Da curiosidade à cautela: ativos digitais na prática - Como começar, controlar riscos e reconhecer fraudes

PorAGMVM,26 dez 2025 11:55

Este artigo tem fins exclusivamente informativos e visa promover a literacia financeira. Não constitui recomendação de investimento nem substitui o aconselhamento profissional. Os criptoativos são voláteis e comportam riscos elevados, incluindo a perda total do capital investido. Tenha em consideração o seu perfil de risco, objetivos e capacidade financeira antes de investir.

Entre 6 e 12 de outubro de 2025 assinalou-se a 9.ª edição da Semana Mundial do Investidor, iniciativa de promoção da educação financeira da Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO, na sigla inglesa) e suas associadas, focada, este ano, nos seguintes temas: Tecnologia e finanças digitais, Inteligência artificial e Prevenção de fraudes e golpes. A mensagem é clara: informação e proteção devem assumir primazia numa decisão de investimento, especialmente no atual contexto de contínua e acelerada inovação.

Comecemos, então, pelos conceitos essenciais.

Os ativos digitais são representações eletrónicas de valor ou com direitos emitidos, detidos e transacionados por meios digitais, por vezes com recurso à tecnologia de registo distribuído, como a blockchain. O termo é abrangente e inclui, entre outros, criptomoedas (tokens nativos de redes blockchain,representativos de moedas virtuais sem curso legal), stablecoins (tokens concebidos para manter paridade com uma moeda fiduciária emitida por um banco central, como o dólar dos Estados Unidos da América), tokens de utilidade (que concedem acesso a serviços ou ecossistemas, um “passe digital” que desbloqueia funcionalidades ou oferece descontos dentro de uma aplicação), Non-fungible Tokens - NFTs (identificadores digitais únicos registados numa blockchain, usados para certificar a propriedade e autenticidade de, por exemplo, uma obra digital ou um item de jogo) e tokens representativos de ativos reais (“security token”, por exemplo, que representa uma fração de uma emissão de dívida/ação e atribui direitos económicos).

Neste artigo, colocamos o foco nas criptomoedas, tendo em conta o seu maior conhecimento e atratividade entre os investidores individuais.

Dois exemplos dominantes são:

  • 1. Bitcoin (BTC) - a primeira moeda digital descentralizada, criada em 2009, com oferta previsível (regras de emissão conhecidas e limite máximo de 21 milhões de unidades); e
  • 2. Ether (ETH) - ativo da rede Ethereum, lançada em 2015, que popularizou os contratos inteligentes. Esses contratos permitem “aplicações descentralizadas”, como plataformas de empréstimo com garantia, que calculam juros e liquidam posições automaticamente, sem a intervenção de um intermediário financeiro.

De forma simplificada, a blockchain, tecnologia na qual se negoceiam ambos os ativos, funciona como um livro-razão público e distribuído, na qual várias entidades registam e validam transações, sem que haja intervenção institucional no controle dos registos.

É crucial sublinhar a volatilidade do mercado de criptomoedas. Os seus preços podem aumentar e reduzir rapidamente. Por isso, investir naqueles ativos exige cautela, planeamento e disciplina.

Com os conceitos claros, avancemos então para as regras procedimentais de um investimento seguro: planeamento apropriado, escolha do intermediário financeiro; abertura de conta e procedimentos de Know Your Customer – KYC (“conheça o seu cliente”, em português), executados pelo intermediário; depósito em segurança, execução e registo das operações e custódia adequada.

Antes de investir, planeie. Defina os seus objetivos, conheça as regras de rebalanceamento para aplicar à sua carteira de ativos, defina os seus limites de perda através de ordens stop‑loss (venda automática a partir de um preço predefinido), assim como uma periodicidade de investimento que o ajude a manter a disciplina.

Investir, na prática, começa pela escolha de intermediários financeiros[1] regulados, ou seja, uma entidade sujeita à supervisão de bancos centrais, de comissões de valores mobiliários ou de outras autoridades supervisoras. Os intermediários financeiros têm como funções: receção, validação e transmissão/execução de ordens; custódia de ativos; e facilitação de depósitos/levantamentos em moeda fiduciária.

Embora não elimine o risco, a escolha de intermediários regulados delimita as vulnerabilidades e assegura a transparência relativa a custos, procedimentos e responsabilidades.

Existem várias opções de plataformas e aplicativos web para investimentos geridos por intermediários financeiros. Compare-os antes de abrir conta ou de se registar, não só atendendo aos custos e funcionalidades, mas também aos licenciamentos e registos, políticas de custódia e segregação de ativos, controlos de segurança, limites de levantamento e prazos de processamento, procedimentos de reclamação e atendimento e transparência sobre riscos e preçários.

Do registo à execução, o percurso típico passa por abrir uma conta e cumprir os requisitos de KYC, processo que consiste, por parte do intermediário financeiro, na recolha e verificação da identidade, morada, experiência e objetivos, origem de fundos e perfil de risco do investidor, assim como na monitorização contínua das suas transações e de listas de sanções. Este processo é essencial para adequar a oferta ao seu perfil de risco e prevenir condutas irregulares e ilegais, como a lavagem de capitais.

Os passos seguintes são depositar fundos com segurança e executar ordens com calma, evitando decisões impulsivas. É boa prática registar, para cada operação, as datas e horas das ordens e da sua execução, os montantes e os identificadores de transação (que funcionam como um “recibo digital” e prova de que a transação ocorreu, permitindo rastrear, num explorador de blockchain, a quantia, a data e hora, os endereços de remetente/destinatário e o estado da transação). Estes registos ajudam-no a monitorar a sua atividade e a confirmar, mais tarde, se os movimentos registados conferem com os extratos e com o saldo efetivo da sua carteira.

Os custos e a liquidez merecem atenção especial. Para além da comissão de negociação, podem existir custos de depósito e levantamento, bem como um spread entre compra e venda que afeta o preço efetivo do ativo. A liquidez, i.e. a facilidade de alienar o ativo sem afetar muito o seu preço, varia por ativo e por horário de negociação. Transacionar em períodos de menor liquidez pode aumentar o slippage, que ocorre quando, dada a pouca liquidez, a ordem de compra, por exemplo, não encontra a sua correspondente ordem de venda, em termos de quantidade e preço, e é executada a vários preços, resultando num preço médio menos favorável para o investidor comprador.

A custódia - processo de guarda de chaves privadas, que provam a posse das suas criptomoedas - é o âmago da segurança do seu investimento. Recomenda-se: a ativação da autenticação de dois fatores (aplicativo autenticador e códigos por SMS/email) para travar acessos indevidos; o uso de whitelisting de endereços (lista de endereços previamente autorizados para levantamentos), quando disponível; que mantenha offline e bem guardada uma cópia de segurança da frase mnemónica (uma lista de 12–24 palavras que funciona como “chave‑mestra” para recuperar a sua carteira).

Para montantes significativos, considere efetuar “custódia a frio”, através de um hardware offline, que mantêm as chaves fora da internet e reduz o risco de ataque cibernético. Ao escolher uma carteira fria, opte por um equipamento oficial e selado, inicialize-a antes de usá-lo. Mantenha o software do dispositivo atualizado e guarde o PIN e a frase mnemónica em local físico seguro.

Feita a preparação, conheça os riscos do seu futuro investimento e como mitigá‑los. Comecemos pelo risco de mercado, relacionado ao ambiente de negócios e às políticas macrofinanceiras e regulatórias que afetam as condições e a atratividade de determinados investimentos e instrumentos financeiros. O risco do mercado faz com que o preço das criptomoedas dos criptoativos oscile muito e com muita frequência. Para minimizar as suas perdas e não pôr em causa os seus objetivos, não deve investir naqueles ativos o dinheiro de que possa precisar a curto prazo.

Outro risco relevante a ter em conta é o operacional, designadamente tecnológico, na medida em que as transferências na blockchain são irreversíveis. Neste quadro, são recomendáveis experiências de investimento com valores pequenos, confirmação do endereço por mais do que um meio e efetivação do investimento apenas quando estiver certo do procedimento.

Há que ter em conta também o risco de contraparte (possibilidade de uma das partes na transação não cumprir as suas obrigações) que está inerente à escolha do intermediário financeiro. Para mitigá-lo, procure entidades e plataformas transparentes, com regras claras de segregação de ativos e políticas de levantamento inteligíveis. Leia os termos e condições e verifique onde a entidade está registada e quem a supervisiona.

A segurança da custódia é outro pilar muito importante. Desconfie de pedidos inesperados. Se alguém lhe pedir a frase mnemónica, o PIN ou o acesso remoto ao seu computador/telemóvel, é quase certo que se trata de fraude.

Finalmente, esteja atento às tentativas de fraudes. A inteligência artificial tem permitido aprimorar esquemas recorrendo a imagens/áudio manipulados e perfis falsos, bem como possibilitando “robô-scams” e falso suporte técnico que o contacta proactivamente. Esteja atento a promessas irrealistas. Estas práticas alimentam com frequência esquemas de pirâmide e de ponzi, que prometem retornos de investimento anormalmente elevados, bem como de pump and dump. No primeiro, os participantes são compelidos a recrutar novos membros, sob pena de não verem os ganhos prometidos a se realizarem. Com o abrandamento do número de participantes angariados, o retorno prometido torna-se inviável. No esquema de ponzi, os retornos do investimento dos primeiros participantes são garantidos pelos aportes dos participantes posteriormente angariados e não por receita gerada por uma atividade económica real. Pump and dump refere-se à subida artificial de preços, seguida de venda, por parte de manipuladores do mercado, deixando os restantes investidores, com a queda dos preços, no prejuízo.

Tenha também cautela com os chamados finfluencers (influencers financeiros), pois por trás dos seus conselhos e recomendações, podem existir incentivos ocultos, tais como conflitos de interesse ou intenções promocionais.

Considere aplicar esta regra prática: se for tentado ou pressionado a transferir fundos ou a partilhar dados com urgência, pare por 24 horas e confirme a veracidade do contacto ou do negócio offline. Só efetive o investimento quando tiver verificado a autenticidade da plataforma e a informação sobre o investimento.

Em resumo, antes de clicar em “comprar”, pare por dois minutos e responda às seguintes perguntas:

  1. Qual é o meu objetivo e o meu limite de perdas?
  2. No que consiste o produto financeiro? Enquadra-se no meu objetivo de investimento? O que explica a evolução do seu preço? Porquê é volátil?
  3. Quem administra a plataforma de negociação? Encontro-a em registos oficiais? Está registada e sujeita à supervisão por que entidade?
  4. Quais são as comissões que tenho de pagar? Quanto pesam no meu montante investido?
  5. O quão fácil e/ou oneroso pode ser a alienação do ativo? Quanto do potencial rendimento posso perder?
  6. É possível ativar a autenticação de dois fatores? Onde as chaves podem ser guardadas? A frase mnemónica está offline, com cópias de reserva e sem fotografias?
  7. Sei reconhecer fraudes e validar as informações sobre o investimento offline?

Se não souber responder de forma clara àquelas questões, adie o investimento e pesquise mais sobre o produto, as suas características, a plataforma de investimento e como mitigar os riscos que o investimento encerra.

Lembre-se de que decisões de investimento exigem tempo e informação. Comece modestamente e diversifique o seu investimento. Invista apenas o que pode perder sem afetar as despesas essenciais, poupanças de curto prazo ou o seu fundo de emergência. Se seguir estes princípios, estará melhor preparado para transformar curiosidade e ambição em prudência e prudência em decisões de investimento seguras.

Auditoria Geral do Mercado, em 5 de dezembro de 2025.

Saiba mais sobre a AGMVM em www.agmvm.cv


[1] Intermediários financeiros - as pessoas coletivas, públicas ou privadas, legalmente habilitadas a exercer nos mercados de valores mobiliários e de instrumentos financeiros, a título profissional, alguma atividade de intermediação financeira (como sejam: receção, transmissão e execução de ordens por conta de outrem; consultoria para investimento; gestão de carteiras pertencentes a terceiros; registo e o depósito de instrumentos financeiros, bem como os serviços relacionados com a sua guarda, como a gestão de tesouraria ou de garantias, entre outras).

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1256 de 24 de Dezembro de 2025.

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Autoria:AGMVM,26 dez 2025 11:55

Editado porExpresso das Ilhas  em  29 dez 2025 8:33

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