Tó Tavares recorda Orlando Pantera no vigésimo aniversário da morte do músico

PorAntónio Monteiro,3 abr 2021 8:35

Tó Tavares
Tó Tavares

O professor Tó Tavares é dos poucos que conheceram de perto Orlando Pantera, o músico falecido em Março de 2001, há 20 anos, e que ficaria para a posteridade como ícone do movimento de reelaboração do batuku, trazendo-o para o contexto da música contemporânea, autoral e urbana. Tó Tavares recorda aqui os anos em que partilharam o mesmo tecto e leccionaram na Escola Pentagrama pela qual passaram nomes sonantes da cena artística cabo-verdiana como Sandra Horta, Sara Alhinho, Djodje e Mayra Andrade.

Que recordações guarda de Orlando Pantera?

Gostaria de começar por falar do Pantera enquanto homem, pois foi por este lado que eu o conheci primeiro, embora já tinha antes conhecido a sua obra. Nós os dois fomos os ícones da produção de músicas infantis nas décadas de 1980/90. Como sabe, naquela época havia concursos nacionais e internacionais de pequenos cantores e havia necessidade de um reportório infantil para que as crianças pudessem participar nesses certames com canções que retratassem a sua mundividência. Então, eu e o Orlando Pantera, obviamente que não éramos os únicos, fazíamos composições para as crianças que participavam nesses concursos. A partir daí, os nossos nomes começaram a sonar na comunicação social. Mais tarde vim para a Cidade da Praia, porque eu trabalhava em São Vicente como professor de música, depois de dois anos na ilha do Maio. Chegado à Praia, em princípios de 1990, tive conhecimento do Pantera, a partir da música. Mas o que me pesou mais foi a parte humana do Pantera. Eu sei que as pessoas conhecem o Pantera mais pela música, mas foi a parte humana do Pantera que me tocou mais. Aliás, foi por esta razão que, quando iniciei o meu projecto de Escola Pentagrama, nos idos de 1990/91, foi o primeiro músico que convidei como professor para a escola. Fomos colegas durante 6 anos, até 1996.

O Pantera aceitou logo o convite?

Digamos que foi um convite mais informal, pois na altura morávamos na mesma casa, em Achadinha. Antes eu morava com o meu irmão, Pantera morava no bairro do Pensamento com a família, mas ele já tinha uma demanda de trabalho que não dava para ele continuar a morar no Pensamento. Então, como tínhamos o mesmo método de trabalho e a mesma sintonia musical resolvemos arrendar uma casa e morar juntos. Por isso, foi mais ou menos um companheiro que veio ficar comigo aqui na escola.

Quando é que o Pantera deixa a Escola Pentagrama?

Por volta de 1996, quando ele se afirmou mesmo exclusivamente como artista e deixou a parte da docência aqui na Escola. Eu lembro-me de uma vez uma amiga nossa ter-me dito ‘olha, o Pantera está a fazer sucesso lá fora, vê se tu fazes também qualquer coisa’. Eu disse-lhe, ‘não, ele está aí a puxar uma ponta, eu estou a puxar a outra para que as duas possam erguer-se. Se eu sair daqui fecho a porta e o que será dos meus alunos? Eu vi que havia necessidade de eu permanecer na Escola, porque continuo a pensar que o país tem que ter a sua escola de música, tem que ter algo no sentido de dar resposta ao grande talento musical que Cabo Verde tem, mas infelizmente não está ainda consolidada essa ideia de dar uma componente mais científica àquilo que é a realidade que nós temos e todo o mundo reconhece. Então eu tive que ficar, mas obviamente que gostaria de poder fazer aquilo que ele fez. Só que num dado momento a gente tem que decidir se quer ser professor, ou quer ser músico. Ao fim e ao cabo são duas faces da mesma moeda, mas hoje em dia é quase impossível fazer as duas coisas.

Que alunos passaram pelas vossas mãos que hoje são artistas consagrados?

Veja, muitos que foram grandes alunos nossos, não estão na cena artística cabo-verdiana. Por outro lado, há muitos talentos que não estão como artistas, mas exercem docência musical e há ainda outros que exerceram funções de vereadores, etc. Eu tenho sempre a tentação de recordar esses que são mais mediáticos, nomeadamente a Sara Alhinho, o Djodje, a Mayra, a Sandra Horta, a Samira, o Djoy Tavares e mesmo o Pedro Moreno que hoje é professor de guitarra clássica…

Podia citar alguns alunos que passaram pela Escola Pentagrama no tempo de Pantera?

No tempo de Pantera o mais conhecido é provavelmente o Gamal e a sua mulher Talina que foram os dois primeiros alunos de guitarra da nossa escola. O Gamal esteve mesmo com o Pantera. Na altura comecei com eles, mas depois a formação de guitarra que tiveram foi com o Pantera. Nós todos reconhecemos hoje o talento, a capacidade e a obra do Gamal.

Apesar da curta carreira, Orlando Pantera fica para a história como ícone do movimento de reelaboração do batuku, no início dos anos 2000…

Concordo plenamente. Todos nós conhecemos o batuku, todos nós conhecemos o parâmetro tradicional que existia e vimos que o Pantera foi pegar no batuku que na altura tinha um leque harmónico bastante restricto. Então, ele pegou no batuku e construiu um padrão musical sobre o ritmo do batuku, mostrou as alternativas que se pode ter, renovando a estrutura deste género musical. Trouxe-o aos centros urbanos e legou à juventude actual uma alternativa à música tradicional cabo-verdiana. Esse tipo de música, baseado no batuku estilizado por Pantera ganhou rapidamente crédito na juventude cabo-verdiana. Veja como imediatamente a Mayra Andrade agarrou aquilo como seu repertório de base. Depois veio a Lura, mas podemos referenciar também o caso do Tcheka que imediatamente trouxe um repertório musical não tão próximo do Pantera, mas baseado no seu padrão. Na altura todos nós sentimos que estávamos a ganhar um certo oxigênio do ponto de vista daquilo que é a expressão musical contemporânea da música cabo-verdiana.

Existiu a chamada Geração Pantera na música cabo-verdiana?

Eu acho que sempre existiram gerações de músicos em Cabo Verde e considero que o Pantera é indubitavelmente o ícone do movimento de reelaboração do batuku entre finais do século passado e início dos anos 2000. Aliás, o Pantera não fez só o batuku, mas compôs também em outros géneros musicais. Veja a forma como ele compôs coladeiras e outros ritmos urbanos em que ele também contribuiu com o seu quinhão, sempre com uma certa originalidade – baseado na tradição, mas mantendo sempre uma certa modernização do género. Portanto, considero que surgiu na altura uma nova geração de músicos em que Pantera foi provavelmente o seu expoente máximo.

Apesar de ter formação específica na área da música o que aprendeu com Pantera?

Eu debatia com ele na Escola Pentagrama em diversas ocasiões que método adoptar para o ensino da música em Cabo Verde. Eu defendia a música clássica. Ele defendeu que devia ser um método baseado no Jazz para poder ter um início e depois ter um percurso. E o nosso percurso devia seguir o processo daquilo que foi o ensino e aprendizagem do Jazz. Porque a nossa música é também popular, mas queríamos dá-la também uma componente erudita na nossa forma do ensino para que pudéssemos dar um contributo progressivo na música de Cabo Verde. Ou seja, que fosse progressiva, para que pudesse crescer. Na verdade, o Jazz dá mais espontaneidade, dá maior liberdade e é o que nós temos na música cabo-verdiana. Os músicos cabo-verdianos tocam espontaneamente, tocam pelo ouvido e é mais autodidata que outra coisa. Eu que sou um pouco mais rigoroso do ponto de vista do ensino, via a música clássica como modelo de ensino. Discutimos isso bastante e depois acabei por aprender com ele que, de facto, eu posso ter essa ideia de ensinar pelo modelo da música clássica, mas sem deixar a parte que é nossa música tradicional.

Como é que o Pantera descobre o Jazz? É que hoje fala-se muito na fusão da nossa música com outros géneros, entre eles o Jazz, mas na altura parece ter sido uma opção revolucionária.

O Pantera sempre me falava do Jazz. Eu me lembro que ele me trouxe dois livros de música para a Escola encomendados nos Estados Unidos. Havia nesses livros obras extraordinárias dos grandes homens do Jazz e ele sentia ali qualquer coisa como material essencial para sua formação como músico. Não é por acaso que ele introduziu um sistema de acordes nas suas composições que tem uma certa dimensão relativamente à forma como antes de tocava as músicas de Cabo Verde.

Apesar de ter sido um inovador e distinto compositor, atribui-se a Pantera composições que não são dele. Tem conhecimento disso?

Sim, há algumas composições, não são muitas, em que tenho alguma reticência. Eu desde a primeira hora fiz questão de dizer que a morna Regasu, também conhecida por Seiva era música do Pantera, mas a letra é do jornalista António Silva Roque. Eu nunca falei disso na comunicação social, mas sempre disse ao Silva Roque para repor a verdade, porque eu sei que se o Pantera estivesse vivo ele diria logo que a música é dele, mas a letra é do Silva Roque. Há também algumas pessoas a dizer que Oh na ri na não é bem do Orlando Pantera, porque ele meteu a letra, mas Manu Preto esteve também lá, embora ele são seja músico, mas um dançarino. Eu acho que por Orlando Pantera ter sido uma figura extraordinária da nossa geração musical quando se lhe atribuem alguma composição alheia, nós às vezes, pelo respeito que temos pela pessoa, e pela amizade que tivemos por ele, sentimo-nos inibidos em dizer ‘não, esta composição não é dele’.

Aliás, a morna, neste caso, Seiva, ou Regasu,que já é um clássico da música cabo-verdiana, é um género residual em toda a obra de Pantera.

De facto, é difícil você encontrar meia dúzia de mornas compostas por Pantera. Para além de Seiva ser a mais conhecida, há uma dificuldade em identificar outras obras composições dele que sejam mornas, neste contexto. Num outro contexto salta à vista ou aos ouvidos, que a letra da canção não é escrita no puro crioulo da ilha de Santiago. Mas eu tenho uma veracidade muito mais forte. Um dia o Silva Roque foi ter comigo pedindo que metesse música na letra que ele tinha escrito. Na altura, como já referi, eu e o Pantera morávamos na mesma casa. Como tinha nessa altura vários compromissos, meti a letra na gaveta. Então, de repente, o Pantera veio ter comigo e disse-me ‘Tó, o Silva Roque trouxe-me um poema e já o musiquei’. Eu disse-lhe ‘qual poema? Ele disse é este aqui’. Então ele contou-me que o Silva Roque também lhe havia mostrado o poema e ele meteu logo a música. É que o Pantera era muito pragmático, meteu a música em pouco tempo. Então falei com o Silva Roque e ele disse-me ‘sim, mostrei ao Pantera e já está. Gostei’.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1009 de 31 de Março de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,3 abr 2021 8:35

Editado pormaria Fortes  em  3 abr 2021 17:31

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