Obra colectiva sobre transição democrática em Cabo Verde apresentada na Praia

PorAntónio Monteiro,13 fev 2026 9:33

O livro 'A Transição Democrática em Cabo Verde – Uma Perspectiva Crítica' reúne textos de seis autores que estiveram directamente envolvidos na luta contra o regime de partido único e pela democracia pluralista no período 1990/91, como nos dá conta José Tomaz Veiga, organizador da obra. O lançamento terá lugar esta sexta-feira, pelas 17 horas, na Biblioteca Nacional. A apresentação estará a cargo do académico e cientista político Leão de Pina.

A compilação abre com um texto de Jacinto Santos intitulado Uma leitura retrospectiva do processo de transição democrática cabo-verdiano entre 1989 e 1992, seguindo-se A negociação da transição política em Cabo Verde, por Alfredo Teixeira; Apontamento sobre a ocorrência do partido único, em Cabo Verde, e as suas consequências – a verdade, e só a verdade, por Amílcar Spencer Lopes; Abertura ou estratégia de hegemonia política do PAIGC/CV? por José Tomaz Veiga; e Contra o apagamento de um tempo… da autoria de Leão Lopes. “Dada a forma como a narrativa oficial adulterou a realidade da transição democrática de 1990/91, pareceu-me necessário opor uma perspectiva crítica e informada à tese dominante”, explica José Tomaz Veiga nesta entrevista.

Como surgiu a ideia de organizar um livro sobre a transição democrática em Cabo Verde?

A versão “oficial” da transição política no país deturpa a realidade do que aconteceu. Isso tornou-se evidente na forma como a “abertura” e a transição política foram apresentadas no âmbito das comemorações dos 50 anos da independência. A acreditar na narrativa oficial, o PAICV decidiu de motu próprio, sem submissão a pressões externas ou internas, “conceder” aos cabo-verdianos o “privilégio" de se envolverem livremente na política do país. Ora, a verdade é que o PAICV não tinha, em finais de 1989, a mínima intenção de proceder a qualquer abertura para o multipartidarismo. A decisão de abertura, limitada à participação de grupos de cidadãos, excluía a participação de partidos políticosnas eleições previstas para 1990. E foi tomada sob imensa pressão externa decorrente da queda do comunismo na Europa, e da pressão interna resultante da profunda insatisfação e rejeição popular ao regime de partido único. Dada a forma como a narrativa oficial adulterou a realidade da transição democrática de 1990/91, pareceu-me necessário opor uma perspectiva crítica e informada à tese dominante. É isso que explica a minha iniciativa.

Qual foi o critério na escolha dos autores?

Foram dirigidos convites a várias pessoas que estiveram directamente envolvidas na luta contra o regime de partido único e pela democracia pluralista no período 1990/91. Foi esse o critério utilizado. Os autores foram actores na oposição activa à tentativa de instrumentalização da transição política, que o PAICV pretendia conduzir e enquadrar para garantir a sua hegemonia no futuro xadrez político. Por isso, pensei que os que estiveram do outro lado teriam algo a dizer. Responderam ao desafio e produziram os textos que integram o livro.

Não havendo em Cabo Verde a tradição de obras colectivas de ordem temática que dificuldades teve que ultrapassar?

A principal dificuldade foi assegurar a conjugação das agendas e disponibilidades de cada um dos autores. O convite foi dirigido a um número alargado de actores do processo de transição, mas o prazo era muito apertado e vários dos contactados não tiveram possibilidade de participar. Alguns não reagiram à nossa solicitação.

Os autores têm um passado comum: a luta pela democracia. Conjugam a mesma perspectiva deste processo?

O convite para participar da obra colectiva fixou apenas a temática geral, qual seja, a transição democrática numa perspectiva crítica. Com esse enquadramento geral, cada um dos autores escolheu o seu tema específico e decidiu a abordagem que mais lhe interessava. Por isso, o leitor irá encontrar as mesmas situações ou factos, abordados e interpretados de forma diferente pelos autores. A ênfase é diferente, algumas situações são realçadas por uns e ignoradas por outros. Nalguns casos, as opiniões sobre as mesmas situações ou factos divergem. O elemento comum é a abordagem crítica em relação ao regime vigente na altura e à forma como pretendia conduzir a transição política, que felizmente não vingou.

Que lacuna vem a presente obra preencher?

A problemática da transição política não tem sido suficientemente discutida. E é importante que seja discutida de forma aberta, sem limitações. Factos são factos, ninguém tem direito aos seus próprios factos, mas todos têm direito à sua interpretação dos factos, mesmo quando não têm sustentação. A verdade é que se tem procurado obscurecer muitos aspectos da nossa história recente, em vez de expor os factos, e a realidade, tal como realmente ocorreram. Alguns livros publicados em Cabo Verde abordam indirectamente a transição política iniciada em 1990/91, mas não como tema central, entre os quais o livro seminal de Humberto Cardoso sobre a implantação do regime de partido único em Cabo Verde, e os importantes livros de Mário Silva sobre a nossa história constitucional. Haverá outros, seguramente, mas o tema está muito longe de se ter esgotado. A presente obra centra-se no processo conducente à transição política, observada de ângulos e perspectivas diferentes. O trabalho destina-se aos que se interessam pela história recente de Cabo Verde, em particular aos que, em 1990/91, não tinham idade suficiente para compreender o que se passou, e aos que vieram depois e desconhecem a realidade de então.

Esta obra é pensada como um livro aberto. Porquê?

O livro é aberto no sentido de que textos de outros autores podem vir a integrar uma eventual 2ª edição, se houver suficiente interesse do público. Em todo o caso, esta questão não foi debatida entre os autores, é só uma ideia muito geral, talvez um convite antecipado, em particular aos que não tiveram disponibilidade para participar nesta iniciativa, por razões várias, e que se sintam motivados a juntar a sua voz ao debate.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026

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Autoria:António Monteiro,13 fev 2026 9:33

Editado porAndre Amaral  em  13 fev 2026 14:22

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