Rainha do Finason faria 93 anos a 18 de Julho

PorChissana Magalhães,21 jul 2018 11:59

Nha Nácia Gomi
Nha Nácia Gomi(Unknown)

​Quando morreu, há sete anos, a bandeira esteve a meia-haste. O Governo decretou luto nacional pela cantadeira de Santa Cruz. Coroada pelo povo Rainha di Finason, Nha Nácia Gomi (Maria Inácia Gomes Correia) é também referida como guardiã da tradição, fonte de sabedoria popular e mestre do improviso. Foi a 18 de Julho de 1925 que nasceu, em Ribeira de Principal (na altura Concelho de Tarrafal, hoje São Miguel) a mulher que, já idosa, viria a entoar o finason e a fazer ouvir batuco nos palcos do mundo.

Repete-se muito a história de que Nácia Gomi começou a cantar nos terreiros de batuco aos dois anos de idade. Mas as fontes mais credíveis coincidem na informação de que terá sido aos 15 anos o início da carreira daquela que se tornaria uma das maiores referências da cultura cabo-verdiana, nessa época (e desde a primeira infância) já a viver em Santa Cruz. Ainda assim, há textos que apontam a idade de 12 anos como aquela com que começou a marcar presença em casamentos e baptizados, animando as festas com as suas canções criadas no momento com uma habilidade que a todos surpreendiam.

Esse início fica já marcado pelo “enfrentamento” a cantadeiras veteranas, conforme registado em depoimento por Tomé Varela da Silva, que na sua obra “Finasons di Nha Nasia Gomi” traz o relato pela voz da mesma em como desafiou, com a sua entrada no terreiro para cantar, a muito respeitada Nha Tcheca Oliveira.

Nessa obra há também sobre a biografia da cantadeira que a única educação formal que ela terá recebido foi a doutrina religiosa, isto é, a catequese que começou a frequentar por seguir os irmãos mais velhos. Tal como era comum na época, não frequentou a escola e jamais se alfabetizou, o que não a impediu de acumular sabedoria que depois enriqueceria a sua música, num exercício poético que denotava uma criatividade nata.

Conforme realçam estudio-sos da sua vida e obra, não obstante a reprovação a que a Igreja votava o batuco na época colonial, muitas das músicas de Nha Nácia Gomi tinham (e continuaram a ter) um cunho religioso, com referências a santos e santas. Quanto a temáticas, o seu finason abordava desde questões do dia-a-dia a problemas sociais, e traziam sempre recomendações, conselhos aos mais novos, mas também era pontuado por algum humor para além de transmitirem alguns pensamentos e dizeres populares que muito contribuíram para que fosse muitas vezes referida como uma biblioteca viva. Em anos mais recentes, com o boom e a maior aceitação que o hip hop foi registando alguns ensaístas começaram a associar a cantadeira ao género, referenciando-a como uma espécie de percursora já que o freestyle dos MC encontram alguma espécie de paralelo no improviso do finason.

Sendo analfabeta, Nha Nácia Gomis, nunca escreveu as suas próprias músicas. Os registos são sobretudo sonoros. Ainda antes de gravar discos – o que veio acontecer já tarde no seu percurso – Tomè Varela da Silva, na pesquisa que levou a cabo na década de 80 e que também inclui Nha Bibinha Cabral e Nha Guida Mendi, fez a gravação de músicas da santacruzense.

A música da Rainha do Finason só viria a surgir em disco na década de noventa, altura que marca a sua consagração com presença em vários eventos internacionais. Entre a sua participação na Expo Sevilha (1992, Espanha) e no festival do Museu Smithsonian (1995, EUA), em 1994 grava em Estocolmo, Suécia, duas faixas do CD Music From Cape Verde.

A sua participação na Expo Lisboa (1998, Portugal) é lendária. Aos 74 anos, ela foi uma das protagonistas do espectáculo “Camin di Mar” concebido pelo grupo Simentera e onde se procurava contar a história da música de Cabo Verde. Conta a investigadora Gláucia Nogueira, no seu livro “Personagens do Batuque” que a matriarca esteve em vias de falhar o evento devido ao luto que cumpria pelo falecimento do marido no ano anterior.

No ano seguinte à Expo’98, viajou aos EUA para gravar com os Ferro Gaita o CD “Rei di Tabanka”. A sua participação é na faixa que traz o seu nome. Finalmente, em 2000 um disco com o seu nome: “Nha Nácia Gomi Cu Sê Mocinhos”, CD de oito faixas, aparece na internet como sendo produto da Sons d’África.

Mas o disco mais reverenciado é sem dúvida “Finkadu na Raiz”, álbum onde fica registada a sua parceria com outra lenda (ainda viva) do batuco, Nho Ntóni Denti d´Oru, produzido pela AV Produções em 2005.

Na década de 90, altura em que se deu o pleno reconhecimento do seu valor artístico e até patrimonial, Nha Nácia Gomi recebe várias homenagens, uma delas o baptismo de um avião da TACV com o seu nome. A transportadora área cabo-verdiana se aliaria a outras empresas e instituições para lhe oferecer uma casa condigna em Pedra Badejo, capital de Santa Cruz. Ela que viveu largos anos, com o marido, os filhos e netos, numa casa bastante humilde. Ainda em vida recebeu outras homenagens e foi beneficiada com um passaporte diplomático.

Nha Nácia Gomi viria a falecer a 3 de Fevereiro de 2011, no Hospital Central da Praia, em consequência de um AVC. O Governo declarou Luto Nacional e a bandeira foi colocada a meia haste em todas as instituições públicas do país e também nas representações diplomáticas além fronteira. Depois de ter sido velado em câmara ardente do Paços de Concelho de Santa Cruz, o seu corpo foi a enterrar acompanhado por entoações de batuco.

Num texto publicado no jornal português Público, poucos dias depois do seu falecimento, escreveu o escritor e jornalista português Manuel Jorge Marmelo sobre Nha Nácia Gomi:

“Não era, como Cesária Évora, uma embaixadora internacional dos sons melancólicos da morna, aplaudida tanto em Paris como em Tóquio. Dentro de Cabo Verde, porém, foi uma espécie de figura tutelar e matriarcal. Chamam-lhe a “rainha do finaçon” e era também intérprete maior do batuku, dois dos géneros que compõem a tradição musical do país”. E recordando a sua participação no filme “Kontinuason” – um falso documentário do espanhol Óscar Martínez – descreve-a:

“Aparecia com um lenço branco amarrado na cabeça, com grandes argolas douradas nas orelhas, e assemelhava-se a essas maravilhosas pretas velhas que às vezes se encontram nas ruas de Lisboa, falando um crioulo áspero e belo“.

E para evocar mais nitidamente esse crioulo “áspero e belo” de Nha Nácia Gomi, recuperamos aqui uma das suas composições registadas por Tomé Varela e recentemente lembradas pela nossa colunista Eurídice Monteiro como exemplo de como “uma releitura das composições femininas da tradição oral poderá fornecer um contributo para equacionar a luta pela emancipação das mulheres caboverdianas, podendo fornecer pistas sobre o modo como as mulheres reproduzem, subvertem ou reconstroem as relações sociais nas suas comunidades”.

Djobe li: [olha essa]

N ba ta pasa na rubera, [passando pela ribeira]

N atxa mudjeris ta kanga boi, [encontrei mulheres cangando bois]

rapariga nobu ta pika kana; [raparigas novas cortando canas]

N atxa móna-bédja ta po na birsi, [encontrei mulheres maduras no trapiche]

ku ses boi sotadu, rabu nhemedu, [com os seus bois amansados e de cauda encurtada]

si kana piladu, bagas fuliadu, [com a sua cana moída e os bagaços retirados]

si kuba baredu, kalda korenti, [a sua cuba esvaziada e a calda correndo sempre]

si agordenti y agu na garafon! [o seu grogue e a água no garrafão]


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 868 de 18 de Julho de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,21 jul 2018 11:59

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  22 jul 2018 8:42

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