A Revolução Liberal portuguesa e Cabo Verde

PorExpresso das Ilhas,30 ago 2020 11:09

Os retratos, do rei D. João VI e de D. Pedro IV da autoria do pintor cabo-verdiano Simplício Rodrigues de Sá (São Nicolau, Cabo Verde, 1785 - Rio de Janeiro, 1839).
Os retratos, do rei D. João VI e de D. Pedro IV da autoria do pintor cabo-verdiano Simplício Rodrigues de Sá (São Nicolau, Cabo Verde, 1785 - Rio de Janeiro, 1839).

Comemora-se este ano o bicentenário da revolução liberal, que teve início no dia 24 de agosto de 1820, na cidade do Porto, com um levantamento militar e a leitura de uma proclamação a favor da liberdade e da monarquia constitucional.

Dia 11 de setembro, assistiu-se em Lisboa a uma movimentação semelhante, mas já com maior apoio popular. No final do mês, os dois movimentos uniram-se e criaram a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino que tinha o encargo de realizar eleições e organizar as Cortes Constituintes. O objetivo era criar uma Constituição que retirasse ao Rei o poder absoluto e permitisse aos cidadãos participar nas decisões governativas.

O impacto desta revolução, na forma como hoje pensamos e como politicamente nos organizamos, justifica comemorar a data e revisitar as consequências e os acontecimentos ocorridos nas ilhas. Foi uma época de grande agitação política e de mudanças significativas na vida política e cultural e foi na sequência da vitória das forças liberais que, em Cabo Verde, se assistiu à implementação do ensino laico e da imprensa livre e à criação de bibliotecas e Clubes de Leitura.

Neste artigo tentarei fazer a súmula dos acontecimentos que historiadores e investigadores têm analisado a partir da documentação resgatada dos arquivos, mas para os que se interessam mais pela vida quotidiana, pelos sentimentos e preconceitos das pessoas comuns, aconselho a leitura de dois romances: O Senhor das Ilhas, de Isabel Barreno e O Escravo de José Evaristo d’Almeida. É que a literatura tem esta extraordinária capacidade de relatar acontecimentos que marcaram a história e de, simultaneamente, lhes dar vida.

A Revolução

A Revolução Liberal de 1820, como todas as grandes mudanças ideológicas, não nasceu do nada. Herança remota da Revolução Francesa e mais recente do golpe falhado de Gomes Freire de Andrade, de 1817, e da revolução liberal ocorrida em Espanha, cerca de meio ano antes, foi sobretudo alimentada pela grande insatisfação popular que se vivia em Portugal. De facto, em pouco mais de dez anos, Portugal foi devastado por três invasões francesas, perdeu o Rei e a sua corte, que se refugiaram no Brasil, e praticamente vivia sob protetorado inglês.

Também em Cabo Verde havia motivos para descontamento e revolta em quase todas as camadas da população. Os grandes proprietários vivam descontentes com as interferências do reino que limitavam os poderes políticos dos homens da governação e o comércio com o exterior. Os rendeiros e os trabalhadores rurais viviam desesperados, completamente desprotegidos e vítimas de todas as arbitrariedades perpretadas pelos morgados. Na base da pirâmide social estavam os escravos que sofriam toda a espécie de injustiças e maus-tratos.

Quando a notícia chegou ao arquipélago, em novembro de 1820, os senhores das ilhas mantiveram-se num sensato e distante silêncio em relação ao que se passava no reino. Não só a incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos era grande, como pareciam estar mais mobilizados e divididos pelas suas inimizades e interesses locais do que pela lealdade ao Rei ou simpatia pelas ideias liberais.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 978 de 26 de Agosto de 2020.

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Autoria:Expresso das Ilhas,30 ago 2020 11:09

Editado porJorge Montezinho  em  1 dez 2020 23:20

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