O naufrágio do navio Vicente no qual morreram 15 pessoas dificilmente sairá da memória colectiva. As sequelas emotivas, e mesmo materiais, ainda são imensas, com críticas também levantadas à falta de apoio e indeminização aos familiares das vítimas. Mas o próprio acidente em si parece ainda alvo de muitas dúvidas, como se viu no debate de segunda-feira na Assembleia Nacional. Já foram feitos três relatórios sobre o tema, mas pelo menos por parte da oposição, há ainda factos e responsabilidade a apurar.
O último dos três relatórios sobre o tema esteve a cargo da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Segurança Marítima (CPI - SM) e apontou a sobrecarga do navio, mau tempo, deficiência na gestão do trafego e erro do comandante, como as principais causas do acidente.
O documento foi aprovado por unanimidade dos deputados do MpD e PAICV, mas, aquando da sua entrega ao presidente da Assembleia Nacional, Basílio Mosso Ramos, a 10 de Agosto, a deputada do MpD, Eunice Silva que presidiu a CPI – SM, apontou que este era o relatório “possível” tendo em conta que se estava a trabalhar com duas bancadas, com visões e apreciações diferentes.
Assim, alguns aspectos que o seu partido considerava importantes ficaram de fora, porque nas divergências optou-se pela votação, tendo a posição da maioria, o PAICV, prevalecido.
Os pontos de divergência, que constam na declaração de votos anexada, prendiam-se com a questão dos meios públicos de salvamento e busca, a deficiência no controlo e fiscalização nos portos de Cabo Verde e a situação das famílias das vítimas. Temas levantados no debate da sessão parlamentar iniciada esta segunda-feira.
Relatórios independentes
Antes, haviam já sido realizados dois relatórios de inquérito ao acidente: um pela autoridade marítima portuária (AMP) e outro pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes Marítimos (GPIAM), de Portugal. Ambos os relatórios já foram também entregues ao Ministério Público.
As conclusões desses dois relatórios independentes foram aliás referidos por diferentes vezes durante o debate, com a ministra das Infra-estruturas e economia marítima, Sara Lopes, a frisou a idoneidade das entidades inquiridoras.
Na sessão, também a ministra da Administração Interna, Marisa Morais, se referiu a eles, sublinhando que, tal como o próprio relatório produzido pela CPI, são unânimes ao imputar as responsabilidades ao comandante do navio.
Recorde-se então o que dizem estes relatórios, que, embora imputando culpas ao comandante, apontam, contudo, também falhas a outros níveis e entidades.
Segundo o relatório elaborado pelo GPIAM o navio Vicente afundou-se após uma manobra “para além do seu limite de estabilidade transversal”. Esse limite era bastante baixo devido à “excessiva carga que o navio carregava: cerca de mais 60% que o máximo possível”.
Mas como refere o documento emitido por aquela entidade portuguesa para “além do excesso de carga, o acidente resultou também da necessidade que o “Vicente” teve de ir condicionando a sua posição à hora de libertação do cais de atracação em porto de Vale de Cavaleiros, à medida que se ia aproximando deste. Já enfiado com a entrada do porto e a cerca de 1.2 milhas deste, terá presumivelmente sentido a necessidade de guinar a bombordo para dar resguardo suficiente à saída do “Ostreia””. Manobra mal feita, desequilíbrio, naufrágio. E se o “Ostreia” não estivesse lá? De acordo com Jorge Nogueira, não devia estar e o que se passou foi um erro de gestão do porto de Vale dos Cavaleiros.
Já o relatório elaborado pela AMP refere que houve falta “da devida diligência por parte da Capitania dos Portos de Sotavento, em não mandar suspender a viagem”. Isto porque se constatou que o navio estava sobrecarregado e com as marcas de seguro totalmente mergulhadas na água e adornado cerca de 3º para estibordo. Mesmo assim, permitiu-se a viagem. O relatório indica inclusive o nome do Inspector de Serviço que erradamente “não foi capaz de decidir pela suspensão da viagem”: João Emanuel Barbosa Brazão.
Na altura, o visado afirmou ao Expresso das ilhas que o documento estava a limitar responsabilidades da cúpula da AMP e a procurar bodes expiatórios”.
Sobre esse dia fatídico disse: “Falei com o comandante do navio, o segundo piloto e o armador que estavam já no fim do processo de carga. Disse ao segundo piloto que o navio estava inclinado, aproximadamente cinco graus para estibordo, e ele disse-me que iriam endireitar o navio durante a viagem. De seguida eu ausentei-me, porque eu não sou imediato do navio, nem tenho o caderno de estabilidade, o plano do navio para efectuar os cálculos de estabilidade para ver se o navio estava sobrecarregado ou não.
O inspector da AMP sustentou ainda que se deveria fazer uma investigação mais exaustiva, desde a “compra do navio como sucata, quem foi para a Croácia para inspeccionar o navio e dar o parecer técnico de que o navio devia ser adquirido, quem registou o navio” e também quem permitiu que o comandante Cláudio Ferrer [Comandante do Vicente], que estava sob inquérito do Pentalina B, que ocorreu a 5 de Junho, estivesse a comandar o navio.
Mas também Brazão aponta a incompetência do comandante cubano: “nem sabe fazer a pilotagem de coordenada geográfica na carta de arquipélago”, acusou.
Este inspector jura ainda não ter tido conhecimento de que o navio vinha com avarias.
O mesmo relatório da AMP critica também a Polícia Marítima, apontando que houve “falta da devida diligência por parte do Polícia Marítimo, Sr. João Silva, no serviço de cabotagem, que em momento algum acompanhou a polvorosa criada pela tripulação do navio, alegando que o navio estava sobrecarregado (numa altura destas um motim seria recomendável), não se encontrava presente no cais à hora de saída do navio, a fim de pôr cobro à situação.” No entanto, reconhece, este desconhecia a capacidade máxima do navio.
Outra entidade responsabilizada pela AMP é o armador do navio que numa lógica de lucro fácil, não se importou com “os sucessivos avisos dados pela tripulação, em como o navio estava sobrecarregado e adernado”.
A AMP aponta ainda responsabilidades à ENAPOR, “que como entidade reguladora das suas instalações portuárias, não pode permitir que qualquer armador/agente ou capitão, sobrecarregue o navio para além da capacidade máxima permitida”.
Já o comandante é inculpado pela AMP de negligência “grave e falta de profissionalismo e das boas práticas de navegação” por não ter avaliado “o risco e se deixar submeter às pressões comerciais, quer do armador como do agente”.
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