No mês passado, o deputado do MpD e ex-ministro da Administração Interna, Paulo Rocha, avançou no Parlamento que o país recebe mais de 500 viaturas por mês, realidade que considera dever ser tida em conta na análise da sinistralidade rodoviária.
No entanto, em Novembro de 2024, a ilha de Santiago esgotou a primeira série de códigos de matrículas, o que levou a Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários (DGTR) a adoptar um novo sistema.
Mas como é viver diariamente ao volante numa cidade onde as viaturas aumentam, mas as vias nem sempre acompanham esse crescimento?
Cristina, que vive em Palmarejo e trabalha em Achada Grande Frente, conta que precisa de sair de casa com antecedência para evitar atrasos.
“Entro às 08h00, mas tenho de sair de casa às 07h30. Poderia ficar em casa e tomar um pequeno-almoço tranquilamente, mas tenho de esperar as portas da empresa abrirem para evitar chegar atrasada”, relata.
Um atraso de apenas três minutos, diz, pode significar enfrentar longas filas, sobretudo entre Chã-de-Areia e Gamboa. Para a condutora, são necessárias vias alternativas e corredores para o transporte público, além de uma solução para a circulação de viaturas pesadas.
Acidentes e falta de alternativas agravam o problema
Para quem trabalha diariamente nas estradas da capital, o congestionamento não se resume ao aumento do número de viaturas. A falta de vias alternativas faz com que qualquer incidente num dos principais eixos rodoviários tenha repercussões em diferentes pontos da cidade.
Adriano Monteiro, da Associação dos Taxistas da Praia, considera que a criação de vias alternativas é uma das principais necessidades para melhorar a circulação na capital.
O taxista dá como exemplo a Avenida Marginal, onde, segundo explica, um acidente pode rapidamente provocar um efeito dominó no trânsito de outras zonas da cidade.
“Um acidente naquela avenida significa um caos de trânsito em quase toda a cidade da Praia, porque muitos condutores procuram outras rotas, normalmente o Plateau onde há mais carros, o que significa mais trânsito”, acrescenta.
A rotunda de Lém-Ferreira é apontada pelo taxista como uma das zonas onde os constrangimentos são frequentes, podendo a fila estender-se até ao semáforo de Fazenda.
Mas, além dos congestionamentos provocados pelo volume de tráfego, os acidentes rodoviários constituem outro factor de pressão sobre a circulação.
Segundo o representante dos taxistas, há momentos em que ocorrem vários acidentes praticamente em simultâneo, obrigando a Polícia Nacional a dividir os seus meios para atender às diferentes ocorrências.
A consequência, explica, é que a permanência das viaturas acidentadas na faixa de rodagem prolonga os congestionamentos e acaba por afectar outras zonas da cidade.
Trânsito condiciona aulas de condução
O aumento do número de novos condutores e de viaturas é também apontado pelas escolas de condução como um dos factores que pressionam as estradas da capital. Arlindo Cardoso, da Escola de Condução Cedência de Passagem, afirma que a procura pela carta aumentou nos últimos anos, acompanhando o crescimento do parque automóvel.
“Se compararmos com 2015, temos um fluxo maior de pessoas a fazer carta de condução. Isso tem a ver, na minha opinião, com o número de veículos que temos na Praia e em parte com a melhoria de vida. Toda a gente quer ter carro próprio”, explica.
Com mais viaturas e uma rede viária limitada, o congestionamento deixou de estar concentrado apenas nas tradicionais horas de ponta e em determinados pontos da cidade.
“Se antes a hora de ponta eram horários específicos, agora é praticamente a qualquer hora. Se antes os pontos de mais congestionamento eram o cruzamento da Fazenda ou Sucupira, hoje todos os lugares têm congestionamentos”, afirma.
A situação é particularmente sentida pelas escolas durante as aulas práticas, já que os congestionamentos afectam os percursos entre os diferentes bairros.
“Os alunos sentem dificuldades em praticamente todos os bairros. As escolas que ficam na região de Fazenda, Achada Santo António, Eugénio Lima, Ponta d’Água, Achada Grande, ou seja, todos os que têm a necessidade de passar pelas avenidas, enfrentamos congestionamentos”, relata.
O trânsito chega a consumir uma parte significativa do tempo destinado às aulas, obrigando as escolas a adaptar os percursos.
“Às vezes, alunos que começam a aula em Ponta d’Água, para fazer 30 minutos de aula, se o professor não fizer uma boa gestão não consegue nem chegar ao Palmarejo”, conta.
Perante este cenário, as escolas procuram ajustar os percursos e a gestão das aulas às condições do trânsito, para rentabilizar o tempo disponível.
Cardoso aponta ainda a deficiente sinalização rodoviária como outro problema que afecta a circulação e dificulta a formação prática dos novos condutores.
“Não há uma única via na Praia que seja bem sinalizada e, para nós, das escolas de condução, essa falha na sinalização tem criado muitas dificuldades”, critica.
Stands sentem a pressão do aumento de procura
O aumento do número de viaturas na cidade da Praia é também sentido por quem trabalha directamente na comercialização de automóveis. Rui Teixeira, CEO da Multimarcas Auto, afirma que a procura tem crescido significativamente, estimando um aumento de cerca de 30% desde 2024, com maior presença de jovens e casais entre os compradores.
“De 2024 para cá eu posso dizer que poderá ter crescido uns 30%. A procura tem aumentado”, revela.

O responsável atribui parte deste crescimento à melhoria das condições de financiamento, com prazos de pagamento mais longos e taxas de juro mais baixas, que facilitaram a aquisição de viaturas.
“Eles (bancos) aumentaram o período de pagamento, que antigamente era de três, cinco anos no máximo, agora vai até oito anos, e baixaram as taxas de juros. A prestação mensal reduziu bastante, então permitiu aumentar a venda de automóveis”, explica.
A procura é igualmente visível nas feiras promovidas pela empresa, onde, segundo Rui Teixeira, podem ser comercializadas mais de 200 viaturas em quatro dias e ainda ser feita uma lista de espera. A empresa estima ainda importar cerca de 800 viaturas por ano.
Mas o crescimento das vendas levanta uma questão que ultrapassa o próprio mercado automóvel: a capacidade das estradas para absorver o aumento do parque automóvel.
“O número de viaturas, as nossas somadas aos outros concessionários, todas as viaturas que saem mensalmente, é um número de viaturas muito significativo para as estradas que temos actualmente em Cabo Verde”, considera.
Na sua perspectiva, a rede viária da Praia não tem acompanhado o crescimento do número de veículos, deixando poucas alternativas de circulação e contribuindo para a concentração do trânsito nos mesmos eixos.
Rui Teixeira defende também a melhoria dos transportes públicos como forma de reduzir a dependência do automóvel particular, mas considera que, sem vias próprias, os autocarros continuam sujeitos aos mesmos congestionamentos.
“Aqui em Cabo Verde não há aquilo que existe noutros países, que são linhas específicas para os autocarros. Os transportes públicos circulam numa via específica para autocarros”, exemplifica.
Para o empresário, enquanto não forem criadas alternativas de mobilidade capazes de competir em rapidez e conforto com o automóvel particular, será difícil reduzir o número de viaturas em circulação.
“Por isso, a longo prazo, não estou a ver a solução do trânsito a ser facilmente resolvida na Praia”, conclui.
2.305 acidentes em sete meses na Praia
Se o congestionamento é uma das faces mais visíveis do problema, a sinistralidade é outra. Segundo o comandante da Polícia de Trânsito na Praia, Nelson Martins, a capital registou 2.305 acidentes entre Janeiro e Julho de 2026.
Em Janeiro foram contabilizados 332 acidentes, 238 em Fevereiro, 336 em Março, 305 em Abril, 362 em Maio, 337 em Junho e 345 em Julho. Em 2025, entretanto, a capital registou 3.626 acidentes.
Os acidentes concentram-se sobretudo nos períodos de maior circulação e nas zonas de maior concentração de veículos. Entre os pontos com congestionamentos, a Polícia aponta a Rotunda de Lém-Ferreira, o troço entre a Rotunda Brás de Andrade e Terra Branca e o percurso entre Quebra-Canela, Prainha e a Rotunda de Chã-de-Areia.
“Normalmente, há uma relação entre os locais onde se concentram mais veículos e a sinistralidade. Podemos elencar, por exemplo, o centro da Fazenda, a baixa da cidade, o local onde se concentram mais veículos nas horas de ponta”, explica Nelson Martins.

Além da sinistralidade, a Polícia aponta os estacionamentos e paragens irregulares, a ocupação da via pública e dos passeios por parte dos veículos e comerciantes, a sinalização deficiente e a falta de espaços próprios para os transportes colectivos como alguns dos principais problemas de trânsito na capital.
“Na cidade da Praia, os principais problemas relacionados com o trânsito são os estacionamentos irregulares e ocupações da via pública, sobretudo nas horas de ponta. A paragem irregular dos transportes colectivos de passageiros, normalmente por não terem um espaço próprio ainda bem definido, é também um dos problemas”, enumera.
A utilização do telemóvel ao volante e a condução sob efeito de álcool são igualmente apontadas como factores associados aos acidentes, enquanto os atropelamentos de peões são relacionados, em parte, com atravessamentos inadequados.
A fiscalização constitui outro desafio, devido à limitação dos meios disponíveis para garantir uma presença policial permanente nos diferentes pontos da cidade. A própria resposta aos acidentes pode ser dificultada pelo congestionamento, já que as viaturas policiais ficam, por vezes, retidas nas mesmas filas.
“Se houver a ocorrência de um acidente, para que o carro da Polícia chegue ao local, ele também fica nesse congestionamento causado pelo próprio acidente. Duzentos carros à frente e a Polícia não consegue chegar”, exemplifica.
Para melhorar a capacidade de resposta, a Polícia está a recorrer a motociclos, que permitem aos agentes deslocarem-se com maior facilidade entre as filas de veículos.
Segundo Nelson Martins, o aumento do fluxo automóvel também tem feito com que períodos anteriormente considerados fora da hora de ponta passem a registar congestionamentos.
Mas que soluções seriam viáveis?
Se a expansão do parque automóvel e as limitações da rede viária estão entre os factores que pressionam a circulação na capital, a resposta ao congestionamento, na perspectiva do engenheiro civil José Eduardo Tavares, deve passar por uma intervenção mais ampla, que articule mobilidade e planeamento urbano.
Para o engenheiro, o problema não se resume à falta de estradas. O crescimento rápido da cidade e a ocupação desordenada do território dificultaram a criação de infra-estruturas capazes de acompanhar as necessidades de mobilidade da população.
“Hoje, na cidade da Praia, o congestionamento é um problema que resulta de vários factores e não se resume apenas à falta de estradas. Nos últimos anos, verificou-se um aumento considerável do parque automóvel e, por outro lado, temos uma cidade cosmopolita, com um crescimento rápido, que nem sempre tem sido acompanhado pela necessária expansão e melhoria das infra-estruturas viárias”, caracteriza.
José Eduardo Tavares chama particular atenção para o surgimento de bairros sem o devido planeamento das infra-estruturas de circulação, situação que, segundo explica, dificulta a criação posterior de novas vias, passeios e áreas de estacionamento.
“Um dos grandes constrangimentos prende-se, precisamente, com a ocupação informal e desordenada do território, com o surgimento de vários bairros clandestinos, sem o devido planeamento das infra-estruturas viárias necessárias. Esta situação torna muito difícil, dispendioso e, em alguns casos, impossível criar corredores de circulação, passeios, áreas de estacionamento e outras infra-estruturas de mobilidade”, afirma.
É essa configuração que, na sua leitura, acaba por concentrar os movimentos nas poucas vias que apresentam melhores condições de circulação.
“Portanto, o problema do congestionamento deve ser analisado em estreita articulação com o planeamento urbano. Não podemos permitir que a cidade cresça de forma desordenada para, só posteriormente, se pensar na implementação das infra-estruturas necessárias para responder às necessidades de mobilidade da população”, defende.
Para o engenheiro, antes de avançar para grandes obras, é necessário identificar os pontos onde a circulação fica estrangulada e perceber de que forma o tráfego pode ser redistribuído.
“Com isso, em alguns casos, serão necessárias novas ligações e vias alternativas, de modo a libertar as vias mais congestionadas e distribuir melhor o tráfego”, esclarece.
Entre as intervenções que considera importantes está uma ligação entre a zona da Passagem desnivelada de São Jorginho/Pensamento, a Rotunda de Palmarejo, Terra Branca, ENAVI, Taiti, Várzea, Eugénio Lima e outros pontos da malha urbana.
“A importância desta ligação está precisamente na possibilidade de distribuir o tráfego por um corredor alternativo, reduzindo a pressão sobre os eixos actualmente mais solicitados”, argumenta.
Outra proposta passa pela construção de um anel rodoviário envolvendo uma parte significativa da área urbana consolidada, ligando zonas como Vila Nova, Pensamento, Simão Ribeiro, ENAVI e a Rotunda da Universidade Jean Piaget, seguindo por Palmarejo Grande, Cova Minhoto, Palmarejo, Quebra- Canela/Gamboa e Avenida Marginal até à Ponte de Vila Nova.
A ideia, explica, seria criar uma circulação aproximadamente circular em torno da área central, permitindo que determinados movimentos entre bairros não tenham de atravessar as zonas mais congestionadas.
O engenheiro defende ainda a melhoria das ligações na zona da Praia Negra e a criação de alternativas de acesso ao Porto da Praia e ao Aeroporto Internacional Nelson Mandela.
Outra intervenção que considera prioritária é a melhoria do nó de Terra Branca, através de uma passagem desnivelada que permita facilitar a circulação entre Terra Branca, Achada Santo António e Palmarejo.
E o que pode ser feito sem grandes obras?
“Existe um conjunto de medidas importantes, com soluções de baixo custo, que podem ser implementadas e que certamente irão minimizar o problema e produzir resultados imediatos”, garante José Eduardo Tavares.

Entre elas, aponta para uma melhor gestão do tráfego, a reabilitação e instalação de semáforos nos principais cruzamentos e pontos de estrangulamento, a reorganização dos sentidos de circulação, a melhoria da sinalização e a criação de zonas próprias para paragem.
“Em alguns casos, uma simples alteração da sinalização, do sentido de trânsito ou da organização do estacionamento pode ter um impacto significativo”, sublinha.
O engenheiro considera ainda necessária uma maior fiscalização do estacionamento irregular, envolvendo tanto a Polícia Municipal como a Polícia Nacional.
A médio e longo prazo, porém, defende uma intervenção mais abrangente, através de um plano que permita definir as prioridades de mobilidade da capital e orientar os investimentos.
Esse planeamento deverá contemplar novas ligações rodoviárias, variantes, requalificação de grandes eixos, melhoria de intersecções e, nos pontos onde se justificar, obras de maior dimensão, como passagens desniveladas e viadutos.
“É fundamental garantir que os novos bairros e as áreas de expansão urbana sejam acompanhados, desde o início, por reservas para estradas, passeios, transporte público, estacionamento e outras infra-estruturas. É muito mais barato planear correctamente a cidade antes da ocupação do que tentar corrigir os problemas posteriormente”, sustenta.
Mas, para o engenheiro, aumentar a capacidade das estradas não será suficiente se a cidade continuar dependente do automóvel particular. A melhoria dos transportes públicos deve, assim, ocupar um lugar central na estratégia de descongestionamento.
“Para reduzir a dependência dos automóveis privados, será necessário oferecer às pessoas uma alternativa que seja fiável, segura, confortável, acessível e previsível”, afirma.
Isso implica, segundo José Eduardo Tavares, melhorar os percursos, a frequência das viagens, os horários, as paragens e a qualidade geral do serviço.
A mobilidade pedonal também deve ser considerada, sobretudo numa cidade onde a circulação de peões é frequentemente condicionada pela falta ou pelo mau estado dos passeios.
“É necessário criar passeios contínuos, acessíveis e seguros, melhorar a iluminação e a segurança rodoviária, bem como eliminar obstáculos que dificultam a circulação pedonal”, defende.
A diversificação dos meios de transporte deverá igualmente incluir condições para bicicletas, motociclos e outros veículos de mobilidade ligeira, considera o engenheiro.
“É necessário preparar e criar condições para uma melhor mobilidade eléctrica, para bicicletas, motociclos e outros veículos ligeiros na cidade da Praia, preparando-a para uma nova geração de mobilidade”, afirma.
José Eduardo Tavares chama, contudo, a atenção para o facto de a transição para veículos eléctricos, por si só, não resolver o problema do congestionamento.
“É importante perceber que o automóvel eléctrico continua a ocupar espaço na estrada e, por si só, não resolve o congestionamento”, alerta.
Para reduzir efectivamente o número de automóveis em circulação, defende a criação de faixas próprias, seguras, contínuas e devidamente sinalizadas para bicicletas e outros meios de mobilidade ligeira.
O engenheiro considera que a Praia precisa de uma mudança na forma como pensa a mobilidade, deixando de centrar a resposta exclusivamente na construção de estradas.
“O congestionamento não se resolve apenas construindo mais estradas com vias modernas. Precisamos de uma melhor gestão do tráfego, melhor utilização da rede existente, novas ligações onde forem necessárias, transportes públicos mais eficientes, melhores condições para peões e ciclistas e novas soluções de mobilidade, incluindo a mobilidade eléctrica anteriormente referida”, reitera.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291 de 26 de Agosto de 2026.
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