As conclusões constam do relatório da Comissão de Inquérito, apresentado na segunda-feira,12.
Segundo o director-geral dos Transportes Rodoviários, Emanuel Almeira, o veículo que tansportava 38 pessoas, tinha capacidade para apenas 30 passageiros.
“A causa directa e determinante identificada pela Comissão foi a perda total da eficácia de travagem por fadiga térmica severa. A viatura tinha capacidade para 30 passageiros, tinha 38 passageiros, portanto havia uma sobrelotação da viatura. A sobrelotação dá uma maior massa e maior energia cinética e maior solicitação dos travões, como ficou provado na perícia técnica feita pela Comissão”, afirmou.
De acordo com o responsável, a viatura circulava num percurso com declive acentuado, que exigia uma utilização contínua dos travões.
O esforço prolongado provocou a acumulação de calor, a dilatação dos tambores e a consequente perda de atrito, até à falha do sistema de travagem.
A perícia técnica detectou ainda desgaste severo nos componentes, bem como alterações artesanais no sistema de travagem, que modificaram a geometria original.
Conforme o relatório, a viatura não dispunha de travão auxiliar por escape, um mecanismo que poderia ajudar a controlar a velocidade durante descidas prolongadas.
O relatório identificou igualmente anomalias no sistema de direcção, embora a comissão tenha apontado a falha dos travões como causa directa e determinante do acidente.
Estrada de alto risco e viatura irregular
As condições da via constituíram outro factor de risco. O percurso analisado apresenta cerca de 773 metros de desnível ao longo de aproximadamente 25 quilómetros, com um declive que pode atingir 19%.
No troço entre Tiorno e Campanas de Cima, com cerca de oito quilómetros, a comissão verificou a ausência de barreiras metálicas, muros ou outros sistemas de contenção que pudessem reduzir as consequências de uma saída de estrada.
Emanuel Almeida mencionou que a última inspecção do veículo ocorreu a 30 de Novembro de 2025 e era válida até 28 de Fevereiro de 2026. O acidente aconteceu a 5 de Setembro de 2026, pelo que o veículo circulava há cerca de seis meses sem inspecção válida.
“A viatura estava com seis meses, portanto, com inspecção caducada. Não tinha passado nas inspecções. Portanto, estava irregular”, explicou.
Quanto ao comportamento do condutor, a comissão afastou a hipótese de negligência voluntária e a possibilidade de uma crise hipoglicémica incapacitante, tendo em conta que o motorista era diabético.
A investigação concluiu, assim, que o acidente resultou de uma cadeia de falhas, e não de um único factor isolado.
Comissão recomenda reforço da fiscalização
Entre as principais recomendações, o relatório propõe a instalação de barreiras de protecção, rampas de escape e sinalização reforçada nos troços de maior risco. Defende também a criação de zonas de arrefecimento dos travões (lombas), com medidas que permitam aos condutores reduzir a velocidade e controlar melhor os veículos nas descidas.
No domínio da fiscalização, a comissão recomenda a instalação de um centro de inspecção permanente na ilha do Fogo, a introdução de tacógrafos digitais, o controlo do peso e da lotação dos veículos e o reforço da actuação da Polícia Nacional e da Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários.
Propõe ainda a imobilização de viaturas que não ofereçam condições de segurança e mais formação especializada para os condutores.
O relatório já foi entregue ao Governo, que deverá apreciar as conclusões e definir os próximos passos. A comissão admite que outras diligências poderão ocorrer, mas remete essa possibilidade para as instituições judiciais e policiais.
Entretanto, o Governo articula com o Ministério da Defesa a mobilização de técnicos e das Forças Armadas para retirar a viatura do local do acidente.
De referir que no sábado, 5 de Setembro, na ilha do Fogo, um autocarro que transportava, sobretudo estudantes, despistou-se no trajecto entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima e caiu numa ravina de cerca de 30 metros.
Das 25 vítimas mortais, 17 eram estudantes e a maior parte pertencia ao Agrupamento III, com sede na Escola de Curral Grande, e três ao Agrupamento IV, sediado em Ponta Verde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.
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