António Lopes da Silva: “A política cultural para Praia ultrapassa o KJF e o AME”

PorChissana Magalhães,4 mai 2018 8:03

​Poucos saberão que no edifício do Paços do Concelho da Praia funcionou o primeiro liceu de Cabo Verde. Fundado em 1860, durou apenas dois anos, ficando a história praticamente esquecida. Foi nesse emblemático edifício que fomos ouvir António Lopes da Silva (o Tober), vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Praia, que quer que os praienses saiam das suas zonas e conheçam verdadeiramente a cidade. Uma cidade que aos 160 anos assume a sua identidade de Cidade Criativa e busca formas de incrementar o seu potencial.

Praia celebrou por estes dias os 160 anos da sua instituição como cidade. Estas celebrações são algo relativamente recente. É importante resgatar estas datas?

É importante conhecermos a história da nossa cidade. Já sabíamos há muito que 19 de Maio não era a data da cidade e sim do município. Nós chamamos pessoas da sociedade civil, pessoas que estiveram envolvidas no processo de criação do município, os combatentes da liberdade da pátria, professores, investigadores, e fizemos um encontro para “tirar o lenço” de cima dessa problemática. E nesse encontro chegamos ao entendimento que, de facto, a Praia tem o seu dia e deve ser assinalado e também o dia do município. Todos concordaram que as duas datas são importantes mas, era necessário fazer a diferenciação entre estas duas datas.

E que histórias pode contar ou relembrar aqui que são marcos da cidade?

Sabemos que a Cidade da Praia foi até há pouco tempo, até à independência, uma cidade muito pequena, capital do país mas uma cidade muito rural, muito voltada para o interior. E uma cidade que sempre teve problemas enormes com a seca, com a vinda de muitos camponeses para a cidade. Sempre viveu este drama: ser uma cidade urbana mas, ao mesmo tempo, ter esta vivência rural. Houve várias tentativas de tirar a capital do país da Praia mas os homens fortes de Santiago sempre souberam evitar isso. Até porque Praia está na ilha de Santiago, a ilha mais poderosa. De qualquer das formas, Praia cresceu muito lentamente durante muito tempo. Mas mesmo não estando planificado, as pessoas foram fazendo as construções de uma forma muito própria que nos permitiu hoje requalificar, permitiu que hoje Praia urbanisticamente esteja mais próxima de uma cidade.

A nível cultural, qual era a vivência no passado?

Há pouco tempo se fez a exposição “Praia na Literatura” e por aí se vê que Praia sempre esteve ligada a grandes figuras mundiais e nacionais. Praia sempre foi uma cidade muito rica em termos culturais. Os grupos de tabanca são na maior parte da Praia. O funaná ganhou projecção com os Bulimundo mas já se tocava na Praia, nos bairros. Grandes nomes do funaná tocavam aqui na Praia. Também a tabanca não subia ao Plateau mas nós saíamos da escola e íamos atrás da tabanca nos subúrbios. Eu ainda vivenciei isto. Não obstante uma certa repressão das autoridades coloniais, os praienses sempre souberam preservar aquilo que é nosso, que faz parte da nossa dimensão crioula. Tudo o que somos hoje resulta de encontro de raças, religiões, etc. E isso é bom. Mesmo o crioulo, a nossa Língua Cabo-verdiana, era proibido. Quem fosse apanhado a falar crioulo no liceu era expulso. Era uma forma de controlar a nossa ânsia de liberdade. Não há melhor liberdade que a liberdade cultural, a pessoa assumir a sua essência. E não só na música, também na dança. Um dos elementos importantes que nós introduzimos hoje para que, inclusive, tenhamos o título de Cidade Criativa da UNESCO, foi reconhecer a importância desses elementos culturais nossos.

O que de concreto está a Câmara Municipal da Praia a fazer para (continuar a) justificar este título? E que estratégia para tirar dele o maior proveito?

A Câmara da Praia organiza, em articulação com a Harmonia, o Kriol, Jazz Festival e esse foi um elemento muito forte da nossa candidatura. Mas nós também apoiamos a Atlantic Music Expo desde o início. A AME existe há seis anos, o KJF há dez. Houve essa aproximação da AME ao Kriol Jazz Festival e algumas pessoas, na altura, até questionaram essa aproximação. Mas nós entendemos que foi uma forma de promover um e outro e fazer a nossa cidade chegar onde estamos hoje. São dois elementos muito importante da política cultural da nossa cidade e de Cabo Verde. Isto é indiscutível. Estes são dois elementos importantes mas não é só isso. A Política cultural para Praia ultrapassa o KJF e a AME. Nós temos a Noite Branca que, para mim, em termos culturais é aquilo que tem mais diversidade e muita qualidade aqui na Cidade da Praia. Traz dança, fotografia, passagem de modelos, pintura, escultura…Todas as formas de arte prestam homenagem à música.

A música tem sempre protagonismo. Os criadores de outras áreas não se sentem à margem?

Não pensamos assim. As pessoas que pensam assim devem pensar o contrário. Devem aproveitar a dinâmica da música para também dar o salto. Hoje não é possível pensar a dança cabo-verdiana sem música. O teatro também associa-se á música…Á volta da música deve haver outras actividades que vão aproveitar esta dinâmica para mais rapidamente alcançar o que se alcançou com a música. Ter esta visão de que a música é privilegiada pode limitar o nosso desenvolvimento artístico. A cultura, a meu ver, pode marcar a diferença da cidade da Praia e inclusive promovendo outros sectores. Por exemplo, a segurança. Eu não consigo ver a segurança de uma cidade como Praia se não tivermos, a cultura a contribuir também para a melhoria das condições de segurança na nossa cidade. Isso se faz de várias maneiras. Por exemplo, descentralizar e desconcentrar actividades culturais para os bairros. Não é só o Kriol Jazz Festival. Todas as actividades culturais que se realizam hoje em dia nos bairros, está lá o dedo da CMP. Não só financiamos como apoiamos na organização.

Esta descentralização cultural tem a mesma visibilidade?

Os bairros têm uma dinâmica diferente. Todos os bairros têm a festa do seu santo e não é uma festa de brincadeira. Tem dança, tem música, tem poesia, tem várias manifestações… Mas de facto é pouco visível para quem não vai. Há essa tendência de alguns dizerem “tudo está no Plateau”. Mas o Plateau é de todos os praienses. É o centro histórico da Cidade de que todos devem se orgulhar. Estamos a fazer altos investimentos para torná-lo um “brinco” e assim todos os praienses, mas também todos os santiaguenses e todos os cabo-verdianos, possam sentir orgulho de ter um centro histórico como o Plateau. Portanto, é neste centro histórico que algumas actividades importantes devem acontecer, o que não implica que não haja outras actividades e tem havido. Outra coisa que planeamos dentro da nossa política cultural: nós defendemos (e estamos a trabalhar para isso) que toda aquela área da Pracinha da Escola Grande, onde fica a reitoria da Uni-CV, o cinema, a antiga Escola Grande e a Ex Biblioteca Nacional, devem transformar-se num centro cultural da Cidade da Praia. Com a saída da Uni-CV, que vai para novas instalações, eu acredito que seria um ganho importantíssimo para a cidade da Praia e para Cabo Verde que tivéssemos lá o centro cultural da cidade da Praia, onde as actividades culturais acontecessem, onde os jovens pudessem ter espaço para reunir, ensaiar ou produzir. Seria um dos contributos mais importantes que esta Câmara poderia dar à cidade da Praia. Porquê? Repare, Plateau desenvolveu-se de forma interessante. Esta zona em que nós estamos (Praça, Igreja, Palácio da República, Imprensa, Rádio) era a zona do poder. Essa zona que estou a dizer, da Escola Grande, Biblioteca, cinema, era a zona da Educação e da Cultura. Ponta Belém, que era a zona onde os escravos faziam as suas festas e viviam, também está a ser recuperada. Temos que dar visibilidade a este desenvolvimento histórico da nossa cidade e com esta perspectiva havemos de chegar lá.

Fala de criar nessa zona um centro cultural mas já há aqui no Plateau o Palácio da Cultura Ildo Lobo a querer cumprir esse papel. A política do PCIL é de total abertura à sociedade civil mas, por razões diversas, há relutância de cidadãos de certas partes da cidade de frequentarem e se apropriarem desse espaço. Não será o caso de descentralizar e investir num centro cultural em outra zona da cidade, nomeadamente a zona norte que tem carência de infra-estruturas do tipo?

Nós estamos a fazer. Isso não exclui o grande Centro Cultural 160 Anos da Cidade da Praia. A existência do PCIL, um centro que tem a sua vida própria mas é um espaço reduzido, não dá para aquilo que queremos fazer. Nós queremos fazer um centro em que jovens de todas as partes possam vir aqui e desenvolver as suas actividades. Mas nós também temos delegações em vários bairros da cidade e ali desenvolvemos actividades culturais. Nessas várias delegações temos espaços equipados onde os jovens têm ido fazer as suas gravações. Por exemplo, na Achada São Filipe, na Bela Vista, Achada de Santo António… E vamos ter em várias áreas centros culturais que possam complementar este grande centro que vamos ter no Plateau.

Arranca hoje a segunda edição de workshops criativos do projecto Xalabas, em Achada Grande Trás. A CMP é um dos parceiros. É um exemplo daquilo que pode ser uma intervenção cultural mais impactante nas comunidades?

É um projecto interessante. Eu acredito que o importante nisso tudo é que a sociedade civil comece a apoderar-se de iniciativas e tenham a Câmara como parceira. É um projecto que vai ter um impacto certamente forte, porque está a pegar na história de Achada Grande, nos hábitos e costumes das gentes de Achada Grande, e está a pegar naquilo que de bom aquele bairro tem para promover o turismo local, comunitário. Já tem um impacto interessante e gostaríamos que em todos os bairros surgissem projectos do tipo. Estamos sempre disponíveis para, juntamente com as associações comunitárias, desenvolver projectos desta natureza. Já vínhamos trabalhando com a Associação Pilorinhu, à qual cedemos o espaço para a sua sede e financiamos actividades. Nós acreditamos que o poder público local não deve fazer tudo e sim criar condições para que a sociedade civil participe e se apodere do seu espaço. Estou a sentir cada vez mais que as pessoas estão a se apoderar do seu espaço. Por exemplo, na Achadinha, entregamos uma praça bonita e as pessoas se apoderaram desse espaço evitando que este tenha ocupação para usos menos saudáveis.

Falou antes na tabanca. O Ministério da Cultura assinou há dias um protocolo com os grupos, inclusive os da cidade da Praia, visando um investimento na recuperação dos grupos. Que intervenção tem tido a Câmara Municipal da Praia junto aos grupos de tabanca da cidade?

Nós temos sido sempre um parceiro e temos até financiado. No ano passado a tabanca passou a ser Património Municipal e com base nisso foi assinado um protocolo. A CMP disponibilizou financiamento para a tabanca desenvolver as suas actividades.

Mas o que acontece depois disso? Há um acompanhamento para ver se realmente a tabanca está a ser dignamente representada?

Sempre que há actividades importantes e de grande visibilidade convidamos a tabanca para desfilar. Mas sim, isto é uma questão que os próprios grupos têm que trabalhar. Há um problema que é a organização dos grupos, precisam de apoio. A tabanca da Achada de Santo António é aquela que está mais bem organizada, porque pessoas com alguma formação, com conhecimentos tomaram conta. É preciso isso junto dos outros grupos. Mas também é preciso algum controlo junto de algumas pessoas que fazem parte do grupo e que precisam compreender que têm que ter atenção à forma de estar, evitar o consumo de álcool, por exemplo. É um ponto que queremos trabalhar com eles e já demos várias dicas. Uma forma de valorizar a tabanca é levá-la às escolas, mostrar o que ela é, para que assim a escola assuma a tabanca como algo importante da nossa cultura. Se a tabanca não der um salto, não envolver-se com as estruturas educativas locais, não organizar-se convenientemente e ultrapassar a desorganização e certas formas de estar que socialmente a prejudicam, vai ter sempre dificuldades. O protocolo que assinamos prevê penalizações e, depois dos encontros que tivemos, nós vamos actuar. Não podemos disponibilizar verbas e depois não se notar uma evolução. Com as batucadeiras é completamente diferente. Temos dezenas de grupos aqui na Praia, bem organizados, trabalham, ensaiam, são pontuais, estão sempre disponíveis para participar, e mostrar o batuco e vê-se que é outra coisa. É isso que a tabanca precisa. As pessoas gostam da tabanca mas é necessário melhorar isso.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 857 de 02 de Maio de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,4 mai 2018 8:03

Editado porAndre Amaral  em  14 nov 2018 3:23

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