Testamentu, tradição e expressões-imagens, em música

PorPaulo Lobo Linhares,25 abr 2021 8:04

​A música são encontros. Veio-me de novo às mãos o álbum-projeto de Djinho Barbosa – “Trás di Son” que foi lançado em 2006.

Para além da união musical de dezenas de participantes nele um tema com a voz do nosso inesquecível Kaká Barbosa. Faz parte de um grupo de discos, constantes e presentes (em acesso e no tempo) que devem estar sempre por perto. O disco é de 2006.

Dois anos depois é lançado o primeiro disco de Maruka – artista do Tarrafal que ainda mostrou a sua arte em Cabo Verde, tendo passado pelo Kriol Jazz Festival e através do seu segundo álbum. Terá depois partido para os EUA e obviamente quem escolhe a música como parceira vai sempre bem acompanhado.

Já conhecia o segundo trabalho de Maruka. Despertou-me a atenção. Contudo muita coisa cresce, após me ter sido mostrado o seu primeiro … exatamente por Djinho Barbosa, compositor de Trás di Son. Sim, meus caros, nada acontece por acaso na música. Provavelmente pela estrada que se aproxima ainda venhamos a nos encontrar … encontros… de que mais à frente falaremos…

Maruka é natural do Tarrafal, lugar encantado e que de forma natural nos absorve…

E aqui começamos a entrar na música de Maruka, mais incisivamente neste disco que também nos absorve de forma natural. Sempre acreditei em discos que não impõem nada, mas que se vão impondo delicadamente. Chegam devagarinho, pedem licença, vão propondo o que têm para nos dar.

E como me conquistou.

Pensando bem, não ouvi o disco…vi-o, senti aromas que se misturavam com as imagens que misturavam as sonoridades. Paisagens pintadas em nuances suaves, porém marcantes…

Há estórias e conversas, há chuva e erva verde pisada, há terra, gotas e latas de água, mas também ribeiras e muita natureza, mas uma natureza que esculpe e molda inosensias, surisus… tem Dina ku Sabina e ê tem txeu floris…txeu…ti ki ta txiga 7…séti kuzas…

A força imagética do testamento é enorme, e tão bem cantada…e a música tão bem contada… perdemo-nos deliciosamente num contar e cantar que nos transporta para lugares que foram feitos com a mesma alquimia usada aquando foi feito o ar-do-Tarrafal…vamos sentindo-o ao longe, mas está tão dentro de nós em contradição deliciosa e mágica…

Mas se todo este cenário nos é passado, deve-se também à voz de Maruka – também ela natural e outra vez absorvente. Assim como o disco todo – atrai à primeira e absorve-nos logo à segunda audição. O mais interessante é que Maruka parece que canta a sorrir – quer seja amisadi ô disigualdadi…tradison ô storia…testamentu ô brinka tradison … ki fari go to ke está bisti bazofu ta pensa na pidimentu di sê mulata.

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A instrumentação também é coerente ao conceito dos contos e cantos. São ritmos simples porém – os necessários. Uma base e ao longe, suavemente, ouvimos sonoridades dos nossos ritmos, cornetas da tabanka em batuku, txabetas nos rufares dos tambores e a mistura deliciosa de instrumentos que nos vão ficando esquecidos e que aparecem pontualmente quando o tem de fazer – o caso do violino que num dos temas enamora-se pelas cordas do violão num romance “Kau Berdi” …kel kau undi gatu tem oitu bida…e a esperança é alimento.

O simples semeia e colhemos o todo neste Testamentu.

O músico Djinho Babosa ter-se-á referido ao disco como um trabalho que se destaca pela “impressionante capacidade musical e harmónica das músicas, a qual mistura …”um timbre sabi, um cantor com uma forma própria. “e acrescenta ainda a tradução do pensamento musical para a prática na mestria dos arranjos de Kim Alves”.

Sim, falo uma vez mais no nome de Djinho Barbosa, pelo respeito musical que por ele aprendi a ter, agradecendo este enorme disco que me fez conhecer. E como disse, nada acontece por acaso na música: os dois nomes de que falei, encontraram-se nos EUA e já há algum tempo fazem parcerias musicais que esperamos brevemente ver.

Afinal é por causa destes nomes que, como diz Maruka: nu ta kanta pa kultura ka seka na petu di nos fidju”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1012 de 21 de Abril de 2021. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,25 abr 2021 8:04

Editado porFretson Rocha  em  26 abr 2021 15:09

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