Erupção do Vulcão do Fogo: Um golpe na economia local

PorExpresso das Ilhas,8 dez 2014 0:00

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A erupção do Vulcão do Fogo pôs a nu as fragilidades de Chã das Caldeiras e colocou a economia local em risco. Entretanto a ajuda internacional já começou a chegar a Cabo Verde.

 

Os terrenos de Chã das Caldeiras no sopé do Vulcão do Fogo são dos mais férteis de Cabo Verde, principalmente para a produção de frutas. A economia das famílias e da região estava em franca expansão com a produção e comercialização de vários produtos, entre eles o vinho de Chã que é exportado, e o turismo devido ao interesse em ver o vulcão.

Dez dias após o início da erupção, a madrugada foi mais uma vez devastadora, com as lavas a consumirem a escola de Ensino Básico e a única pensão no local e a ameaçarem casas e terrenos.

O presidente da Câmara Municipal de São Filipe, Luís Pires, que coordena o grupo de resposta na ilha, foi taxativo ao dizer, aos microfones da Rádio Voice of America (VOA), que apenas os terrenos poderão ser aproveitados no futuro “As terras que ficarem serão suficientes para relançar o desenvolvimento deste importante lugar turístico”, garantiu.

Para fazer frente ao futuro, o Governo criou um Gabinete de Crise, dirigido pelo general Antero Matos que, em conversa com a VOA, explica os primeiros trabalhos a serem desenvolvidos. “Há uma equipa de técnicos que vai hoje ou amanhã ao Fogo identificar a área onde se irá alojar todos os residentes e criar as infra-estruturas necessárias para que possam retomar a sua vida”, diz Matos.

As organizações da sociedade civil, igrejas e grupos de cidadãos têm desenvolvido um intenso trabalho na ajuda às vítimas do vulcão e, segundo Antero Matos, esse potencial irá ser usado no futuro.

 

Vigilância dos Açores

Os centros de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) e de Vulcanologia da Universidade dos Açores estão a acompanhar desde a primeira hora a erupção do vulcão da ilha cabo-verdiana do Fogo, particularmente as trajectórias da escoada lávica.

“O CIVISA, em conjunto com o Centro de Vulcanologia, está a realizar vários trabalhos de modelação no sentido de prever, ou de antecipar, qual serão as futuras trajectórias que a escoada lávica poderá tomar”, disse a presidente da direção do CIVISA, Teresa Ferreira, em declarações à Lusa.

O vulcão do Fogo entrou em erupção a 23 de Novembro e até ao momento a lava já destruiu mais de 50 habitações, muitas cisternas de água, currais, várias casas de apoio à agricultura e uma vasta área de terreno agrícola.

Teresa Ferreira explicou que o CIVISA e o Centro de Vulcanologia “transmitem posteriormente toda esta informação aos seus colaboradores em Cabo Verde”, que “depois a discutem com as entidades locais”.

“O Centro de Vulcanologia há muitos anos participou na actividade eruptiva de 1995. Muitos de nós estiveram lá na altura e conhecemos muito bem o terreno. Portanto, temos alguma facilidade em perceber o comportamento que esta actividade eruptiva poderá ter”, referiu.

Paralelamente, dois bolseiros de doutoramento da Universidade dos Açores estão também no terreno a acompanhar e a colaborar com a Universidade de Cabo Verde e Protecção Civil local, disse.

Um desses bolseiros é docente da Universidade de Cabo Verde, mas encontra-se a fazer doutoramento na academia açoriana, no Centro de Vulcanologia, enquanto o outro é um elemento da Protecção Civil de Cabo Verde.

A diferença principal entre esta ocorrência e a de 1995, e daí esta maior preocupação, é que em 95, e sendo o centro emissor localizado praticamente no mesmo sítio, as escoadas lávicas ocuparam uma região de Chã das Caldeiras muito pouco habitada, destruindo principalmente, nesta ocasião, áreas de cultivo, referiu Teresa Ferreira, salientando que actualmente a actividade eruptiva “tem tido um comportamento ligeiramente irregular, com alguns incrementos de actividade”.

 

Apoio da UE

A Comissão Europeia anunciou esta terça-feira que o mecanismo de protecção civil da União Europeia foi activado para apoiar Cabo Verde na sequência da erupção do vulcão do Fogo, acrescentando que Portugal já ofereceu assistência em géneros. Apontando que o mecanismo foi accionado por solicitação das autoridades de Cabo Verde, o executivo comunitário indica que já se encontra a caminho do arquipélago um navio da Marinha - a fragata Álvares Cabral - com equipamento de telecomunicações, um helicóptero e bens de auxílios tais como camas, cobertores e máscaras respiratórias. A Comissão indica que está a suportar os custos de transporte do material e, adicionalmente, dois especialistas de protecção civil estão a ser destacados através do mecanismo para apoiar a missão das Nações Unidas de avaliação e coordenação em casos de desastres. O executivo comunitário indica ainda que “o centro de coordenação de resposta de emergência da Comissão Europeia está em contacto próximo com as autoridades de Cabo Verde e com os participantes no mecanismo de protecção civil da UE”, estando ciente de que os fluxos de lava e as erupções intensificaram-se nos últimos dias, levando as autoridades a ordenar a evacuação de várias centenas de residentes.

 

Cientistas portugueses no terreno

Uma equipa de quatro cientistas portugueses já chegou a Cabo Verde para ajudar a monitorizar a erupção na ilha do Fogo, activa desde domingo, 23 de Novembro.

A equipa coordenada por Rui Fernandes, da Universidade da Beira Interior, vai colocar no terreno dez estações de sismografia e sete estações de geodesia espacial para monitorizar sismos e deformações no solo.

“Vamos monitorizar as deformações do solo e dar essa informação ao Governo”, explicou o cientista ao Público.

Estas deformações – subidas e descidas do chão – podem estar associadas ao aparecimento ou desaparecimento de magma no subsolo. E podem ajudar a “detectar zonas onde poderão abrir-se novas bocas eruptivas”, acrescentou o cientista.

Na quinta-feira, a Lusa noticiou que as sete bocas da erupção uniram-se entre si e juntaram-se ainda a uma oitava boca. João Fonseca descodifica estes fenómenos do vulcanismo: “O magma em profundidade propaga-se em filões, numa espécie de parede vertical, sobe por fissuras e vai interceptando a superfície em vários pontos.” Esses pontos onde a lava acaba por surgir são as bocas de erupção que, segundo o investigador, tendem a unir-se.

 

Fragata a caminho

A fragata Álvares Cabral chega hoje a Cabo Verde com uma tripulação de 201 elementos para prestar assistência médico-sanitária e apoio logístico aos afectados pela erupção vulcânica na ilha do Fogo.

O navio zarpou da Base Naval do Alfeite, em Almada, com um helicóptero e cerca de uma dezena de embarcações (botes e semirrígidos) para apoio no transporte de pessoal e material para o terreno, estimando chegar a Cabo Verde na quarta -feira.

“Levamos material que foi dado por instituições portuguesas para apoio à catástrofe que está a acontecer em Cabo Verde, e equipamento próprio da Marinha para prestarmos assistência médico-sanitária, apoio logístico e também para fornecimento de alimentos e água à população”, explicou aos jornalistas o comandante da fragata.

Alexandre Serrano referiu que o navio transporta, por exemplo, mais de 1.000 máscaras e mais de um milhar de cobertores, além de outros materiais de apoio humanitário.

A guarnição da Álvares Cabral foi reforçada com fuzileiros, mergulhadores e equipas médicas, num total de 201 tripulantes, 25 dos quais mulheres.

“Reforçamos a guarnição do navio nessa área [clínica] e, além de um conjunto bastante grande de socorristas, temos também dois médicos e dois enfermeiros”, sublinhou o comandante, antes de o navio rumar a Cabo Verde.

A fragata vai ficar fundeada ao largo da ilha do Fogo, local a partir do qual vai desenvolver as operações.

“A ilha do Fogo não tem condições para nos prestar apoio logístico, nem para nós podermos atracar. Ficaremos fundeados ou a pairar perto e desembarcaremos o nosso material e forneceremos o nosso apoio ao largo da ilha”, frisou o oficial.

Alexandre Serrano acrescentou que a fragata irá à Cidade da Praia, capital de Cabo Verde, para apoio logístico e para contactar com as autoridades locais.

A missão está planeada para 15 dias, mas há possibilidade de vir a ser prolongada.

“Esta missão está prevista para um período de 15 dias. Contudo, dada a sua natureza, muita da sua duração será ditada pela força das circunstâncias. [ficar além dos 15 dias] É um pressuposto que não está estabelecido, mas está implícito”, salientou o comandante.

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Autoria:Expresso das Ilhas,8 dez 2014 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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