Oswaldo Osório continua a acreditar num mundo melhor

PorAntónio Monteiro,26 jun 2016 6:00

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Oswaldo Osório, pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio, anunciou há quarenta anos o livro que será lançado na Praia no dia 29 de Junho agora com o título “As Ilhas do Meio do Mundo”. Numa narrativa memorialista, o romance traça um percurso de luta de mais de 50 anos que conduziu o autor por quatro vezes às prisões da polícia política portuguesa. Apesar de alguns desencantos, Oswaldo Osório continua a acreditar que é possível construir um mundo melhor do que aquele que temos, porque, como diz “é desagradável saber que há camadas da nossa sociedade que não têm aquele bem-estar com que todos nós sonhamos”.

Expresso das Ilhas – O seu livro foi anunciado há mais de 40 anos mas só agora vai ser lançado. Porque retardou a sua publicação por mais de quatro décadas?

Oswaldo Osório – Vicissitudes várias, mudança de S. Vicente para a Praia, uma grande prole para sustentar, a família, tudo isso contribuiu para que só mais tarde eu viesse a ter o sossego suficiente e o distanciamento necessário para pôr tudo no papel. 

 

O livro começa pelo ano de 1965 com o capítulo Sonhar a Pátria, mas os seus últimos relatos os quais intitula Sonhos Desfeitos  e Queda no Abismo são mais bem inquietantes. Há como que um desencanto com a pátria que sonhou?

Permita-me que faça uma pequena correcção: a primeira parte 1965 refere-se à data de um evento que nos obrigou a tomar consciência do que se passava  em Cabo Verde que é o retorno de algumas dezenas de imigrantes, em Abril de 1965, mas na verdade essa consciencialização começa em 1962, quando Tony é preso e que está em flashback no livro. 

 

Voltando à questão: há uma desilusão com a pátria que sonhou?

Não necessariamente com a pátria, mas talvez com medidas políticas dos sucessivos governos, porque é desagradável saber que há camadas da nossa sociedade que não têm aquele bem-estar com que todos nós sonhamos. Não digo que seja um bem-estar igualitário, mas num patamar aceitável. Por outro lado, constatamos que há classes aqui que subiram e deram um salto tremendo em termos de posse económico e de poder cultural também. 

 

Qualifica o seu livro como uma sagarela, portanto um diminutivo de Saga. São conhecidas três tipos de sagas: as reais, as genealógicas e as históricas. A que tipo de Saga pertence o seu livro?

A Saga, como sabe, é um género literário dos povos nórdicos. Eu quis retomá-la no seu sentido meio brumoso. Repare que eu falo no livro do mito da Pedra do Guincho, que existe no Barlavento, mas que vim a encontrar em Santiago. Às vezes são coisas inacessíveis e talvez o homem viva na inacessibilidade das coisas. Talvez o meu livro não seja uma retumbante aventura dividida em três partes [I-Sonha a Pátria, II- O Tempo e o Vento e III- Em Busca da Pedra do Guincho], porque a Saga está também dividida em três partes. Já no meu livro, a última parte projecta-se no futuro, não se sabe o que vai acontecer. Há um desejo de… Por isso as saídas de Lóni [protagonista do livro], vai a Moscovo, vai a Israel… mas não ficou contente com o que viu. De modo que será uma Saga incompleta, projecta-se no futuro e questiona-se qual será o destino destas ilhas e do seu povo. 

 

Que olhar lança através dos factos que narra?

Eu vivi intensamente desde os anos de 1950 o percurso histórico de Cabo Verde. Eu assisti, em 1957, a um embarque de contratados para São Tomé. É nessa altura que foi o Onésimo Silveira – ele não foi como contratado, fugiu – porque a nossa terra não tinha meios. Já não chovia nestas ilhas, as chuvas eram cada vez menos frequentes e não tinham outra maneira, senão sair. De modo que desde 1957, quando tinha 19 anos, é que me acordei para essa problemática das chuvas, dos problemas da emigração… Nós tínhamos tido outras emigrações anteriores a 1957, para os Estados Unidos, mas nos anos 30 fecharam essa emigração. Então, é um conjunto de histórias que me marcaram e eu conto-as para que a geração mais jovem conheça aquilo que foi a história de Cabo Verde, de forma a projectarem o seu futuro e o futuro destas ilhas. Nós nunca partimos do nada, cada etapa da vida social e económica e político-cultural de um país é feita de vários outros degraus que já subimos na vida. Não sei se me explico bem. 

 

Está bem explicado. Faltava dizer que tipo de Saga escreveu. 

De facto, não respondi concretamente a essa sua pergunta. Sim, é uma Saga histórica…

 

Portanto, factos que ocorreram na sua vida, foi preso duas vezes…

Quatro vezes, a última foi cá em Santiago, logo depois do 25 de Abril de 1974. Eu, o Arménio Vieira, o Lino Públio e o Arlindo Vicente Silva. Eles saíram todos, eu fiquei e  fui julgado de madrugada. Foi a minha última prisão. 

 

É visto mais como um intelectual, um poeta e escritor, e pelo menos a nova geração ignora todo o seu percurso de combatente da liberdade, de preso político…

Estive preso no Fortinho de El-Rei, em São Vicente, estive preso na Cadeia Civil em São Vicente, estive preso na Cadeia Civil da Praia, estive preso no Aljube, em Portugal, como relato no livro. 

 

Saltando para 1974. Diz que nunca os dias correram tão depressa. Como viveu o 25 de Abril?

Ansioso, muito ansioso, participando em tudo, colaborando em todas as actividades culturais e políticas com reuniões atrás de reuniões. O país não tinha nada, não tínhamos parque automóvel, não tínhamos rede telefónica… Na altura eu tinha 37 anos, havia muito djunta mó, estávamos todos empenhados em criar uma pátria que não fosse madrasta, mas mãe de todos nós. De qualquer forma havia muita militância e posso dizer que foi um momento muito grande na vida de todos nós. Grande entusiamo, grande esperança. Vou-lhe dizer uma coisa: toda a gente faz cabeça dura. Aquele relato que eu faço em S.Vicente das brigas entre jovens talvez prefigurasse o que viria a ser com a nossa juventude hoje. As coisas que os jovens fazem agora são desmesuradamente más que podem prenunciar coisa pior no futuro. Nunca vi, com os meus 78 anos de vida, o que estou a ver agora. Nunca considerei que pudessem acontecer numa terra de liberdade como Cabo Verde. Alguma coisa vai mal. 

 

Augurava algo muito melhor para a nossa juventude. 

Augurava, não só para a nossa juventude, mas para todo o povo cabo-verdiano. Não necessariamente que todos tivéssemos o mesmo nível de vida. Questiono-me porquê esse desequilíbrio económico que há entre os possidentes e os não-possidentes. Nota-se claramente.

 

Surgem no livro duas pessoas que não viveram o dia da independência. Chico Varela, hoje quase esquecido e Jaime Figueiredo. Em que circunstância morreram?

Eu conheci o Chico Varela em S. Vicente, antes de ter vindo à Praia. Ele tinha sido transferido para S. Vicente como funcionário da Fazenda. Foi em S. Vicente que o conheci e o meu compadre Hélio Cordeiro Gomes. Desde cedo nós nos tornamos amigos. Chico era um homem culto, lia bastante e lembro-me que na altura o irmão dele tinha sido preso em S.Vicente. Foi levado para a Cadeia Civil e torturam-no de tal maneira que alegadamente depois suicidou-se. Ele é que se suicidou ou houve qualquer coisa…Mas naquele tempo nada se podia fazer. Conversámos sobre tudo isso e desde essa altura nos tornamos amigos. Depois do 25 de Abril o Chico fechou-se em si próprio e veio a morrer por se ter escorregado literalmente numa casca de banana. Foi uma tristeza grande. 

 

E o Jaime Figueiredo?

Jaime Figueiredo era um intelectual brilhante, um homem extraordinário, lia muitos livros. Também era conservador, não era bibliotecário. Era conservador da Biblioteca da Praia. Foi um homem que toda a gente admirava na Praia. 

 

Qual era a posição dele em relação à independência?

O Jaime era um homem prafrentex como se costumava dizer. Avant la lettre em muita coisa.  Ele foi chamado em 1974 pelo então Governador de Cabo Verde para organizar uma antologia dos novos ensaístas cabo-verdianos. O Jaime era bem-falante e então o governador pergunta-lhe ‘você como bom português que é, acede fazer este trabalho?’ Ele responde ‘não, eu sou de Santiago, sou cabo-verdiano’. Ele disse tudo. Não fez a antologia. 

 

Em que circunstâncias morreu Jaime Figueiredo?

É uma coisa complicada. Segundo me contou o Bets Almeida, eles estavam a tomar um drink num bar-restaurante, nos arredores da Praia, e sentiu-se indisposto. O Bets ofereceu-se para ir chamar um táxi, mas ele insistiu em ir a pé. Chegou ao hospital e também segundo se diz, aplicaram-lhe uma injecção e passado pouco tempo como não se sentia melhor, aplicaram-lhe mais uma injecção e no dia seguinte estava morto. Agora, como há muitas lendas, não sei. 

 

A versão que eu conheço é que foi espancado numa rua do Platô e veio a falecer no hospital.

Não, mentira, ele não foi espancado. O Jaime Figueiredo tinha licença de uso e porte de arma e andava sempre com a sua pistolinha. Aconteceu depois do 25 de Abril, os meninos para poderem ter uma arma, fizeram-no cócegas, ele pôs-se a rir e tiraram-no a pistola. Foi isso que fizeram, mas não lhe bateram. Até porque a morte do Jaime é posterior a esse incidente da arma. 

 

Saltando para o capítulo À espera do 5 de Julho e o orgulho de reinventar a vida. O que significou a independência para si?

Foi o cortar de todas as amarras, foi o peito cheio de ar lançado para a conquista de tudo. Muita gana de vencer e mãos ao trabalho; todos nós daquela geração, mesmo os mais jovens estavam para trás. Foi um tempo muito rico, cultural, politicamente; havia troca de experiências com os cooperantes que vinham de todos os países. Foi formidável. 

 

Escreve na página 128 que estas ilhas estariam antropológica e socialmente virgens, permitindo ensaiar com a independência um novo tipo de relações humanas e de sociedade. Havia algo de utópico nesta construção?

Sem utopia você não consegue chegar a parte alguma. Fernando Pessoa tem muita razão quando diz que o sonho comanda a vida. Se você não projectar, não faz nada. É que o lastro físico que nós temos é tão pesado que se você não tiver a capacidade de sonhar, você não voa. Não faz coisa nenhuma. Mas às tantas a sociedade parece que se acomoda. Quando algumas camadas se tornam possidentes e se sentem senhores não sei de quê, porque ninguém é senhor de nada, o sonho começa a se tornar muito pessoal, não para todos. Aí é que reside o mal.    

 

Refere nas suas memórias que o golpe de estado na Guiné-Bissau em 1980 teve reflexo negativo em Cabo Verde. Como viveu este período?

Abalou as pessoas, porque era algo que não se esperava. Ouve uma cisão grande…

 

E a participação popular retrai-se, como escreve. 

Eu acho que não é bem retracção. O cabo-verdiano tem uma grande capacidade em se adaptar a situações as mais adversas. O que houve foi uma retracção em termos partidários, porque o golpe abalou nos seus alicerces a unidade Guiné-Cabo Verde. Então quando há essa cisão o partido enfraquece. De tal maneira que começaram a auscultar o que é que os militantes sentiam. Eu lembro-me bem de alguém ter-me perguntado a minha opinião sobre o fim da unidade Guiné-Cabo Verde para saberem com quem podiam contar. Eu disse ‘diz-se que a unidade Guiné-Cabo Verde é o calcanhar de Aquiles da teoria de Amilcar Cabral’.  Houve alguém, mas não vou dizer o nome, que me disse ‘Osvaldinho, Olvaldinho’. Havia um outro que disse ‘no partido não se entra, nem se sai, como se entra num clube de futebol’. Hoje é outra coisa, qualquer um entra e saiu de um partido quando lhe der a gana. 

 

Mas Ovídio Martins sai.

Sim, Ovídio Martins sai. Ele escreveu uma carta ao partido a pedir a sua saída, porque tinham dado cabo da unidade. E saiu. Mas se fosse um que não tivesse a projecção de Ovídio Martins a coisa não ficaria assim. Es ta dava el um txutxidura.

 

Ovídio é hoje um poeta quase esquecido, mas foi um homem que se sacrificou pela independência.

Sim, foi um batalhador incansável no sentido cultural. A deficiência auditiva limitava-o bastante. Portanto, fez da escrita a sua arma que esgrimiu como poucos.   

  

Em 1986 realiza-se o Simpósio Claridade, da qual resulta uma reconciliação entre as velhas rivalidades literárias e desejava que na política assim fosse, mas como escreve, nesse domínio, os protagonistas são menos apaziguadores. Porque é que não houve essa reconciliação política?

Porque a política dita e você tem que obedecer, enquanto os homens de cultura confrontam ideias. Mas na política não. A política é por si ditatorial, não é inocentemente que são homens de acção. Tem que ser assim e faz-se assim.

 

No final do livro escreve que a perspectiva que se tinha ontem de determinadas coisas não é o que se tem hoje. Qual é hoje a sua perspectiva?

Hoje eu acho que a começar pelo bem maior destas ilhas que são a nossa gente, temos hoje jovens formados em quase todas as áreas. Imagine que em 1950 São Vicente tinha apenas quatro médicos nacionais. Hoje só em Portugal, temos acima de 100 médicos que não regressaram. Não é preciso dizer mais nada. 

 

Se nascesse de novo voltaria a percorrer o mesmo caminho que traço no seu livro?

Voltaria, mas com as alterações que certamente o meu espírito e minha mente fariam para se adaptarem ao tempo e ao espaço em que viveria.  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 760 de 22 de Junho de 2016.

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Autoria:António Monteiro,26 jun 2016 6:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  27 jun 2016 9:02

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