além das palavras. O aumento do número de visitantes estrangeiros trouxe desafios relacionados com a língua, sobretudo para pequenos empresários e vendedores que nunca tiveram formação específica para trabalhar com turistas. Ainda assim, todos os entrevistados concordam que essa dificuldade raramente impede o atendimento.
"No início existia uma barreira linguística, mas acredito que também era por timidez e receio de errar. Actualmente a realidade é diferente. Temos funcionários universitários que ajudam na comunicação e hoje já não podemos dizer que existe uma verdadeira barreira linguística**,**" afirma Mário.
No Espaço Nanda, a solução passa pela criatividade.
"Quando os estrangeiros chegam sem guia turístico**,** usamos tradutores no telemóvel, fazemos gestos, mas todos são recebidos e bem servidos."
Maria partilha da mesma opinião.
"Eu não sei falar línguas estrangeiras, mas vendo e comunico com todos. Faço amizades. Mesmo sem dinheiro, ninguém vai ficar sem comer."
Santa Cruz e os cenários que conquistam as redes sociais
O percurso termina em Santa Cruz, município tradicionalmente associado à produção de banana, mas que nos últimos anos ganhou nova projecção através das redes sociais.
A chamada "água de coco de Santiago" tornou-se um dos símbolos locais e um dos produtos mais procurados pelos visitantes.

A pequena avenida onde se concentram os vendedores transformou-se num dos cenários mais fotografados da ilha, impulsionado por publicações de influenciadores nacionais e estrangeiros. O resultado é um fluxo constante de visitantes que contribui para dinamizar o comércio local e reforçar a notoriedade turística do município.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, os entrevistados consideram que Santiago ainda possui uma margem significativa para crescimento.
Melhorias na promoção turística, formação de recursos humanos, reforço da oferta de actividades e investimentos em infra-estruturas são apontados como factores capazes de consolidar a ilha como um destino de referência.
Dona Titina acredita que as novas gerações podem desempenhar um papel fundamental nesse processo.
"Para os mais novos, acredito que um investimento mais aprofundado pode impulsionar Santiago como um grande ponto de turismo gastronómico."
Entre pastéis de milho, cachupa, milho assado e água de coco, Santiago vai consolidando uma identidade turística própria. Uma identidade construída não apenas pelas paisagens, mas sobretudo pelas pessoas que recebem quem chega. Talvez seja precisamente aí que resida uma das maiores riquezas turísticas da maior ilha de Cabo Verde: a capacidade de transformar um simples encontro à beira da estrada numa experiência que os visitantes levam consigo muito depois de terminada a viagem.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1287 de 29 de Julho de 2026.
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