Regressam as festas juninas. E que saudades tínhamos delas

PorNuno Andrade Ferreira,12 jun 2022 8:11

Não há manifestação popular que supere uma festa junina. Podemos respirar de alívio, elas estão aí. A pandemia interrompeu a tradição, mas não deu cabo dela.

Depois de dois anos suspensas, as festas juninas regressam às ilhas, com celebrações – maiores ou menores – um pouco por todo o país. Os santos populares são momentos de tradição e mobilização. Fomos espreitar alguns dos preparativos.

Em Porto Novo vive-se aquela que será, muito provavelmente, a maior festa de romaria de Cabo Verde. Comme il faut, religioso e pagão misturam-se ao longo de quase todo o mês de Junho.

A programação começou no início do mês, em jeito de prelúdio do que por aí vem, quando chegarmos às vésperas de 24. O vereador da Cultura da Câmara de Porto Novo, Nilson Santos, revela que a autarquia trabalha o programa “há algum tempo” e fala em “retoma”.

“Não estamos em condições de realizar todas as actividades [habituais], por causa da exigência na preparação que uma festa como esta. É um São João de retoma. Paulatinamente, nos anos subsequentes, iremos conseguir realizar a festa como era antes da pandemia”, acredita.

Atletismo, ciclismo, corridas de cavalos, teqball, futsal e andebol compõem a componente desportiva do Son Jon revoltiód.

“Em termos culturais, é hábito organizarmos algumas sessões de formação. Este ano, realizamos uma oficina de construção de navios de São João, no âmbito do plano de salvaguarda da festa de São João Baptista, onde identificámos alguns aspectos que precisam ser reforçados, para podermos ter a festa cada vez mais enraizada e salvaguardar os aspectos tradicionais”, complementa o responsável.

O baile popular de 23 e 24 de Junho foi concessionado a um promotor de eventos e está garantido. Garantida está também a peregrinação de dia 23, entre Ribeira das Patas e Porto Novo, bem como missa e procissão, a 24.

“Resgatámos uma das tradições de romaria, que é o ritual de cola fjid, que marca a passagem da vida da adolescência para a vida adulta. Antigamente, roubavam um adolescente nas comunidades e traziam-no para a festa no Porto Novo. Depois, no regresso, faziam todo o ritual de entrega do fjid”, lembra.

Do programa, que é vasto, destaque também para a XVI edição da Feira de Produtos Agropecuários de Santo Antão, de 17 a 19 de Junho, no Polivalente de Berlim.

Ribeira de Julião

Do outro lado do canal, em São Vicente, o São João também se leva a sério. Em 2020 e 2021, a covid-19 deu o seu show solo, mas este ano, e apesar de muitos constrangimentos financeiros, o rufar dos tambores está garantido.

António Tavares, presidente da Associação Terra Tambor, anuncia para dia 24 a marcha que vai ligar o Centro Cultural do Mindelo, no centro da cidade, a Ribeira de Julião.

“Foram dois anos sem festa, o que foi muito marcante. É uma festa que está intrinsecamente ligada a este período de solstício”, destaca.

“Há pessoas que fazem as suas férias para virem tocar. É um momento único, em que tocamos olhos nos olhos e colamos, que é uma forma de renovar a vida, renovar a esperança, a vontade de um ano fértil. O nosso povo está mesmo a precisar disso, tendo em conta todas as dificuldades. Temos que ter precaução, mas é uma festa fundamental. O nosso corpo precisa de dançar, de expulsar essas mazelas psicológicas que esse período de dois anos nos fez”, lembra.

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Apesar da vontade de regressar à festa, muitas das actividades que habitualmente compõem o programa do São João em São Vicente mantêm-se suspensas. Por exemplo, em Fonte Inês, não deverá acontecer a típica saltá lumnara.

“Estamos motivados por poder organizar um primeiro sinal e, no decorrer deste ano, preparar as coisas para que o próximo seja com toda a estruturação, desde o dia 3 até 24 de Junho”, promete António Tavares, que apela ao apoio possível das empresas da ilha.

São Pedro

Ainda por São Vicente, outra festa de romaria marca a agenda do mês de Junho. Na localidade com o seu nome, o São Pedro está de volta, com um programa cultural e desportivo, para além da dimensão religiosa. Ouril, bisca, futebol de onze, futsal infantil, corrida de resistência e regata são propostas para estes dias. Dia 29, ponto alto, a cidade ruma à vila piscatória.

Arceolinda Gomes integra a organização das festas de São Pedro, este ano dinamizada por uma comissão, em conjunto com associações locais. A comunidade espera por um encontro com a câmara municipal, para afinar pormenores.

“Há muito entusiamo, porque normalmente é uma festa marcante”, confessa.

A expectativa é grande e não é para menos. Além de ser um momento de celebração, o São Pedro dá a muitas famílias a oportunidade de ganhar algum dinheiro.

“Toda a gente conta com esta festa. Estamos a passar por muitas dificuldades, devido à pandemia e à guerra. As pessoas estão a ver na festa uma forma de ganhar o pão de cada dia, onde podem vender a sua moreia ou outras coisas”, explica.

Brava

Os santos populares também se celebram na ilha mais a sul do arquipélago. Na Brava, as festas juninas começam logo com o Santo António. O ponto alto é o São João. Cultura, desporto e religião juntam-se ao longo de praticamente um mês e em 2022 com direito a dose extra de ansiedade, causada pela retoma das actividades, interrompidas desde 2019.

João Paulo, integra a comissão organizadora da festa de São Pedro, que embora mais pequena que o São João, “tem o mesmo brilho”.

“Normalmente, a preparação é anual. Os festeiros começam a preparar desde a tomada da bandeira até ao culminar, que é o festejo, no ano seguinte. Os preparativos passam por tentar o máximo possível de apoios e tenta criar uma comissão organizadora, porque é uma festa popular”, expõe.

Um dos grandes momentos do São Pedro Apóstolo acontece a 27, dia do tradicional cutchi midje, em preparação para o almoço de 29.

“No dia, também haverá a vestimenta do mastro. Às seis da manhã, as pessoas encaminham-se com as prendas para o mastro. O culminar das festas é o almoço. Às 17 horas, temos aquilo que é chamado de passagem da bandeira para o próximo festeiro”, resume.

“O festeiro leva a bandeira para o mastro e alguém arremata a bandeira, assumindo a responsabilidade da festa do próximo ano”, antecipa João Paulo.

ASA

O nome não deixa ninguém ir ao engano. Na Achada Santo António (ASA), o santo joga em casa. A Tabanka Tchada Santantoni aproveita o embalo das festas juninas para um conjunto de actividades, nas quais incluiu, esta segunda-feira, a inauguração da Kaza Tabanka e da exposição “Tabanka Txada nós identidade”.

Sobre a mostra, de carácter permanente, Pedro João de Carvalho, da organização, realça que esta regista “vivências e rituais”.

“A tabanka é uma identidade da Achada de Santo António, é uma das tradições mais antigas do país”, diz.

Até dia 12, sempre às 19:30, decorrem as festas dos juízes, com actuações de diferentes grupos de batuco. A par de outras iniciativas, dia 13, às primeiras horas da manhã, acontece o roubo de santo, a anteceder o almoço, após a chegada dos ‘ladrões’.

“Até dia 13, superaremos a nossa própria expectativa e cumpriremos os objectivos da nossa festa”, antevê Pedro João.

Paul

Por falar em António, vale a pena regressar à ilha onde começámos, para referir a festa do santo que, no Paul, coincide com as festas do município. O programa começou domingo, com a Miss Santo Antão e prossegue, com actividades diárias, até 14 de Junho (sugerimos que espreite a página de Facebook da câmara municipal, para não perder pitada). Dia 12, decorrerá a parte protocolar. Dia 13, centro das comemorações, haverá missa e procissão, concurso de tamboreiros e coladeiras, além de corrida de burros e a final da corrida de cavalos. Se planeia uma ida às Pombas, atrás de noites de baile, fique descansado. Há animação musical planeada para os dias 10, 11, 12, 13 e 14.

com Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1071 de 8 de Junho de 2022.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,12 jun 2022 8:11

Editado porA Redacção  em  13 jun 2022 11:49

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