Compositor Betú: “A morna é uma criação do povo cabo-verdiano”

PorAntónio Monteiro,18 ago 2014 0:01

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Adalberto Silva, Betú, já compôs cerca de quarenta mornas que foram gravadas por intérpretes de renome como Ildo Lobo e Mayra Andrade. É a partir desta posição previlegiada que o músico analisa e perspectiva a candidutura desta genuina criação cabo-verdiana a património mundial   da humanidade.

 

Expresso das Ilhas – Prometeu-nos há já algum tempo um livro sobre música. Quando será publicado?

Betú – Não é um livro prometido. É um livro que eu pensei escrever há já, de facto, algum tempo e que seria mesmo o meu único livro. Entretanto surgiu um outro projecto que foi o livro que eu lancei o ano passado sobre a história da ilha do Maio. Na verdade, o que tive sempre em mente era um livro sobre as minhas mornas, não só para falar um pouco sobre a motivação e a ideia em cada uma das composições como também para fixar as músicas em partitura para se precaver de uma eventual futura adulteração. Ainda não comecei a trabalhar o livro, mas é uma ideia que se mantém, até porque ainda estou no activo enquanto criador de melodias.

 

Quantas mornas já compôs?

Tenho neste momento à volta de quatro dezenas de composições e cerca de 90 por cento são mornas.

 

E os outros 10 por cento?

O resto são coladeiras; tenho uma música que é uma brincadeira de funaná que a Mayra Andrade gravou [Nha Nobreza]. Não é coladeira, nem morna, é um funaná a brincar. Tenho uma outra composição tipo samba cabo-verdiano e pouca coisa mais.

 

Destas composições quantas já foram gravadas?

Tenho a sorte de quase todas as minhas músicas terem sido gravadas. Apenas as minhas duas últimas composições não foram e uma outra que estava com a Cesária Évora para entrar no seu último disco, mas infelizmente com a sua morte não chegou a ser editado.

 

Como emerge numa ilha não que não há grande tradição de compositores?

No Maio, no meu tempo de criança, as pessoas que faziam música ou criavam melodias eram conhecidas como pessoas ki ta tra cantiga. Na altura não se falava ainda em compositores no Maio, nem mesmo a nível de Cabo Verde. E a pessoa ki ta traba cantiga no Maio era o Lino Sinhorinha que é autor da música muito conhecida Kaskabudju tem Baleia.Que eu saiba o Maio não tem assim tantos compositores.

 

Há o Tibau também.

Sim há o Tibau, mas ele é da geração mais recente. Da geração mais antiga havia pessoas que tinham o hábito de criar cantigas, mas que não tinham aquele nível para transporem as fronteiras do Maio e muito menos de Cabo Verde.

 

Na área da investigação temos o Manuel Jesus Tavares (Djudjú), galardoado com o prémio Senna Barcelos há alguns anos.

Bom, ele pertence também a uma família de músicos, os Tavares Silva à qual pertenço também. Há já alguns anos que o Djudjú tem-se dedicado à investigação sobre a música cabo-verdiana.

 

Cabo Verde tem tantos bons músicos que a morte de Horace Silver de ascendência maiense não tenha passado de um curto episódio e não ficou nada.

Ficou. No Maio não, acho que houve um comunicado do governo, da câmara municipal…

 

São comunicados de circunstância.

São comunicados, mas é do governo. De qualquer forma houve um gesto de reconhecimento da figura de Horace Silver. Há dois anos tinha sido patrono da edição do Kriol Jazz Festival. Na semana passada também o festival Kriol Summer Jazz, em São Vicente, foi em homenagem a Horace Silver. Agora depois da sua morte se calhar vamos conhecer mais e melhor Horace Silver e aquilo que ele fez também para a música cabo-verdiana.

 

Acha uma boa ideia a candidatura da morna a património imaterial da humanidade?

Eu acho que sim. Um dos grandes produtos da cabo-verdianidade é a música. E dentro da música cabo-verdiana indiscutivelmente a morna sobressai como o género mais importante. Por várias razões: pela sua antiguidade, pela sua transversalidade quer em termos de território (é tocado e sentido em todas as ilhas) quer em termos de faixa etária e mesmo em termos de categorias socais. Acho que é o género de música cabo-verdiana mais transversal e que toca todos os cabo-verdianos e todas as ilhas de Cabo Verde. É também um dos géneros mais antigos, para não dizer o mais antigo, e para emprestar uma expressão da economia, é o género cabo-verdiano com mais valor acrescentado do povo cabo-verdiano. Tanto é que há muitas incertezas à volta da sua origem. Porquê? Porque é um género muito cabo-verdiano e uma criação cabo-verdiana. Aí todas as dúvidas quanto às suas origens se dissipam. Por isso, quando na procura da sua génese se tenta ir buscar qualquer coisa vinda de fora, sente-se essa dificuldade. Tem-se dificuldade, porque na minha opinião a morna é um produto muito cabo-verdiano, é uma criação do povo cabo-verdiano. Daí a dificuldade relativamente à procura das suas origens.

 

Seria descabido propor a candidatura do funaná?

Não é descabido. Mas o funaná é um género musical ainda novo. Novo em termos de desenvolvimento, porque só saiu do interior de Santiago depois da independência, há menos de quarenta anos. De facto, evoluiu de forma estrondosa e conquistou todo o território nacional e transpôs as fronteiras do próprio Cabo Verde. Não obstante, pode-se considerar o funaná um género novo e que está ainda em evolução e não se consolidou ainda como a morna.

 

O que define a morna, ou seja, o que há em comum entre uma morna do Betú, de Manuel d’Novas e de Renato Cardoso?

As características fundamentais são as mesmas. Ou seja, quer o Manuel d’Novas, quer o Antero Simas ou o Betú seguem aquela linha que vem da tradição do B. Leza. A morna evoluiu, porque a morna do Eugénio Tavares é diferente da morna do B. Leza, mas a partir do B. Leza acho que todos seguimos os aspectos fundamentais da morna –  a morna beleziana. É evidente que cada um tem o seu estilo, o seu toque, mas o fundamental já vem definido a partir de B. Leza.

 

O famoso meio-tom?

(Risos). Não é só por causa do meio-tom. O meio-tom é um acorde de passagem. O contributo de B. Leza foi muito mais do que isso, não só em termos do enriquecimento da cadência, da harmonia e sobretudo a nível das modulações. São contributos importantes que o B. Leza trouxe à morna.

 

As composições de Renato Cardoso são mornas, ou baladas como defende Brito-Semedo?

São baladas. As músicas de Renato Cardoso fogem, de facto, daquela linha da morna beleziana. O Brito-Semedo chama-lhes baladas, eu também lhes chamo baladas. Eu tenho uma morna intitulada NotíciaNotícia também não é exactamente uma morna. É também uma morna-balada, na definição de Brito-Semedo.

 

Portanto a morna que se quer elevar a património imaterial é a morna beleziana?

Não, eu quis dizer que B.Leza foi o último marco, a partir do qual todos nós somos seguidores. Cada um com o seu estilo, enriquecendo aqui e ali o que é o património comum. Os mornistas da actualidade são mais livres em termos de cadência e da harmonia, mas tudo isso começou com o B. Leza.

 

Pantera também compôs uma morna. Há quem ponha em causa a sua autoria porque surge como um corpo estranho no conjunto da sua obra.

Eu também já ouvi e, se não estou em erro, já li inclusive uma afirmação do Antero Veiga no Facebook que essa morna [Seiva] não é do Pantera. De facto, é estranho, porque é a única morna que conhecemos do Pantera e mais estranho ainda que não tivesse composto mais mornas. Fica a dúvida.

 

Até porque, sendo no interior de Santiago, dificilmente terá conhecido a morna ainda menino como afirma na letra.

Como se costuma dizer, antigamente a morna na ilha de Santiago ia da Praia até São Domingos à casa de Ano Nobo. Mais para o interior quase que não se ouvia morna. Por isso, sendo de São Lourenço dos Órgãos, não sei até que ponto ele terá ouvido mornas na sua infância.

 

É estranho que as pessoas não se preocupem com essas coisas.

É que ainda o povo cabo-ver­diano não tem muita sensi­bi­li­dade para essa questão da autoria das composições. Quando se fala de uma música dificilmente se fala do seu compositor; se é uma música cantada por Ildo Lobo atribui-se a música ao intérprete. Portanto, ainda não há essa sensibilidade relativamente ao criador. Já foi pior, mas está a ganhar cada vez mais espaço e importância a figura do compositor.

 

Voltando à morna. Ela já conquistou um Grammy na pessoa da Cesária Évora. O seu eventual reconhecimento como património imaterial poderá significar um superlativo?

Não é a morna que conquistou um Grammy, foi a Cesária…

 

É morna na mesma.

O Grammy é mais um prémio para o artista.

 

O que neste caso foi um prémio para a morna. Ou seja, Cesária = a Morna = a Cabo Verde.

Sim foi com as suas mornas que ganhou o Grammy. Não sei se sabe, mas há um facto curioso: o fado foi declarado património imaterial da humanidade, mas em Portugal não se decretou nenhum Dia Nacional do Fado. Agora, creio que no mês de Junho, aconteceu um facto curioso na Argentina: o Senado decretou um Dia Nacional do Fado na Argentina, em homenagem a Amália Rodrigues que actuou muitas vezes na Argentina, onde era muito apreciada como grande fadista que foi.

 

Portanto o Património Mun­dial é superior ao Grammy, mesmo sabendo que o fado é património mundial, mas falta-lhe o Grammy.

Para um país pequeno como Cabo Verde seria um grande contributo para a valorização não só da morna, mas da música cabo-verdiana no geral e da projecção do próprio país Cabo Verde no mundo.

 

Na apresentação da candidatura à UNESCO é necessário definir e caracterizar a morna.

A morna está definida. É um género musical identificado e que não é parecido com nenhum outro. Por aí não haverá problemas. É um género musical do povo cabo-verdiano, uma criação do povo cabo-verdiano.

 

Há quem defenda que a morna é parecida com o fado.

Não, a morna é diferente do fado e acho que não se confundem. Porque é que por exemplo os portugueses gostam de cantar Ondas Sagradas do Tejo de B. Leza? É que Ondas Sagradas do Tejo é uma morna muito inspirada pelo ambiente português, portanto muito inspirado pelo próprio fado. Por isso é que os portugueses têm alguma facilidade em cantá-la. Mas isto não quer dizer que os portugueses terão a mesma facilidade em cantar as demais mornas.

 

Quais são as suas três mornais preferidas?

As mornas de B. Leza Resposta de Segredo cu Mar e Eclipse e a outra do Manuel d’Novas Biografia de um crioulo. Mas há dezenas de grandes mornas que é difícil escolher apenas três.

 

O que espera da candidatura da morna a património imaterial da humanidade?

Espero que a candidatura tenha sucesso, porque será muito importante não só para a morna como para a música cabo-verdiana no geral e sobretudo para uma maior projecção do país no mundo. A Cesária deu um enorme contributo e se hoje Cabo Verde é mais conhecido além-fronteiras é por causa da Cesária. E com a Cesária foi por esse mundo fora a nossa morna e por isso penso que há fortes probabilidades de se chegar ao fim do processo com sucesso. Espero e desejo que assim aconteça.

 

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Autoria:António Monteiro,18 ago 2014 0:01

Editado porAntónio Monteiro  em  19 ago 2014 16:13

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