Doenças cardiovasculares mudam de perfil e torna-se principal causa de morte no país

PorSheilla Ribeiro,4 out 2026 8:54

Em quatro décadas, o perfil das doenças cardiovasculares no país mudou. Se, no início dos anos 1980, a febre reumática e as doenças das válvulas do coração afectavam sobretudo crianças e jovens, hoje são o entupimento das artérias, a hipertensão, a obesidade, a diabetes e o sedentarismo que assumem maior peso. É neste contexto e no âmbito do Dia Mundial do Coração, assinalado a 29 de Setembro, que esta reportagem olha para os desafios que persistem na prevenção e no tratamento.

Aos seis anos, Angela Varela foi diagnosticada com um problema cardíaco. Aos 15, foi evacuada para Portugal, onde foi submetida à primeira cirurgia. Hoje, aos 36 anos, vive com uma prótese mecânica e depende diariamente de anticoagulantes para evitar complicações.

A doença foi identificada após episódios de desmaios, tonturas e cansaço frequente. A primeira intervenção ocorreu em 2005, no Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

Anos mais tarde, durante a adolescência, o crescimento fez com que a solução colocada na primeira cirurgia deixasse de ser suficiente e, aos 22 anos, Angela voltou ao bloco operatório.

“Até hoje estou a viver com uma prótese mecânica e tomo todos os dias um anticoagulante”, conta.

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Angela Varela

O tratamento implica ainda um controlo regular da Razão Normalizada Internacional (INR), exame que permite avaliar a coagulação do sangue.

A rotina é marcada pela necessidade de vigilância constante. Quando os níveis de INR descem, Angela pode precisar de medicação adicional.

“Se eu não tomar esse medicamento, posso sofrer uma embolia pulmonar, posso ter o meu sangue coagulado”, explica.

A alimentação também exige cuidados. Angela relata que uma alteração na dieta chegou a provocar-lhe uma emergência. Depois de consumir um sumo com ingredientes ricos em vitamina K, sofreu uma paralisia de um lado do corpo e foi levada às urgências.

“Com cinco minutos de atraso, estarias morta”, recorda ter ouvido do cardiologista que a acompanhava.

Apesar das limitações, a entrevistada mantém o acompanhamento médico no país, entre o Hospital Agostinho Neto e o sector privado. As consultas e análises fazem parte de uma rotina que considera indispensável para quem vive com uma doença cardíaca de alto risco.

A condição também interfere na actividade física e no quotidiano. Angela evita exercícios intensos e opta por caminhadas ou Pilates. Em ambientes com muitas pessoas, diz sentir tonturas, aceleração dos batimentos cardíacos e, por vezes, chega a desmaiar.

Há ainda um som que faz parte permanente da sua vida: o “tic-tac” da prótese mecânica.

Depois de duas cirurgias cardíacas, múltiplos acompanhamentos médicos e uma vida dependente de medicação, Angela considera que a prevenção deve começar antes de surgirem sintomas.

“Uma pessoa pode aparentar estar 100% saudável aos olhos de outra pessoa. Mas, sem ir ao médico ou fazer um check-up, fica complicado”, defende.

Da febre reumática às artérias obstruídas

Quando Dario Dantas dos Reis começou a exercer cardiologia em Cabo Verde, no final de 1980, os consultórios recebiam sobretudo crianças e jovens afectados pelas consequências da febre reumática.

A doença, que pode lesar as válvulas cardíacas, levava muitos pacientes a serem evacuados para Portugal para tratamento cirúrgico.

Quatro décadas depois, o cenário é diferente. A melhoria das condições de vida e as medidas de prevenção contribuíram para a redução dessas doenças, enquanto ganharam espaço as patologias relacionadas com o sistema arterial.

“O aparelho cardiovascular é, neste momento, a principal causa de morte aqui em Cabo Verde”, afirma o cardiologista reformado.

A mudança, segundo explica, acompanhou transformações nos hábitos da população, com aumento do excesso de peso, menor actividade física e alterações na alimentação.

O resultado manifesta-se sobretudo através da aterosclerose, processo em que substâncias se acumulam nas paredes das artérias e dificultam progressivamente a circulação sanguínea.

Quando a obstrução é total, as consequências variam conforme o órgão afectado: pode provocar um acidente vascular cerebral, quando atinge o cérebro, ou um enfarte do miocárdio, quando envolve as artérias do coração.

“Qualquer destes leitos vasculares que sofra uma obstrução à circulação do sangue pode originar doença”, resume Dario Dantas dos Reis.

Entre os factores associados à aterosclerose estão a hipertensão arterial, a diabetes, a obesidade, o sedentarismo, o tabagismo e a predisposição genética.

A alimentação surge igualmente entre as preocupações. O consumo frequente de gorduras saturadas, carnes processadas e outros alimentos pode contribuir para alterações que favorecem a acumulação de colesterol nas artérias.

Para Dario Dantas dos Reis, a prevenção não deve começar apenas quando surgem os primeiros sintomas.

“Deveria começar-se a incutir isto na cabeça das crianças, nas escolas, porque os hábitos relacionados com a alimentação, a actividade física e outros factores de risco devem ser trabalhados desde cedo”, defende.

Nos jovens, o sedentarismo e o excesso de peso assumem particular relevância. O tabagismo, embora considerado um factor de risco, apresenta, segundo o cardiologista, maior prevalência nas faixas etárias acima dos 60 anos.

Entre os principais desafios está também a hipertensão arterial: mais de 150 mil cabo-verdianos vivem com este problema.

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Crédito Foto: Depositphotos_156185960_XL

Segundo Dario Dantas dos Reis, uma parte das pessoas com hipertensão desconhece que tem a tensão arterial elevada; outras sabem, mas não fazem tratamento, enquanto algumas seguem medicação sem conseguir manter os valores controlados.

“Se nós formos excluindo isto, verificamos que uma percentagem pequena das pessoas, talvez um quarto desta totalidade dos 150 mil hipertensos que eventualmente existem em Cabo Verde, é que faz tratamento e está controlada”, calcula.

O especialista considera preocupante a possível dimensão do problema.

Sinais de alerta

O corpo pode dar sinais antes de uma emergência cardiovascular. Um cansaço anormal para a idade e para o nível habitual de esforço deve merecer atenção, assim como dores no centro do peito, sobretudo quando assumem uma sensação de pressão ou aperto.

Já no caso dos acidentes vasculares cerebrais, os sintomas podem surgir quando a situação já é grave. A perda de mobilidade de uma parte do corpo ou a dificuldade em articular palavras estão entre os sinais referidos pelo cardiologista.

A procura tardia de cuidados constitui, na avaliação de Dario Dantas dos Reis, uma dificuldade adicional, sobretudo quando se trata de doenças como a hipertensão, que pode evoluir sem sintomas evidentes.

Diagnóstico avançou, mas tratamento ainda tem limites

A cardiologia cabo-verdiana também mudou. Dario Dantas dos Reis recorda que, durante os primeiros anos da sua carreira, terá sido um dos poucos, ou mesmo o único, cardiologista no país. Hoje, existe um número maior de especialistas e uma capacidade de diagnóstico mais ampla.

A introdução da ecocardiografia, da monitorização ambulatória da tensão arterial, do Holter e de exames de imagem, como a TAC, ampliou as possibilidades de identificar alterações cardíacas e vasculares.

No tratamento, porém, permanecem limitações. Alguns procedimentos para desobstrução das artérias, como a angioplastia com colocação de stent, ainda não são realizados no país de forma rotineira.

O procedimento permite alcançar a artéria obstruída com um cateter, dilatar a zona afectada e colocar um stent para ajudar a manter a passagem do sangue.

“São coisas já feitas com alguma rotina em vários sítios do mundo e que nós ainda não estamos a fazer e que precisamos de começar a fazer”, considera.

Para reduzir a mortalidade cardiovascular, o cardiologista defende maior articulação entre os programas de hipertensão, diabetes e nutrição, além de uma aposta mais precoce na educação para a saúde.

A prevenção, entende, não deve esperar pela idade adulta.

“Aquilo que semeamos durante a vida, nós vamos colher nos anos mais avançados da nossa vida”, resume.

O Expresso das Ilhas solicitou dados actualizados ao Ministério da Saúde, mas, até ao fecho desta edição, não havia obtido resposta.

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As doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de morte do país. A hipertensão arterial é um dos principais factores de risco e afecta mais de 150 mil cabo-verdianos, ou seja, mais de 30% da população, segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) em Maio de 2025.

De referir que, em 2022, a médica especialista em neurologia Albertina Lima avançou ao Expresso das Ilhas que o Acidente Vascular Cerebral (AVC) é actualmente a principal causa de morte (cerca de 300 por ano) e uma das principais causas de incapacidade permanente no país.

Na altura, declarou que, apesar de ainda não haver dados concretos a nível nacional, existe uma percepção de que o país já regista um aumento de casos de AVC em pessoas com menos de 50 anos.

Entretanto, em 2025, numa mesa-redonda alusiva ao Dia Mundial de Combate à Hipertensão Arterial, o INSP alertou para o aumento da hipertensão entre pessoas mais jovens, com casos de pressão arterial elevada a serem identificados entre os 35 e os 40 anos.

A alimentação, o sedentarismo, o consumo de álcool e o tabagismo foram apontados entre os factores associados à hipertensão.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1296 de 30 de Setembro de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,4 out 2026 8:54

Editado porFretson Rocha  em  4 out 2026 9:46

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