A capital de Cabo Verde é uma cidade em ebulição, feita de contrastes e diferentes ritmos. Balançando entre o desejo manifesto de ser uma polis moderna e cosmopolita e uma certa ruralidade entre desequilíbrios estruturais e sociais, congrega o melhor e o pior de Cabo Verde. Mais do que uma cidade é um porto onde confluem gentes de vários pontos do país e do globo, que trazem e deixam ficar um pouco de si. É também cidade de recantos a descobrir, pequenas surpresas ao virar da esquina (boas e más, em igual medida) e uma agenda cultural cada vez mais internacional.
A esta altura da sua vida, é provável que já tenha vindo à Praia algumas vezes. No entanto, a capital é uma cidade em constante mutação que permite sempre novos olhares. Pessoas que vêm, pessoas que partem. Espaços que abrem, espaços que fecham. Casas que aparecem da noite para o dia (ok, geralmente em locais muito pouco turísticos que não deve querer ver) e que mudam o recorte da paisagem urbana. Intervenções que vão melhorando e construindo uma Praia melhor arranjada. E um cartaz cultural cada vez mais apelativo – se vier na altura certa.
Seja qual for o motivo que cá o/a traz, seja bem-vindo/a e aproveite para (re)descobrir esta cidade a mil compassos.
Pronto. Chegou à Praia. E agora? O que ver e aonde ir? Comecemos pelas panorâmicas, voltadas para este Atlântico que nos une – ou não fosse o “mar purlongamentu di tera, em forma di modjadu”, como canta Princezito.
Há vários lugares, à proa das diferentes achadas (planaltos) que compõe a Praia, que permitem vistas fabulosas. O miradouro mais conhecido é o Miradouro Diogo Gomes (o navegador que descobriu Santiago), no Plateau, que proporciona uma vista privilegiada sobre o Ilhéu de Santa Maria. Na Achada Santo António, o bairro mais populoso e, provavelmente, o que maiores contrastes apresenta, há o Cruz di Papa, um pequeno e agradável espaço de passeio e lazer, para miúdos e graúdos (um dos poucos da cidade). Daí, vê-se a praia de Quebra-Canela e os agradáveis barzinhos ao seu redor.
Da nossa parte, aconselhamos que se meta no táxi, e siga para o bairro periférico de Achada Grande Frente, onde fica situada também a zona industrial. Não vai encontrar um miradouro referenciado e composto, mas do promontório em bruto e sujo encontra uma das melhores vistas sobre a baía e a cidade. A visão abarca toda a orla costeira, do Porto da Praia, recentemente ampliado, ao Farol de D. Maria Pia – ilhéu ao centro, Gamboa espraiada aos pés dos vales e achadas, mais à direita, a (destruída) Praia Negra.
Agora que já “tirou” a panorâmica vamos ao plano geral dos bairros. E para começar o Platô.
O Platô começou a ser povoado em 1515 (pois, há uma data de anos) e durante a época colonial era considerado o único bairro da cidade. Na verdade, ainda mantém o estatuto de centro económico e histórico (basta ver os ministérios que se espalham pelas suas ruas, ou a sede do Banco Central), mas hoje o centro da capital é, essencialmente, um óptimo lugar de lazer.
O Platô começa no fim da subida da praia da Gamboa. Logo à direita (ora, espreite lá) está o Palácio Presidencial, construído no final do século XIX para ser a residência do governador português. Continuando, chega-se à Praça Alexandre Albuquerque. Mais uma paragem. Olhe à volta. Se estiver em frente à esplanada Morabeza, tem a Câmara Municipal atrás (prédio de fachada clássica e com uma torre central quadrada), à direita está a igreja da Nossa Senhora da Graça (também em estilo classicista) e à esquerda o Palácio da Cultura Ildo Lobo.
Continuemos pela Avenida Amílcar Cabral (sim, essa grande mesmo à sua frente). Seja qual for o dia, o que não falta é movimento na artéria. Pode parar e entrar no mercado municipal, regatear com as vendedoras de frutas e legumes e comprar qualquer coisa para ter forças para o caminho. Reparou na quantidade de cores e cheirou os diversos aromas? Óptimo!
Ao fundo da avenida, à direita, está o Quintal da Música, um dos lugares de culto para quem gosta de comer e ouvir alguns dos sons mais tradicionais de Cabo Verde. Bem jantado? Vamos lá então começar a noite. Saindo do Quintal da Música e contornando à direita entramos na menina dos olhos do Platô – a Rua Pedonal. Faça o favor de entrar. Meia dúzia de passos e temos o Copacabana à esquerda. Pode lá ir a qualquer dia da semana (fecha ao domingo), mas à sexta e sábado costuma ter Karaoke. Sente-se, peça uma cerveja, encha-se de coragem e cante (a sério, cante mesmo, porque se não cantar, o Luís, o dono, assume o microfone, e ele é, digamos, ligeiramente desafinado).
Cansado de cantar? Não há problema, na porta ao lado fica o bar Silver Jazz, um dos espaços mais recentes da Pedonal e um dos locais da moda da vida nocturna da capital. Pode beber (com moderação), pode comer (sem moderação), pode ouvir quem lá canta, ou, se tiver jeitinho, pode subir ao 1º andar, pegar num dos instrumentos e começar uma jam session (ou participar numa que já esteja a decorrer).
Bem dispostinho? Quer voltar para casa? Não há problema, volte no dia seguinte. O que não falta são restaurantes ao longo da pedonal, ou pode ir até à Pracinha da Escola Grande, onde há a esplanada do Café Sofia. Tome um bom pequeno-almoço, veja bem quem está sentado ao lado porque o nosso Prémio Camões, o escritor Arménio Vieira, costuma estar por lá a jogar xadrez ou apenas a conversar. É o local mais procurado pelos intelectuais e é sossegado (sim, sabemos que é isso que quer depois da noite de paródia anterior).
Gostou? Pois, volte sempre. Apesar dos séculos de existência, o Platô continua a ser das poucas zonas da cidade onde é agradável caminhar e tem sempre mais um segredo para descobrir.
Agora que já visitou o coração da cidade, aventure-se para outras paragens.
Pode descer até à beira-mar e seguir pelo passeio que contorna a orla. Não faça isto depois de anoitecer. Aprecie a praia de Santa Maria, que deu nome à própria cidade e que hoje é mais conhecida por praia da Gamboa. Veja as crianças que costumam andar a brincar nesse areal, o ilhéu tão perto, alguns pescadores na sua faina. Continue a andar. Está em Chã-de-Areia. Chega a uma rotunda. Se subir entrará em Achada Santo António, onde fica a Assembleia Nacional e grande parte dos ministérios. Daqui de baixo já consegue ver o Bairro do Brasil, fundado por pescadores e um dos mais emblemáticos da cidade. Também é considerado, hoje, um dos locais mais perigosos. É que na Praia, mesmo os bairros considerados mais nobres – como Achada Santo António – convivem lado a lado com bolsas de criminalidade que condicionam a mobilidade entre zonas.
Se não quiser subir, e preferir ir em frente, vai chegar à Prainha – provavelmente o bairro mais “caro” da cidade. Aí fica a pequena Praia com o mesmo nome. Pode aproveitar para seguir o braço de ilha que leva ao Farol de D. Maria Pia. Pelo caminho, encontra o seminário de São José, onde estudaram algumas figuras de vulto da sociedade praiense e não só.
Volte ao passeio que contorna a orla. Siga em frente até à praia de Quebra-Canela. Se não pretende esticar-se ao sol, nem dar um mergulho nas águas mornas, tome um refresco num dos bares perto da praia e relaxe. Depois apanhe um outro táxi que o leve de volta às artérias interiores da cidade.
Vá, por exemplo, para a Avenida Cidade de Lisboa. À sua esquerda está o imponente e austero Palácio do Governo, à direita, a Biblioteca Nacional e o Auditório, seguidos do memorial a Amílcar Cabral onde o líder surge vestido para enfrentar os ventos siberianos. Está agora a passar pelo Taiti, uma das zonas mais verdes e menos aproveitadas da cidade.
Agora, vê aquela amálgama de gente e cores ao pé de uma rotunda e vários produtos a espreitarem por entre gradeamentos? É sinal que chegou ao Sucupira.
Se veio num domingo nem vale a entrar. Pode ficar pelo mercado que se estende na rua do lado direito da rotunda. Conhecido por “Yá”, aqui vai encontrar essencialmente moda americana ou brasileira, nova ou em segunda mão (geralmente nesta última modalidade) para todos os gostos e feitios. Terá de penar, derrear as costas e vasculhar (com cuidado que as vendedeiras não gostam que se desarrume muito), mas eventualmente conseguirá encontrar a preço de saldo de 98% verdadeiras peças de alta-costura e sapatos que fariam inveja a Imelda Marcos.
Se veio num qualquer outro dia da semana, entre e encontre um pouco de tudo, da máquina fotográfica que anda à procura, a extensões de cabelo, passando por panos africanos. Muita coisa, muitas cores, tudo apertado e concentrado. Ah! E regateie. Sempre!
Já encontrou o que queria (talvez umas havaianas confortáveis que o calor não permite outro calçado)? Tente encontrar uma saída – o mercado de Sucupira é bastante labiríntico – e apanhe um táxi.
Depois de tanto passeio já deve estar com um ratinho no estômago. A boa notícia é que na Praia não faltam bons locais para comer e petiscar. Pode até, por exemplo, comer uma suculenta perna de frango assada na brasa se casualmente encontrar com uma vendedeira informal. Ou escolher um sítio para se sentar e usufruir nas calmas de uma saborosa refeição e ouvir boa música ao vivo. Além dos restaurantes conhecidos há toda uma rede de pequenos cafés e “kioskes” que servem boas bafas e boas refeições. Nada melhor do que perguntar ao seu amigo ou familiar que vive na Praia, que certamente conhece um canto mais ou menos escondido, que tem uma iguaria que vale a pena experimentar. Praia Maria é Sabi!

Turismo Cultural
Sem praias nem montanhas que consigam combater outras paragens como a Boa Vista ou Santo Antão, a cidade da Praia volta-se para o turismo cultural e de negócios.
E a verdade é que tem albergado eventos, cada vez mais conhecidos a nível nacional e internacional que justificam uma visitinha.
Em Abril a cidade entra em ebulição com o Atlantic Music Expo (cuja III edição acontece em 2015) ao qual se segue, imediatamente, o Kriol Jazz Festival (que vai para VII edição e é considerado um dos melhores festivais de world music do, passe-se a repetição, mundo). Ao longo de cerca de uma semana o ambiente muda, fica mais cosmopolita e relaxado. Profissionais da música e da imprensa internacional, gente blasé, de ar bem-disposto e descontraído (o sol tem esse efeito nos nórdicos e não só), inundam o Platô. Mas o melhor mesmo é a música. O dia e as noites são preenchidos por concertos e jam session, combinadas ou improvisadas.
Em Maio, num registo mais popular, chega o festival da Gamboa, inserido nas festas do município. Aí, a música desce do
Platô à praia que dá nome ao evento e a cidade em peso acorre ao areal.
Entre Junho e Julho segue-se uma catrefada de festivais, todos mais ou menos iguais, mais ou menos diferentes, por vezes à ordem de um por semana.
Fora da área da música, há também outras iniciativas para promover o turismo cultural. Um exemplo é o Festival de Cinema que será realizado, pela primeira vez, no próximo mês de Novembro.
No resto do ano há diversas actividades relacionadas com as diferentes artes, muitas vezes de carácter intimista. Nos muitos bares e restaurantes da cidade também é fácil encontrar animação cultural, seja uma actuação de batucadeiras, seja um concerto com mornas, coladeiras ou talaia baixo.
E a noite da capital também tem uma movida razoável. Depois de aquecer num barzinho, aproveite para dar um pé de dança numa das discotecas da capital.
Por tudo isto, e mais alguma coisa, apesar da insegurança, apesar da desorganização, apesar da sujidade de algumas zonas, quem se atreve a dizer que a Praia não tem o seu encanto?
História
Falar da Praia é também falar da história de Cabo Verde, da sua descoberta e povoamento, da sua luta e finalmente da sua independência. Não foi aqui que “tudo começou” (essa primazia coube à Cidade Velha) mas rapidamente se tornou e afirmou como a capital destas terras do oceano.
A vila da Praia de Santa Maria nasceu por volta de 1615, com o povoamento do planalto (Plateau) situado perto da praia com o mesmo nome.
Com o declínio da Ribeira Grande (Cidade Velha), devido aos constantes ataques de piratas, e consequente fuga da sua população, a localidade foi ganhando importância. Em 1770 deu-se a passagem oficial da capital para a vila da Praia. Quase um século mais tarde, em 1858, a vila foi elevada cidade.
Como ir
Dependendo da ilha onde se encontra, poderá chegar à Praia de barco ou avião. Se vem do Fogo ou do Maio tem as duas opções. Se vem de Santo Antão, primeiro terá de chegar a São Vicente e só aí escolher o transporte. O mesmo se passa com a Brava, onde tem de primeiro dar um saltinho ao Fogo. Tenha atenção que em algumas das ilhas não há ligações diárias pelo que deve planear bem os seus dias de partida e chegada.
Onde ficar
Se é cabo-verdiano, certamente terá familiares e amigos a viver na Praia, que o receberão com todo o gosto. Mas se a escapadinha é secreta ou simplesmente não quer acordar com o filho da tia aos berros, tem muitas opções de alojamento por onde escolher, a preços variados. Se pretende um sítio sossegado, mas perto de tudo, com boas condições e bom gosto, o Hotel Santiago, situado em Achada Santo António, é uma boa escolha.
Onde comer
Também aqui não faltam opções. Quer comida tradicional cabo-verdiana? Tem muito por onde escolher. Quer fast food? Também há. Ou então, que tal, ‘nouvelle cuisine’? Dos restaurantes chiques ao bar da esquina, a aventura gastronómica na Praia é uma experiência que o vai deixar satisfeito.
Dicas ao viajante
Mesmo os mais desatentos sabem que a Praia não é uma cidade segura, mas isso não é desculpa para se enfiar no Hotel e não usufruir dos seus encantos. A melhor maneira de se deslocar entre zonas é mesmo de táxi. Há imensos, embora por norma se concentrem apenas à volta dos locais de maior movimento. Os próprios taxistas o poderão informar de quais são bairros mais inseguros e, se pretender parar num deles para conhecer o “outro lado” da Praia, peça-lhes que aguardem. Se pretende ficar mais tempo (para comer naquele fantástico restaurantezinho desconhecido que o seu sobrinho lhe recomendou), uma boa ideia é pedir o contacto a um taxista e telefonar-lhe sempre que tenha dificuldade em encontrar um veículo.
homepage








