O que acontece ao corpo quando a menopausa chega mais cedo?

PorSheilla Ribeiro,17 out 2026 9:05

Quando a menopausa surge antes dos 45 anos, é considerada precoce e pode trazer alterações que vão muito além da interrupção da menstruação. Mudanças hormonais, sintomas físicos, impactos na fertilidade, na sexualidade e no bem-estar emocional podem passar a fazer parte da vida de mulheres ainda em idade reprodutiva.

Conforme explica a ginecologista Carla Silva, a menopausa precoce acontece quando a menstruação cessa definitivamente antes dos 40 anos (pelo menos, um período de 12 meses consecutivos). Já a menopausa natural costuma acontecer entre os 45 e os 55 anos.

“Muitas vezes, a causa é desconhecida. As principais causas identificadas incluem factores genéticos, algumas síndromes que alteram o cromossoma X e antecedentes familiares; doenças auto-imunes, quando o próprio corpo ataca os ovários; tratamentos médicos, como a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia de remoção dos ovários; e factores relacionados com o estilo de vida, como o tabagismo, a exposição a toxinas, algumas infecções e doenças metabólicas”, elenca.

Os primeiros sinais e sintomas da menopausa precoce são, conforme Carla Silva, semelhantes aos da menopausa natural.

Isto inclui ciclos menstruais muito irregulares ou ausentes, ondas de calor e suores nocturnos, secura vaginal e diminuição do desejo sexual, alterações de humor e do sono, cansaço extremo, queda de cabelo, pele seca e dificuldade em engravidar (muitas vezes, este é o primeiro sinal).

O diagnóstico é feito pelo ginecologista com base na história clínica, nos sintomas e no doseamento de algumas hormonas.

Segundo Carla Silva, a menopausa precoce apresenta algumas consequências para o corpo da mulher, para além das relacionadas com a fertilidade.

“A falta precoce de estrogénio afecta o corpo todo. Há um risco maior de desenvolver osteoporose (doença crónica que diminui a densidade mineral dos ossos), o que aumenta as hipóteses de se ter fracturas; aumenta o risco de doenças cardíacas e enfartes; há um impacto profundo na auto-estima, na identidade feminina e no bem-estar psicológico”, indica.

Ao receber o diagnóstico de menopausa precoce, a mulher pode ser submetida a tratamento.

“O principal tratamento é a reposição hormonal com estrogénio e progesterona, para aliviar os sintomas e também proteger o coração e os ossos. Outras medidas importantes incluem actividade física, alimentação equilibrada, suplementação de cálcio e vitamina D, acompanhamento da saúde óssea e cardiovascular e apoio psicológico, para lidar com a infertilidade e as mudanças corporais”, acrescenta.

Carla Silva aconselha as mulheres jovens que notem irregularidades menstruais a procurar um ginecologista, uma vez que o diagnóstico precoce muda drasticamente a qualidade de vida futura.

Viver com menopausa precoce

Aos 39 anos, Maria percebeu que algo no corpo não estava “normal”, mas nunca imaginou tratar-se de menopausa.

“Tinha sempre a impressão de que o sangue corria nas veias numa velocidade maior, não sei explicar bem, mas sei que senti uma circulação diferente, além de calor e mudanças no humor”, conta.

Às vezes, Maria também sentia dores nos joelhos. Antes de ir ao médico, relata que pesquisou na Internet e viu que poderia tratar-se de menopausa, mas não levou a sério esta possibilidade devido à idade.

“Pensei logo que se tratava de alguma doença, mas nunca de menopausa. Por isso, decidi procurar um ginecologista para excluir logo esta opção”, diz.

Na primeira consulta, narra, a ginecologista falou da possibilidade de menopausa precoce e pediu alguns exames que depois viriam a confirmar o diagnóstico.

“Fiquei espantada e lembro-me que o primeiro pensamento foi que ainda era muito cedo”, admite.

Maria relata que não menstruou durante 12 meses. Precisamente um ano depois, voltou a menstruar, durante cerca de cinco dias, e, desde então, a menstruação não voltou a ocorrer.

Hoje, aos 40 anos, Maria afirma que a menopausa não afectou em nada a relação com o seu corpo. O único problema, sublinha, é o calor.

“Nos primeiros meses, lembro-me de ter sido muito difícil, embora eu não tenha outros sintomas que afectem, por exemplo, a minha vida amorosa ou a vida sexual. Só calor e alterações de humor. Menos mal, tenho dois filhos e não pretendia ter mais”, complementa.

Ao saber do diagnóstico, a família de Maria riu-se da situação. Isto porque, conforme detalha, tem seis irmãs mais velhas e a única na menopausa é a mais velha, de 55 anos.

Maria diz que não está a fazer nenhum tratamento hormonal, não porque não lhe tenha sido receitado, mas porque não realizou um último exame que lhe tinha sido solicitado.

“Parei, praticamente, a consulta a meio. Não sofro assim tanto com os sintomas, por isso não quis continuar”, reconhece.

Que impacto pode ter na saúde emocional da mulher?

A menopausa pode provocar alterações emocionais mesmo quando ocorre na idade esperada, mas, quando surge precocemente, o impacto pode ser ainda mais complexo, sobretudo pela relação com a fertilidade e os planos de maternidade, segundo a psicóloga Ana Lissa Teixeira.

“A menopausa, por si só, já é uma fase que causa algum impacto emocional na mulher, mesmo na idade ou na fase em que é esperada. Quando acontece de forma prematura ou precoce, ganha contornos ainda mais complexos”, explica.

Como exemplo, aponta a desregulação do humor, sentimentos de isolamento, ansiedade e perda associados à interrupção de projectos familiares.

“A mulher pode sentir-se isolada e comparar-se com outras mulheres da mesma idade, o que pode provocar alguma ansiedade. Há também planos que acabam por ser interrompidos, como os de maternidade, o que pode gerar um sentimento severo de luto devido às perdas: a perda da jovialidade, dos planos de maternidade e da construção da família”, complementa.

Entre os sinais que podem indicar dificuldades em lidar com a situação estão a baixa auto-estima, o isolamento e problemas com a auto-imagem.

“Quando a mulher não consegue regular-se emocionalmente, quando sente que já não consegue dar conta da situação ou percebe sinais de isolamento, falta de aceitação em relação à sua auto-imagem ou problemas de auto-estima”, aponta.

Neste contexto, Ana Lissa Teixeira considera importante procurar acompanhamento psicológico, uma vez que a intervenção psicológica pode ajudar a mulher a reorganizar a forma como se vê e a separar o seu valor pessoal da capacidade reprodutiva.

Aliás, refere, a fertilidade surge, neste contexto, como uma das questões com maior peso emocional, sobretudo para mulheres que ainda têm planos de maternidade.

“É um dos pontos que traz muita instabilidade emocional, porque a mulher geralmente tem sonhos com a maternidade, com a construção da família e, com a chegada da menopausa precoce, todo esse sonho pode ficar, digamos, bloqueado”, explica.

Segundo a psicóloga, é importante ter uma rede de apoio e o envolvimento dos parceiros nesta fase.

Quanto à procura de apoio psicológico por parte das mulheres cabo-verdianas, Ana Lissa Teixeira considera que existe uma maior consciencialização, embora ainda persistam lacunas na informação sobre saúde emocional e menopausa.

“Pelo menos, já temos esse despertar, mas eu acredito que ainda temos muito caminho para andar”, afirma.

“Temos ainda muitas mulheres que não têm literacia sobre saúde emocional, mulheres que não entendem o que estão a viver, o processo por que estão a passar, e temos também mulheres que ainda não estão conscientes do processo do climatério, que envolve a perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa, mas estamos a desconstruir e também a construir”, enfatiza.

Vida sexual

Para além do impacto emocional, a menopausa precoce pode provocar alterações na resposta sexual da mulher, desde a lubrificação à intensidade do orgasmo.

A sexóloga Sandra Gonzalez explica que a redução da libido é apenas uma das manifestações.

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“Altera também a lubrificação, altera a excitação, ou seja, a resposta física da mulher demora mais tempo e ela leva mais tempo a ficar excitada. O orgasmo pode tornar-se menos intenso ou mesmo não acontecer, à parte do prazer”, explana.

A redução do estrogénio pode ainda tornar a mucosa vaginal mais fina e menos elástica, aumentando o risco de dor durante as relações.

Segundo a especialista, essa experiência pode levar a mulher a evitar a intimidade.

“Então, se a relação dói, o que muitas vezes acontece, o corpo aprende a proteger-se. E o que faz a mulher? Antecipa-se a essa dor. Deixa de associar o encontro sexual ao prazer e começa a associá-lo à dor, ao desconforto”, salienta.

Perante estas dificuldades, Sandra Gonzalez recomenda acompanhamento médico e terapêutico, incluindo ginecologia, fisioterapia do pavimento pélvico e sexologia.

“Ginecologista com terapia hormonal, fisioterapia do pavimento pélvico. Ajuda a musculatura que intervém no acto, ajuda a contrair e a relaxar, e isto também aumenta a lubrificação e diminui a dor”, frisa.

A comunicação dentro do casal é outro aspecto considerado fundamental, já que o silêncio pode levar a interpretações erradas sobre o afastamento da mulher. “Aprendemos a ensiná-las a comunicar melhor com o parceiro, porque o maior risco, ao nível da relação de casal, neste caso, é o silêncio: não se fala disso”, explica.

Para a sexóloga, o diagnóstico não deve ser confundido com o fim da feminilidade ou da vida sexual.

“A menopausa precoce altera a fertilidade, mas não retira a feminilidade”, enfatiza.

A especialista considera ainda que o casal pode descobrir novas formas de intimidade, adaptando-se às alterações provocadas pela menopausa precoce. “Vamos estender, vamos explorar novas formas de prazer. Descobrimos”, sugere.

“A menopausa precoce não é o fim da vida sexual nem da feminilidade. É uma fase em que precisamos de procurar informação junto dos profissionais certos, cuidados médicos e muita comunicação”, tranquiliza.

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“Florescer na Maturidade” quer quebrar tabus e dar voz às mulheres na menopausa

O projecto “Florescer na Maturidade: Menopausa Sem Tabu”, criado pelos enfermeiros Iveth Alfama, Ridder Lopes e Anaísa dos Santos, nasceu durante o curso de qualificação das competências de actuação dos enfermeiros na atenção primária à saúde, no âmbito da iniciativa Sendo Laços, voltada para o reforço da formação profissional em enfermagem ibero-americana.

Segundo Anaísa dos Santos, a iniciativa surgiu a partir das necessidades identificadas pelos profissionais de saúde durante os atendimentos.

“O profissional de saúde acaba sempre por identificar, na população, nos utentes, na nossa comunidade, necessidades que precisam, muitas vezes, de estratégias para serem minimizadas ou até erradicadas”, explica.

Ao Expresso das Ilhas, a enfermeira conta que, numa primeira fase, foram realizadas, no Centro de Saúde de Ponta d’Água, cidade da Praia, conversas com mulheres em pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa, permitindo perceber a falta de acolhimento sentida durante esta etapa da vida.

“Identificámos que essas mulheres sentem falta de acolhimento, falta de acompanhamento, não só por parte da comunidade e da família, mas também do Sistema Nacional de Saúde, já que não existe um programa próprio para mulheres na fase da menopausa”, afirma.

Para Anaísa dos Santos, a ausência de informação contribui para o preconceito em torno da menopausa e dos seus sintomas, que podem incluir insónia, ansiedade, alterações psicológicas e afrontamentos.

A primeira fase contou ainda com uma equipa multidisciplinar, incluindo nutricionista, psicóloga e médica de clínica geral, que abordaram a alimentação, a saúde mental, os cuidados e os tratamentos disponíveis.

A segunda fase do projecto pretende alcançar a população em geral, com o objectivo de contribuir para uma mudança na forma como a menopausa é compreendida na sociedade. “Passo a passo, podemos mudar esse paradigma, mudar esse pensamento que a sociedade tem relativamente à menopausa”, reitera.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1298 de 14 de Outubro de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,17 out 2026 9:05

Editado porAntónio Monteiro  em  17 out 2026 11:10

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