A obra, da autoria dos jornalistas Cristina Fernandes Ferreira e Ricardino Pedro, vai ser apresentada hoje, às 18h00, no Auditório do Banco Interatlântico, na Praia. Em entrevista à Rádio Morabeza, a autora explica que o objectivo foi ir além dos factos e dar a conhecer as pessoas por detrás do acontecimento.
“O objectivo do livro não foi fazer uma investigação paralela àquela que foi feita pela Justiça. O nosso foco foi mais na dimensão humana desta tragédia, porque entendemos que ficámos a conhecer muito pouco quem eram estas pessoas. E então, o que nós quisemos, e o foco do livro sempre foi ir atrás destas histórias destes jovens: quem eram, que percurso tiveram, de onde é que vieram. Falámos com os familiares dos militares e do civil cabo-verdiano envolvidos directamente neste massacre, com todos, excepto o militar da Brava, que, por uma questão logística de transportes, não conseguimos. Deste ponto de vista temos novidade, temos episódios, temos pequenas histórias que ajudam a conhecer melhor estes jovens, os seus contextos, o que é que criavam para o futuro e qual foi o percurso que os levou a conhecerem-se todos naquele lugar, naquela madrugada”, explica.
O massacre de Monte Txota, ocorrido a 25 de Abril de 2016, resultou na morte de 11 pessoas, entre as quais oito militares e três civis, incluindo dois cidadãos espanhóis. O soldado Manuel Ribeiro, conhecido por “Entany”, autor confesso dos crimes, cumpre uma pena de 35 anos de prisão na Cadeia Central da Praia. O livro centra-se apenas nos envolvidos cabo-verdianos.
Cristina Fernandes Ferreira afirma que, 10 anos após o ocorrido, as famílias continuam magoadas e sentem-se abandonadas.
“Nós aproveitámos este gancho, digamos assim, dos 10 anos para escrever o livro, e as famílias sentem-se muito magoadas. Grosso modo, sentem-se muito magoadas, muito abandonadas, sentem que a dor delas não foi tida suficientemente em conta. Sentem que o país avançou e que elas ficaram sozinhas com a sua dor, com as suas dúvidas, porque muitas ainda acham que não lhes foi dada uma explicação cabal sobre como é que os seus filhos, seus irmãos, seus entes queridos morreram, e sentem essa mágoa e esse abandono por parte das instituições”, diz.
A autora refere que o livro também pretende contribuir para a memória colectiva e que só foi possível graças às famílias que aceitaram falar, apesar da dor e da mágoa que ainda persistem.
“Fomos muito bem recebidos, fomos recebidos de uma forma muito generosa por estas famílias, que concordaram em falar sobre tudo, disponibilizaram o seu tempo, choraram connosco, contaram a história dos seus entes queridos e eu gostava que a experiência dessas famílias, agora que passam 10 anos, fosse conhecida pela sociedade cabo-verdiana”, refere.
O livro "Monte Txota: Um Massacre em Cabo Verde", de Cristina Fernandes Ferreira e Ricardino Pedro, vai ser lançado esta quarta-feira, às 18h00, no Auditório do Banco Interatlântico, na Praia. A obra, editada pela Rosa de Porcelana Editora, será apresentada por Benvindo Neves e Gisela Coelho.
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