Recomendação para ouvir: Antoninho Cantor – a nossa voz de ouro

PorPaulo Lobo Linhares,2 jun 2018 13:45

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​Sentava-se quase sempre no fundo da varanda, quando passava alguns dias em casa dos meus avós na Praia, vindo da sua ilha natal – o Sal. Escolhia uma cadeira de descanso e misteriosamente lá passava algum tempo, sempre fumando (usava boquilha nos cigarros), lendo, pensando, ou talvez até…quem sabe…”cantanto calado”, a selecção de melodias pelas quais, tão profundamente se apaixonava.

Era eu criança, mas chamava-me sempre para conversar. Eram os mais variados “assuntos”, mas lembro-me que achava-os todos muito interessantes. Para mim – nessa altura – era o primo-irmão do meu avô (sobretudo amigo) e a tal figura que eu admirava e com quem conversava muito “seriamente” e que me transmitia a sensação de estarmos a falar entre dois colegas. Tinha essa capacidade…e lá ia eu, pequenino…aprendendo sempre com ele, com o meu “colega” que às vezes vinha do Sal, familiar e sobretudo muito amigo (meu e…) do meu avô.

Lembro-me de um dia o ter ouvido a cantar. Era pequenino, e sei que ficou-me na cabeça, uma voz muito forte que se foi guardando e lá permanecendo.

Era o meu Tio Antoninho.

Mais tarde, quando me envolvi no mundo da música, um dia dei comigo a lembrar-me desta voz, que quase não ouvi ao vivo, mas que depois vim a ouvir uma gravação que me terão mostrado.

Seguiram-se os testemunhos de familiares que viveram na mesma altura do que ele, principalmente do meu avô, também do meu pai, e de outros. Comecei a ler o que encontrei (muito pouco) sobre António Nunes de Sousa Lobo, mais conhecido por Antoninho Lobo, para algum “Antoninho Cantor”.

Não posso falar muito pois obviamente não o ouvi muitas vezes ao vivo, mas pelo pouquíssimo que ouvi (incluído gravações), não tenho duvidas de que estávamos perante uma das maiores vozes de sempre da música de Cabo Verde. O nosso (talvez…) único e verdadeiro “crooner”, à imagem de figuras como Lúcio Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, no Brasil, e porque não… Sinatra ou Nat King Cole (voz) nas Américas…as vozes da “época de ouro”.

Com o passar do tempo, após o seu desaparecimento – fazia este mês 108 anos – e, quando já me tinha envolvido no mundo da música, vim a descobrir que, o tio com quem conversava, na cadeira da varanda do meu avô, também era, como acima disse, a voz-única do nosso arquipélago.

Julgando pelo seu repertório favorito, dou comigo a imaginar como seria vê-lo cantar mornas como “Moreninha sem par” ou “Camponesa Formosa”, sambas como “Meu Rádio, Meu Mulato”, “A Noite do Meu Bem” ou até fados como “Rua do Capelão”. E como seria ouvir a voz dele, quando a idade o permitia, explorá-la no seu máximo? E como seria ver a figura imponente (parecia que não se despenteava) a cantar e encher cada pedacinho de ar livre ao seu redor, com tão intensa voz.

E foi assim, o senhor que me chamava sempre para conversar – de colega para colega –, o tio que tinha o seu lugar reservado no canto da varanda do meu avô, passou também a ser, na minha opinião …e quase não o tendo ouvido ao vivo…uma das maiores vozes de sempre da nossa música…o nosso “crooner”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 861 de 30 de Maio de 2018.

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,2 jun 2018 13:45

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  6 jun 2018 12:31

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