Gente Que Lê

PorChissana Magalhães,29 abr 2019 9:32

​Na data de 23 de Abril celebra-se o livro e o autor. Mas desta vez quisemos pôr foco nos leitores. Os iniciantes e os persistentes, que resistem aos novos tempos onde o apelo a outros tipos de conteúdos é cada vez maior.

O aprendizado contínuo é um dos valores mais preciosos a se cultivar e os livros são os melhores veículos para pô-lo em prática. É facto que quanto mais cedo se incutir na criança o contacto com o livro e o hábito da leitura maiores são as probabilidades de se criar um leitor. E ser leitor é a fórmula certeira para escrever melhor, adquirir cultura, ter mais senso crítico, ampliar o vocabulário e ter melhor desempenho escolar. São precisas mais razões para se ser um amante da leitura?

É a pensar em tudo isso que muitos pais se empenham desde cedo a pôr os filhos em contacto com os livros. Em outros casos isso é feito sem planear, espontaneamente, pelo simples facto deles próprios serem leitores e assim influenciarem pelo exemplo.

É isso mesmo que diz Flávia Rendall Rocha, formada em Comunicação Social, leitora assídua desde a infância e mãe de duas crianças.

“Cultivar nas crianças o gosto pela leitura é principalmente dar o exemplo: ler. As crianças gostam de copiar o que nós fazemos. Elas basicamente nos copiam”, constata.

E vai deixando receitas para quem se inicia na nobre missão de criar um leitor: “Depois, ler para elas estórias escolhidas a dedo, assuntos que lhes interessam, para perceberem que ler é sobretudo “fun” [divertido]: ler com gosto, com entoação, fazendo vozes, livros engraçados. Isto enquanto são pequenos”.

Esta mãe assume que chega a obrigar os filhos a lerem.

“Como os obrigo a fazer a cama deles e arrumar o quarto, obrigo-os a ler 15 minutos antes de dormir. Não o digo como uma ordem, naturalmente. À hora de dormir pergunto: “já escovaste os dentes? Leste hoje? Não? Então, lê um bocadinho”.

Aníria Teixeira, jornalista, também defende plantar e desenvolver o hábito da leitura nas crianças, sendo para tal “necessário estreitar o contacto delas com os livros, oferecendo livros, contando histórias e motivando-os sempre” para a leitura.

Em criança a jovem, natural de Santo Antão, não teve oportunidade de um contacto mais intenso com os livros. Os primeiros e únicos de que dispunha para leitura nos primeiros anos eram os manuais da escola primária.

“Os primeiros livros que li foram os da primária. Tive pouco acesso a livros na infância, porque não havia uma biblioteca na escola. Eu devorava as estórias que vinham no manual de Língua Portuguesa. Mas isso tudo mudou na quinta classe quando tivemos de mudar de escola e a nossa sala ficava dentro de uma biblioteca que fazia parte da Delegação [Escolar]... Amava aquilo. Os livros despertaram a minha imaginação, o professor também nos incentivava e até concurso de leitura fizemos”, recorda a jornalista que, um pouco mais tarde, viria a ser cativada pelos personagens das bandas desenhadas (quadradinhos) de Maurício de Souza.

“Memória do primeiro livro, não tenho”, diz Victor Almeida, consultor e formador em Higiene e Segurança Alimentar. “Mas o que esteve presente a partir dos meus nove anos foi “Harry Potter e a Pedra Filosofal” [de J.K. Rolling], oferecido por uma tia muito querida”.

A partir da sua materna ilha do Sal, Victor confirma o papel preponderante que a maioria dos pais teve no contacto dos filhos com os livros e recorda a mãe como provedora dos livros que fizeram as suas primeiras leituras.

“A minha mãe trazia-me imensos livros em quadrinhos quando viajava. Revistas da Turma da Mónica, Tio Patinhas, Mickey Mouse, Pato Donald… Depois comecei a assaltar as prateleiras dela, e gradualmente os livros iam ficando mais grossos”.

Assim como Victor, Flávia Rocha também contou com a biblioteca pessoal do pai como recurso quando passou das suas primeiras leituras – “li cedo as colecções “Uma Aventura”, “Os Cinco”, “Os Sete”… – para conteúdos mais densos. As memórias chegam em catadupa.

“Os meus pais sempre me ofereceram livros, no aniversário ou se passasse de ano. Eram leitores fervorosos, sobretudo o meu pai, e nós tínhamos muitos livros em casa. A minha paixão pelos livros veio, acho, do meu pai. Com oito anos lembro-me de ir de férias para São Vicente, à casa dos meus avós, e devorar os “Reader’s Digest” do meu avô. Antes dos 14 anos já me tinha apaixonado por Érico Veríssimo, José Lins de Rego e Jorge Amado”.

Para o jovem consultor, formado em Farmácia, as prateleiras do pai são até hoje um recurso para as suas leituras de livros em papel [Victor admite que hoje lê mais em ecrãs].

“É um local nostálgico; sempre houve o “escritório” em casa, com uma grande poltrona, com as prateleiras abarrotadas de livros, videocassetes, fotografias, memórias, lembranças e gosto a infância. Como leitor, acho que era o local que me proporcionava o material para que me transformasse”, e rememora o prazer de estar na biblioteca de casa com as irmãs e lhes dizer: “já li este livro, e este, e este…”.

Na sua construção como leitora e no que ao acesso ao livro diz respeito, Samira Kurps Moniz teve experiência diferente. A professora do Ensino Secundário recorda também o pai como provedor dos seus primeiros livros mas a partir da compra numa livraria da cidade à qual fazia questão de levá-la para escolher os livros.

“Eu tinha entre sete e oito anos de idade quando o meu pai levou-me ao Instituto Cabo-verdiano do Livro. Eu podia escolher os livros e o meu pai pagava a minha conta no final do mês. Escolhia o livro pela capa, título, ilustrações... Abria e lia uma página, e se despertasse a minha curiosidade... comprava o livro para terminar a leitura em casa. Lembro-me que, às vezes, passava horas lendo...”.

O papel das bibliotecas

Para Aníria Teixeira, que na adolescência descobriu autores como Jorge Amado, Eça de Queiróz e Camilo Castelo Branco, a biblioteca da Escola Técnica João Varela teve “papel fundamental” na construção da leitora que hoje é.

“Eu ia lá todos os fins-de-semana, pesquisava nas fichas obras que poderiam interessar-me. Devo muito a essa biblioteca”, reconhece ela que defende que as bibliotecas deveriam voltar a emprestar livros aos frequentadores.

“Acho que é fundamental para que os mais novos ganhem o hábito de leitura. Levo isso tão a sério que participei na criação de um projecto para a Rede Nacional de Bibliotecas e que deve integrar bibliotecas escolares e municipais. Para ver se mudamos essa realidade”, conta a mesma, lamentando que, por exemplo, a biblioteca municipal de São Vicente tenha a prática de empréstimo de livros enquanto a Biblioteca Nacional, na Praia, não.

E recorda com tristeza o momento em que, terminado o ensino secundário, quis continuar a requisitar livros na biblioteca escolar que frequentou durante anos e recebeu um “não” como resposta.

Para Flávia, que na adolescência não foi muito de frequentar bibliotecas mas que hoje diz-se fascinada por estas, faz todo o sentido o empréstimo de livros.

“Para incutir o amor aos livros temos que criar certas condições, sendo a mais fácil, bibliotecas. Até para estudantes terem mais acesso a informações, para trabalhos escolares. Todos os sábados vou com a minha filha à biblioteca. Ela adora lá estar e nem quer vir embora. Quando a leitura nem é das coisas que ela mais gosta…”, conta ela que vive na Holanda, onde as bibliotecas ficam abertas aos sábados.

“Lembro-me com saudades da biblioteca e da Sra. Cesária... Gostava imenso de lá ir”. Samira Moniz é ainda hoje uma frequentadora assídua de bibliotecas, onde vai para “ler, estudar, tomar café com amigos, assistir lançamentos [de livros]”.

A professora revela que os seus alunos, ao fazerem um diagnóstico no âmbito de um projecto da turma, apontaram a biblioteca da escola como um dos lugares que menos gostavam. A partir daí foram pensadas algumas estratégias para que o espaço se tornasse mais atractivo e dinâmico. Mas ainda assim Samira vê o desenvolvimento de hábitos de leitura, nos tempos actuais, como um desafio.

“Sempre aconselho os meus alunos a desenvolverem o hábito da leitura, tendo em conta os benefícios do mesmo. Inclusive, aconselho a escolherem algo [para ler] que desperte a curiosidade”.

Para Victor, que se assume também um leitor compulsivo de blogues (algo que pensa caracterizar a sua geração, os chamados millenials) não há dúvida:

“Precisamos focar nas mídias actuais. As crianças e adolescentes vêem [os filmes] “Avengers” e “Aranha Verso”? Coloquem-nas a fazerem críticas, escrever sobre o que acharam do filme. Usem os tablets para algo além de joguinhos. Isto é, se conseguirem acompanhá-los. Hoje em dia tudo muda, a toda hora”.

Flávia Rocha

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“OMeu Pé de Laranja Lima” foi o livro que mais marcou a sua infância. Depois, “houve uma fase, acho que entre os 16 e os 17 anos, que eu li quase todos os livros de Agatha Christie. Mas, basicamente, devorava de tudo um pouco”. A graduada em Comunicação Social, como muitos adultos, reconhece que já não tem como antes o tempo a seu favor pelo que o volume de leituras diminuiu com os anos. E admite que não são apenas os filhos e o trabalho a roubar tempo à leitura: as redes sociais também desviam.

“Distraem-me mais do que devia. Várias vezes desaponto-me a mim mesma, o tempo que dedico ao Facebook. Na maioria das vezes penso: podia ter lido muitas páginas”. Contudo, até se encontra actualmente numa fase em que diz ler uma média de um livro por mês. Ficção, livros de História e Política, sobretudo.

Victor Almeida

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O licenciado em Farmácia denota uma clara preferência por livros do género fantasia e realismo mágico, pelos vistos derivado do seu interesse por mitologia grega, etc. “A partir dos 11 anos, após as sagas “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”, vieram “A Brumas de Avalon” e “Presságio de Fogo” de Marion Zimmer Bradley, Garcia Marquez e, claro, a grandiosa Isabel Allende”.

A leitura online é rotina para o jovem salense. Temas como activismo negro, feminismo e pautas LGBT são consumidos através de textos nas redes sociais, nos blogues mas também jornais online. Recentemente, conta, redescobriu o prazer da leitura de um livro [são em média 5 por ano, diz] através de “Americanah”, da nigeriana Chimamanda n’Gozi Adichie.

Aníria Teixeira

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“Sou uma leitura ecléctica, leio um pouco de tudo”, autodefine-se a jornalista que tem em Gabriel Garcia Marquez um dos seus escritores de eleição.

Apreciadora de ficção mas que também faz incursões à não-ficção, sobretudo livros sobre cultura e sobre história da arte, diz que “hoje leio em média cinco livros por ano...Tenho menos tempo...”

Samira Moniz

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A professora, que recorda “O Diário de Anne Frank” e a antologia poética de Carlos Drumond de Andrade como livros que a marcaram, diz que pretende desenvolver mais o seu hábito da leitura já que, actualmente, a sua leitura está mais direccionada aos livros técnicos. Samira tem também a particularidade de ser uma leitora de… jornais.

“Semanalmente, adoro tomar um café e ler os diferentes jornais da praça, o que permite estar informada sobre o que acontece aqui e no mundo, ter perspectivas e olhares diferentes sobre um determinado assunto... Nada como desfolhar um jornal ou sentir o cheiro de um livro novo”.


Dona Djula, a nonagenária leitora de jornais

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Para algumas pessoas, as memórias das primeiras leituras incluem, para além de livros, jornais. A criança que começa a ler deita os olhos a tudo o que seja texto que lhe vá parar às mãos e, sendo os pais leitores de jornais, é quase certo que sintam curiosidade em passar os olhos pelas letras grandes que formam os títulos e um pouco mais até. Mas para uma grande parte das pessoas, a certa altura, os jornais se tornam objectos distantes.

Não para Dona Djula. Aos 91 anos, surda e quase cega, dona Júlia Frederico ainda faz questão de receber em sua casa a edição semanal do Expresso das Ilhas.

“ Faz parte da minha vida. Desde há muito, todas as quartas-feiras tenho o meu jornal para ler”, diz ela no monólogo que a certa altura iniciou, ao ver que lhe falava e apontava o jornal, mas sem poder escutar as perguntas que lhe fazia.

“ Já só consigo ver as imagens e ler as letras grandes”, revelou, as mãos trémulas a virarem com dificuldade as páginas.

Tentamos, em vão, saber se alguém lhe fazia depois a leitura dos textos, como sabemos acontecer com o poeta Osvaldo Osório, há vários anos invisual mas ainda ávido do Cabo Verde e do mundo que lhe chegam de forma diferenciada através dos jornais.

Deixamos Dona Djula na sua casinha no Plateau, tacteando com os dedos as imagens e os textos do jornal que hoje lê de outra forma, saudosa dos dias em que a vista lhe permitia ganhar informação e saber mais.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 908 de 24 de Abril de 2019.

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Autoria:Chissana Magalhães,29 abr 2019 9:32

Editado porAntónio Monteiro  em  2 mai 2019 12:27

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