Segundo o autor, este livro nasce de inquietações muito actuais sobre política, género, violência, identidade e maturidade emocional. “Não parte de uma tese, mas de inquietações humanas. Quis perceber o que acontece quando a dor íntima se mistura com a vida pública; quando o medo molda escolhas; quando uma família se vê obrigada a confrontar verdades que carregava sem nome”.
O autor refere que descobriu que certos temas, como a violência, o preconceito, a solidão, a coragem, não se deixam abordar de fora, mas que exigem aproximação e a voz.
“E assim nasceu Ester, a loba. Não como metáfora política, mas como mulher inteira, feita de fragilidades e decisões difíceis. Uma mulher que tenta encontrar o seu lugar num país em movimento e que, por isso, se vê diante de escolhas que ressoam para lá do privado”, indica.
Conforme explica o autor, a sua força não vem de slogans, mas das cicatrizes que a acompanham desde a infância, e da persistência com que se recusa a ser definida por elas.
“Ela simboliza mulheres que sobreviveram, que resistiram, que foram feridas e, mesmo assim, continuam a lutar. Ester representa o peso que muitas mulheres carregam quando tentam liderar num ambiente que ainda lhes é hostil”, frisa.
Para Humberto Santos, a loba é um arquétipo de força e vulnerabilidade. “O seu ´último comício´ é tanto político como existencial: é o momento em que ela enfrenta o mundo, mas também se enfrenta a si mesma. O título sugere esse limiar entre o público e o íntimo, e a Ester vive nessa fronteira”.
Mas que este romance não é só sobre Ester. É também sobre Alex, o filho, cuja jornada toca nas dores e na beleza de ser diferente num país ainda carregado de preconceitos. É sobre Magda, a jovem marcada pela violência e pelo silêncio.
“É sobre Amâncio, o marido que representa tantas masculinidades frágeis, em conflito entre o que herdaram e o que já não serve. Cada um deles traz uma face distinta da mesma pergunta: como quebrar padrões que se repetem sem que percebamos que os repetimos? É uma história sobre Cabo Verde, mas, mais do que isso, sobre o humano. Porque as feridas que aqui se narram, ainda que com sotaque cabo-verdiano, ecoam por todo o mundo”, aponta.
O autor salienta que o romance dialoga com diferentes problemas do nosso tempo. “Toca, inevitavelmente, dimensões psicológicas, espirituais e emocionais. Não porque pretenda ensinar alguma coisa, mas porque todas essas esferas fazem parte da forma como vivemos e sofremos. Na verdade, o foco é humano: as relações feridas, a busca de libertação emocional, as contradições que atravessam qualquer sociedade”.
Conforme a mesma fonte, a espiritualidade no livro é íntima, não dogmática. As personagens recorrem à fé em momentos de crise, e isso é profundamente real nas nossas sociedades.
“A espiritualidade é, aqui, mais um instrumento narrativo para destacar fragilidades, medos e transformações. E a transformação no livro começa quando as personagens percebem que ninguém nos salva de nós mesmos. E, se queremos compreender o que nos fere – enquanto indivíduos ou enquanto comunidade, talvez seja preciso reconhecê-los com honestidade”, relata.
Para o autor, o livro oferece um espelho. “Um espelho onde nos possamos ver com honestidade, como nação e como indivíduos. Um espelho que nos mostre onde estamos, para que possamos escolher, com lucidez, para onde queremos ir. A loba, essa figura de força e ternura, ruge aqui pela última vez. Mas quem sabe? Talvez o seu último comício seja, afinal, apenas o começo”.
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