Crica, caixinha, rata, grelo, pombinha, … são muitos os nomes usados para designar a vagina. Mas apesar da quantidade criativa de nomenclaturas, pouco se fala, de facto, sobre esta parte fundamental da mulher. Ela é apagada das conversas do dia-a-dia, escondida sob um véu de preconceitos, convenções e até ignorância. “Dona Gina”, uma adaptação de Vanda Cruz da peça “Monólogos da Vagina”, vem desconstruir esse silêncio, essa vergonha, levantando e dando voz a vários temas que ao longo dos séculos permaneceram na obscuridade. Duas exibições com a sala cheia mostram que afinal Cabo Verde estava pronto para falar de vaginas, seus problemas e potencial.
Quando uma amiga lhe falou de The Vagina Monologues de Eve Ensler, Vanda Cruz, que há muito se interessava por temas relacionados com o empoderamento feminino, pensou logo em adquiri-lo. Não foi muito fácil encontrar o livro mas por fim conseguiu. Estávamos em 2007 ou 2008. Leu-o. Assistiu à adaptação portuguesa da peça em Lisboa. Pensou: “mas eu tenho de levar a peça a Cabo Verde. Isto é importante”.
“Há esse preconceito para não falar, mas porque não falar de vaginas? Afinal, todas as mulheres têm uma”. Nesse sentido, a peça vem “desconstruir aquela coisa que das vaginas não se fala, não falamos dos problemas das vaginas, tampouco falamos dos problemas pessoais das mulheres”, diz.
Por motivos vários, da decisão à mise-en-scene passaram-se vários anos. Em 2015, e após o término do programa radiofónico da sua autoria “Gin com Elas” [Rádio Morabeza], onde se falaram de vários temas relacionados com equidade, género, sexualidade, entre outros, chegara o momento certo.
Aliás, “o Gin com Elas já foi uma espécie de preparação, de sentir a sensibilidade das pessoas relativamente a estes temas”, conta.
Assim, Vanda Cruz voltou a pegar nos textos, retomando o trabalho que já havia começado na adaptação de monólogos seleccionados da obra de Ensler. Uma adaptação que passou pela tradução em línguas e variantes (português europeu, o português do brasil e três variantes de cabo-verdiano [Santiago, Fogo e São Vicente] e ainda alguma palavras em crioulo da Guiné-Bissau e angolano) e que levou o nome de “Dona de Gina”.
Duas datas se afiguravam como mais emblemáticas – o mês de Novembro ( pelo Dia Internacional pela Erradicação da Violência sobre as Mulheres, que se celebra a 25 desse mês) e, claro, Março, mês da mulher. Escolheu este último, apesar das eleições legislativas que ameaçavam parar o país.
No dia da mulher, dia 8, Dona Gina estreou no XPTO. A 18, uma nova exibição, desta feita no auditório do Hotel Praia Mar. Duas exibições na capital, duas salas cheias e uma “óptima recepção do público”.
Cabo Verde, afinal, estava preparado para falar de vaginas.
Três actrizes, várias mulheres
Uma voz saiu dos altifalantes e convida-nos a uma viagem. A expedição começa então com um vídeo, onde vemos uma mulher bonita e glamorosa. É uma mulher que nasceu homem. Um erro da natureza que ela primeiro tentou aceitar e que depois acabou por consertar.
“A história da transgender é verdadeira. As imagens, não. Foi extremamente complicado arranjar um transexual até porque, tanto quanto sei não há transexuais, pessoas que efectivamente tenham feito toda esta transformação” em Cabo Verde, explica Vanda Cruz.
Mesmo sem rosto, era importante a história aparecer, despertando para os esquecidos direitos dos LGBT (ou LGBTTT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros) e os mal-entendidos à volta das questões de orientação sexual e género. Aliás, também Eve Ensler fala disso, embora várias adaptações não incluam o tema.
O tema LGBT aliás será retomado mais adiante, na peça, num monólogo sobre uma experiência lésbica entre uma rapariga jovem e uma mulher.
Incidir nesta questão LGBT era, pois considera Vanda Cruz, demasiado relevante para ficar de fora. “O número de gays e lésbicas em Cabo Verde é grande e as pessoas não se dão conta disso”. E o tema é pouco abordado, inclusive por associações ligadas aos direitos humanos. Além disso, há uma “imensa confusão” em relação a experiências homossexuais, que podem inclusive não definir que uma pessoa gosta do mesmo sexo. São experiências de auto-conhecimento.
Voltando atrás. Quando o vídeo do transgénero acaba, o palco é ocupado. Três actrizes (Vera Cruz, Bety Gonçalves e Rute da Silva) dão vida a várias personagens, várias mulheres que vão falando, monologando e, às vezes, dialogando sobre os mais diversos temas, relacionados, claro, de forma directa ou lata, com a vagina.
Duas das actrizes em cena, que tinham já experiência profissional, haviam já sido escolhidas há muito. Faltava a personagem do Fogo e ao fim de várias semanas de procura de uma “rapariga maior de 18 anos, fresca e atrevida”, o cenário parecia complicado. Houve até quem, nos castings, considerasse o texto um pouco pornográfico, acabando por desistir da peça. Por fim surgiu Rute, qua nunca pisara um palco e que se veio a revelar “um achado precioso”.
No palco, os temas vão desfilando. Em vários momentos acabam por tocar questões já levantadas em 2008, quando Vanda Cruz organizou em Cabo Verde um Workshop da vagina (tal como Eve Ensler havia feito aquando da preparação da sua peça), com mulheres de vários quadrantes sociais. No workshop falou-se dos problemas das vaginas. Muitas admitiram que nunca tinham olhado, visto sequer as suas vaginas. Não sabiam identificar as partes da sua anatomia, nem conheciam o potencial sexual e erótico do clítoris.
Fala-se e tudo isto na peça. E muito mais.
O tabu menstrual
Mesmo questões aparentemente mais distantes da realidade Cabo-verdiana, como a mutilação genital feminina, são aqui referidas.
Outras são mais familiares às mulheres da plateia. Como as consultas no ginecologista que, embora importantes – e ainda evitadas pelas mulheres cabo-verdianas - são feitas de uma forma que muitas vezes não é agradável, confortável ou elucidativa para as mulheres.
Ou como a menstruação, uma das questões ligadas ao corpo feminino que mais mitos e injustiças tem criado ao longo dos séculos.
Em Cabo Verde não se verificam as crenças nefastas de outras partes do globo, onde a menstruação é considerada uma coisa tão suja que é preciso afastar a rapariga da casa e da vida normal. Mesmo assim persistem ritos estranhos.
“Em Cabo Verde, as mulheres quando estão menstruadas, não tomam banho, não lavam o cabelo, não põe qualquer químico - alisantes e afins- no cabelo. Falo inclusive de gente ligada à saúde”, conta Vanda Cruz.
Mais “essa história da menstruação é um tabu engraçado. Porque é tabu quando aparece, é tabu durante toda a vida dela e é tabu no fim, quando ela desaparece”, observa Vanda Cruz.
“É um assunto que não só quase não é falado como, quando é falado, fico com a impressão de que é mal tratado”, considera, adiantando estar a equacionar introduzir um texto (substituindo-o por outro da peça) sobre o tema.
Máquina zero
Desfiam-se temas. Sem seguir a ordem da peça, na conversa com Vanda Cruz vamos falando de mais alguns deles…
Como a questão da depilação total (à brasileira), que algumas mulheres fazem por decisão própria, outras por pressão do companheiro. Era o caso mostrado na peça, onde o marido de uma das personagens a coagia a fazer, chegando a insinuar que lhe era infiel porque “ela se recusava rapar os pêlos púbicos”.
“Há quem se sinta confortável, há quem não. A mensagem foi para quem não se sente confortável. Não é isto que vai tirar o prazer sexual de alguém”. A ideia é também, de uma forma mais geral, fomentar o domínio pelo próprio corpo e “sentirmo-nos bem com aquilo que temos”.
A exploração do próprio corpo, e da vagina em particular, percorre vários monólogos. “Há mulheres que nem sabem onde está o seu clítoris”. Um desconhecimento que vem da educação e mostra também a maneira desigual como se tratam meninos e meninas nesta questão. Um pénis é quase um troféu, e é de alguma forma permitido e aceite que os meninos “brinquem” com a pilinha, mas às meninas diz-se, desde logo, que não toquem no pipi. “Então, cria-se todo este complexo, este preconceito” sobre a auto-descoberta da sexualidade, com consequências a vários níveis.
“Dona Gina é exactamente tornar mais visíveis as vaginas porque elas não devem ficar escondidas, tidas como qualquer coisa que deve ficar, como diria a personagem do Fogo, “gatchado”. Como se fossem um elemento estranho à vida. Como se metade da população não tivesse uma.
Na raiz do problema está, considera Vanda Cruz, uma educação sexual desadequada. Aliás, neste ponto a encenadora fala também da sua preocupação com a pornografia. Não pela pornografia em si, mas porque esta é erradamente usada como forma dos adolescentes se auto-educarem, achando que o sexo real é assim, e que é assim que todas as mulheres gostam de ser tratadas.
“Pornografia deve ser para pessoas adultas, que já percebem, que já o fizeram e sabem como é. Não é por aí que vais começar. Mas isso acontece, porque a escola não ensina e o papás também não”.
Aguinha de vinagre
Um outro tema forte da peça, até porque muitas vezes ignorado ou desprezado (mais uma vez a deficiente educação sexual) é o da ejaculação feminina.
“As pessoas não percebem, ninguém lhes explica”. Chega a ser mal visto, por “desconhecimento, para não dizer ignorância. E depois é a velha história: não é suposto a mulher gozar sexualmente”.
Nem ejaculação nem lubrificação. Nada de ‘deitar água’. Muitas vezes o que se quer, pelo menos em vários locais, principalmente da Ásia e de África é vaginas secas e fechadas.
“Aliás há uma parte da peça que diz nada de banhos de fumo, nem areia, nem água de vinagre, porque todas estas substâncias servem exactamente para fechar a vagina. Na Indonésia, por exemplo, e em grande parte de África, a vagina quer-se seca. E se ela não estiver há que pôr-lhe a areia para ela ficar mesmo seca, para o homem poder sentir esta fantasia estranha que é a de estar com uma virgem.”
Esta questão não está no livro de Eve Ensler, mas Vanda Cruz achou importante incluir o tema no Dona Gina para dissuadir essa prática em Cabo Verde. “Se bem que sei que muitas mulheres aqui usam a aguinha de vinagre para apertar a vagina”, conta.
A peça caminha para o final com uma sinfonia de orgasmos variados. Ou melhor, dos diferentes sons que as mulheres fazem quando atingem o clímax. Sem mordaças.
Tirando a mordaça
O próximo destino de Dona Gina será os EUA, mas Vanda também não desiste de um périplo por outras ilhas. Além disso, persiste a vontade de levar a peça ao mercado municipal da Praia. “Quero que as mulheres [de vários estratos] possam ver a peça e acho que as vendedeiras iriam recebê-la muito bem”.
Por enquanto, ao fim de duas exibições, Vanda Cruz considera que a sua “intenção” de pôr mulheres e homens a falar de vaginas foi conseguida.
“As pessoas interessaram-se e entraram nas questões da vagina e dos problemas das mulheres”, congratula-se, acrescentando pragmática: “Obviamente que esta peça não vai mudar mentalidades tão cedo, mas acho que se se continuar a fazer, juntamente com outros programas de associações governamentais ou não governamentais, ou outras peças de teatro que possam trazer os mesmos problemas, já é bom”. Vai-se combatendo preconceitos, vai-se tirando a mordaça, faz-se criando uma sociedade mais feliz.

The Vagina Monologues
Os monólogos da vagina é uma peça teatral da autoria da norte-americana Eve Ensler, apresentado pela primeira vez em 1996. Desde então, foi produzido em mais de 150 países e traduzido para mais de 50 idiomas.
Cada monólogo fala de uma experiência feminina, da violência sexual, à menstruação, passando por exemplo pelo orgasmo. Recorrente em toda a peça é a concepção da vagina como instrumento para o empoderamento das mulheres.
Nos anos 90, o crítico do The New York Times , Charles Isherwood, disse que esta era “provavelmente e peça de teatro político mais importante da última década”.
A peça foi escrita, segundo a própria Eve Ensler para “celebrar a vagina”, mas a partir de 1998 o propósito passou a centrar no combate à violência contra as mulheres.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 748 de 30 de Março de 2016.
homepage









