O Senado será um órgão consultivo destinado a reunir figuras que marcaram a história da organização política, preservando a sua memória, os seus valores e a experiência acumulada ao longo dos anos. “Um partido que não honra a sua história dificilmente será capaz de construir o seu futuro. É por isso que hoje quero anunciar a criação do Senado do MpD”, declarou Paulo Veiga no discurso de encerramento da Convenção.
O novo presidente do partido defendeu que a história da organização deve continuar a ter um papel activo na sua vida política. “A história do MpD vale muito mais do que uma vitrine no museu. Queremos que ela continue viva, presente e ao serviço das nossas gerações”, afirmou, anunciando Carlos Veiga como primeiro presidente do órgão.
A criação do Senado deverá ser formalizada numa convenção nacional extraordinária, prevista para Janeiro, juntamente com a eleição de outros órgãos internos.
Paulo Veiga anunciou igualmente a criação da Escola de Formação Política José Filomeno Monteiro, em homenagem ao antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, que morreu em Dezembro de 2025. A iniciativa insere-se na estratégia de renovação do partido e de preparação de novos quadros e lideranças.
O dirigente prometeu reforçar a democracia interna, devolver poder às estruturas concelhias, valorizar os militantes e abrir espaço a novas lideranças. Para concretizar estes objectivos, anunciou que a Comissão Política Nacional deverá criar gabinetes de apoio às estruturas e funções de secretários executivos adjuntos.
“Hoje não estamos a encerrar a nossa convenção. Estamos a começar um novo ciclo para Cabo Verde”, afirmou, defendendo um partido mais próximo das comunidades e capaz de apresentar soluções para os problemas do país.
Nova direcção com representação das candidaturas
A XIV Convenção Nacional confirmou Paulo Veiga como oitavo presidente do MpD e ficou marcada pela formação de novos órgãos nacionais, num ambiente de apelo à unidade depois das eleições internas disputadas há cerca de um mês por Paulo Veiga, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares.
A nova Direcção Nacional integra representantes ligados às três candidaturas à liderança.
A Direcção Nacional passa de 64 para 72 membros, na sequência da revisão dos estatutos aprovada durante a convenção. Os lugares reservados à representação concelhia e à diáspora aumentam de 52 para 63.
A Comissão Política Nacional, designada pela nova Direcção, passa de 26 para 21 membros: o presidente do partido, 18 membros eleitos e dois por inerência.
Foram também anunciados três dos seis vice-presidentes: os deputados Isa Costa, Orlando Dias e Celso Ribeiro. A escolha dos restantes ficou para uma fase posterior. Lúcia Passos foi eleita presidente da Direcção Nacional, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo desde a criação do partido. Luís Teixeira foi eleito secretário executivo.
Durante os trabalhos, o líder da bancada parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, apresentou a demissão, justificando a decisão com a intenção de não constituir um obstáculo à nova liderança nem ao partido.
Paulo Veiga critica Governo e questiona Orçamento do Estado
No discurso de encerramento, o novo líder do MpD dirigiu também críticas ao Governo do PAICV, que assumiu funções após a vitória nas legislativas de 17 de Maio, pondo fim a dez anos de governação do partido.
Paulo Veiga reconheceu que os primeiros 100 dias não são suficientes para resolver todos os problemas do país, mas considerou existir “uma distância preocupante entre o discurso eleitoral e as primeiras opções” do Executivo.
“Afinal, para este Governo, Cabo Verde não é para todos”, afirmou, numa inversão do lema de campanha do PAICV.
O dirigente considerou insuficientes as medidas anunciadas para limitar o aumento do preço do gás butano e defendeu apoios às famílias vulneráveis, aos transportes públicos e à protecção dos bens essenciais. Disse que o MpD não pede “milagres”, mas “respostas proporcionais às dificuldades que as pessoas estão a enfrentar”.
As críticas estenderam-se à proposta do Orçamento do Estado para 2027. Paulo Veiga questionou a compatibilidade entre a promessa de reduzir o peso do Estado e as projecções para as despesas com pessoal, que deverão passar de 25,4 mil milhões de escudos, em 2025, para 36,5 mil milhões em 2027.
Em sentido contrário, o investimento público deverá diminuir de 13,2 mil milhões para 8,3 mil milhões de escudos, segundo os valores apresentados pelo dirigente, que apontou ainda reduções nas dotações destinadas à sustentabilidade energética, à transformação digital e à agricultura.
O presidente do MpD garantiu que o partido exercerá uma oposição responsável, fiscalizando as decisões do Executivo e exigindo transparência na utilização dos recursos públicos. Sublinhou, contudo, que não deseja o fracasso do Governo, por considerar que seriam os cidadãos a suportar as consequências.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.
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