Diva – elas em música, cidade e mulher

PorPaulo Lobo Linhares,16 jul 2021 9:58

As noites de Mindelo confundem-se com a música que as embala. Nesse embalar é clara a marca da música e poesia que inspira os compositores, que flui através dos músicos e das vozes que a vão (en)cantando.

Diva Barros é certamente uma das vozes mais carismáticas de Mindelo. Como deixou escapar numa conversa: “ej sidad entra na mi”. Com a cidade envolveu-se quase que num só ser musical, seguem caminho.

A cantora é filha de Artur Gomes figura conhecida das noites de Mindelo pela sua capacidade de tocar o cavaquinho. Também foi fundador do Grupo “Nova Aurora”, com Manel d`Novas, Luís Morais…

…Diva bem dún kavakink e d’un kavakinh solod nun Nova Aurora…

Desde muito cedo Artur d´Kavakin foi figura preponderante na paixão da filha pela música. Por entre ensaios nos quais participava, notas que se soltavam de violões e do tal “kavakin” tão especial, conversas que ouvia e as que ia tendo com músicos frequentadores da casa dos pais – como Manel d´Novas que pela primeira vez fez com que ela cantasse uma morna, tendo inclusive na altura adivinhado o seu casamento com a música – a pequena Diva ia andando-dançando pelos ensaios, pela alegria que ia vendo nas noites cabo-verdianas e sobretudo pela sua cidade amada.

…El kriá na Mindel, tera sabinh, d´morabeza e nova aurora, solod pa un kavakin e guardod pa mont kara – patron d´sonsent…

Assim, estava destinado. A música arrebatou Diva para si….

Segue com as tocatinas e Noites Cabo-verdianas e, em 2010, acaba por gravar seu primeiro CD – “Palco d’Vida”.

“O álbum nasce de uma sedução minha pelos diferentes palcos que percorri”, diz a artista. Na verdade, Portugal, Itália, Angola, Brasil entre outros. Em 2013, na sequencia do AME, foi seleccionada para cantar em New Orleães, onde confessa ter visto nas festividades a alegria com que a população local se relaciona com a música – algo também do seu Mindelo.

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Nos palcos de Cabo Verde, mantém presença constante e eis agora o momento de lançamento do seu mais recente trabalho que, segundo a cantora, levou 6 anos a ser cozinhado, com muita paixão e procuras várias e que passou também por 6 produtores…

…. sobre o disco

Chega agora o álbum: “Um bem dum Cavaquin”. Com ele o vídeo –single com a bela morna de B. Leza - “Morabeza”.

Todo o disco é ilustrado e de sensorial intenso. Na verdade, da mistura da nossa Morabeza que Diva tão bem canta, da tonalidade da sua cidade de sempre, e da vivência-pulsar da mesma. Assim acaba por descobrir donde vem, de que ritmos e ventos e ainda descobre que vive numa cidade protegida por um monte que a guarda.

Escolhe os nomes de B. Leza e Manel d’Novas para, através de duas mornas, cumprimentar Mindelo. Também pede ajuda a Luís Morais num dos temas que o mesmo musicou. Há também lugar para as composições escritas pela cantora e para um dueto com Tito Paris, seu amigo de infância.

A voz da Diva tem assinatura própria. Num timbre de envolvência extrema, fortíssimo e aveludado, sentimos que a cantora canta a sorrir. Há pequenas expressões que vai deixando escapar de forma emotiva e sensual e que, qual pétalas colocadas no momento certo, passam-nos o sentir que no momento a cantora sente e que faz questão de partilhar com quem ouve.

A selecção dos músicos é especial. Perante o que quer das músicas assim vai convidando quem com ela deverá estar. Uma certeza: da geração mais recente até à mais experiente, de presenças mais constantes ao longo do disco todo até outras pontuais, os músicos aceitam a dança e, um por um, vão dançando com a anfitriã que, ora dengosa, ora ritmada … numa morna onde o bater dos corações se confundem, ou na alegria de um latino ou coladera, vai-se fazendo o todo-disco… Tey Santos, Hernani Almeida, Stefan Almeida, Paulo Bouwman, Toy Vieira, Djim Djob, César Lima e mais… Passeia pela morna, coladeras e sempre que possível foge para fusões com ritmos do Brasil do jazz e da música latina.

Nos temas há mistério – Kel kuzinha que ta gosta sem sabe purke – há “Jazz Criolo”, onde pela música é expressa a nossa criolidade. A par do que somos assim é a nossa música…muitos, todos num tudo. A “Morabeza” é transversal ao disco e aqui é expressa pela linda morna de B. Leza. Mas a Morna-Mindelo não pára aqui… o mestre Manel d’Novas - o cronista-pintor da cidade-realidade do Mindelo, traz um dos temas mais belos da nossa música – Rufux Escacareques.

Em “Cretcheu más doce”, uma coladeira temperada por um samba-canção ouve-se o sorriso de Diva no tema… já a “Diva” teria dito que São Vicente é um Brasilin. Fundem-se seres em prol dum sab-cretcheu.

“Amdjer, Coque e Bafa” traz-nos a coladeira de décadas atrás, onde um dos nomes maiores deste género assina a música – Luís Morais. Finalmente o tema que dá nome ao disco e que tudo explica: “Um bem dum Cavaquin” que conforme dito: é origem, é Mindelo e é origem-Mindelo.

O resto-todo é a voz envolvente e sensual de Diva Barros para um álbum que mais do que ouvir, sente-se. Num álbum sensorial e sensual, os ambientes criados fazem-se sentir quando os ouvimos.

É interessantíssimo ver a cidade e a mulher a fundirem-se. A cidade, quando mulher, é sempre especial. Diva o é, porque Mindelo assim a ensinou a ser. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1024 de 14 de Julho de 2021.

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,16 jul 2021 9:58

Editado porAndre Amaral  em  16 jul 2021 19:14

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