Cabo Verde possui uma cena teatral muito interessante, com festivais de teatro em algumas ilhas ao longo do ano, com destaque para a ilha de São Vicente, que tem o Mindelact com 32 anos de existência. A ilha do Sal conta com o Sal EnCena, que já vai nos seus 14 anos. Na cidade da Praia, temos o Festival Internacional de Teatro do Atlântico (TEARTI), que completa este ano dez anos de estrada, e, no ano passado, nasceu o Albiça, na ilha do Maio.
Sem esquecer o grupo de teatro Juventude em Marcha, da ilha de Santo Antão, que este ano completa 42 anos de estrada, com vários trabalhos no mercado e digressões pela Europa. Actualmente, o país conta com pessoas formadas em teatro.
O presidente da Associação Mindelact, Yannick Fortes, considera que o cenário actual do teatro em Cabo Verde é bastante frágil. “Temos uma realidade de teatro em Cabo Verde que tem vindo a prosperar nos últimos anos, a nível de produção e de qualidade de artistas, mas ainda apresenta algumas fragilidades que persistem”.
O actor João Pereira (Tikai) disse que o actual cenário do teatro em Cabo Verde é preocupante, uma vez que se tem verificado, de ano para ano, uma diminuição do número de actuações e de grupos teatrais no país. “Considero que a evolução tem sido limitada. Há uma necessidade evidente de reforçar a formação dos agentes e praticantes do teatro”.
Por seu lado, a presidente da Companhia de Teatro Fladu Fla, Simónica Sanches, defende que o teatro em Cabo Verde se apresenta como um sector vivo, criativo e resistente, impulsionado sobretudo pelo esforço voluntário dos grupos e artistas que produzem por amor à camisola e como actividade amadora.
No entanto, disse que continua a enfrentar limitações estruturais, nomeadamente ao nível do financiamento e de espaços adequados para os ensaios e para a preparação dos agentes das diversas áreas que compõem a produção de um projecto cénico, contribuindo assim para a sua proliferação a nível nacional e para a sua internacionalização.
Segundo a directora artística da Xpressá Escola de Teatro, Patrícia Silva, actualmente, em Cabo Verde, sente-se alguma dinâmica à volta do teatro, pois nota-se a presença de mais projectos noutras ilhas e não apenas em São Vicente.
“Contudo, existe uma diminuição do número de projectos e grupos de teatro, sobretudo na ilha de São Vicente, que durante muitos anos tem sido considerada o coração do teatro do país, pois é a ilha onde temos mais formações de teatro (antigamente com a formação do Centro Cultural Português e actualmente com a Xpressá Escola de Teatro), onde é realizado o Festival Mindelact”, cita.
Dificuldades
Yannick Fortes apontou que a maior dificuldade que todas as companhias de teatro enfrentam é a falta de espaços para ensaiar e apresentar. “Precisamos de mais espaços públicos, como auditórios e outros que existem, que deveriam estar abertos aos artistas, e de uma gestão voltada para os artistas, para poder criar outra dinâmica a nível do teatro em São Vicente e em Cabo Verde”.
Conforme Yannick Fortes, há espaços em São Vicente e na Praia, mas falta uma gestão que permita o acesso dos artistas e que esses espaços sejam dinamizados por eles.
“Exemplo disso temos a Academia Jotamont, em São Vicente, onde temos feito algumas actividades, um espaço que não tem uma gestão própria. Tendo uma gestão própria, mesmo como cooperativa de artistas, a Associação Mindelact podia dar uma dinâmica muito diferente, pois tem sala de ensaio, de aula e auditório”, relata.
Fortes afirma que, se a Associação Mindelact tivesse acesso aos espaços para realizar actividades ao longo do ano, poderia conseguir dar uma dinâmica diferente na ilha de São Vicente.
Além disso, frisou a questão do financiamento para que os grupos possam mostrar os seus trabalhos. “É preciso ter financiamento. É preciso ter uma política que apoie a criação de espectáculos e de grupos de teatro”.
Na mesma linha, disse que é preciso investir nos profissionais, na formação e na valorização dos artistas, procurando a melhor forma de os enquadrar.
João Pereira afirma que os grupos de teatro se deparam com dificuldades na circulação das peças, sobretudo devido aos elevados custos de transporte. “Ainda assim, importa reconhecer o esforço do Ministério da Cultura, que, através do Edital Circula, tem disponibilizado algum apoio para a deslocação de grupos a outros concelhos e ilhas”.
Em relação aos desafios, Tikai destacou a insuficiência de incentivos, a escassez de espaços adequados para a apresentação de espectáculos e a falta de maior dinamização de actividades ligadas à arte cénica.
Já para a presidente do Fladu Fla, Simónica Sanches, os grupos teatrais enfrentam várias dificuldades, desde a criação até à circulação dos espectáculos. Ao nível da produção, destacou os custos com cenografia, figurinos, ensaios e logística.
“No entanto, um dos maiores desafios é o factor tempo e a disponibilidade da equipa. A maioria dos artistas não vive exclusivamente do teatro, tendo outras responsabilidades profissionais e familiares, o que condiciona os horários de ensaio, o processo criativo e até a participação em apresentações fora da sua ilha. Infelizmente, o teatro ainda não garante um rendimento mensal estável, o que limita o envolvimento contínuo dos membros”, indica.
Em relação à circulação, Simónica Sanches aponta a insularidade de Cabo Verde como um grande obstáculo, com custos elevados de deslocação, transporte de equipamentos e alojamento.
“A nível internacional, esses desafios tornam-se ainda maiores, exigindo mais recursos financeiros, apoio institucional e logística estruturada. Tudo isso faz com que muitas produções tenham dificuldade em circular e alcançar públicos mais amplos, apesar da sua qualidade artística”, cita.
A directora artística da Xpressá Escola de Teatro, Patrícia Silva, fala na falta de espaços, de patrocínios e na sobrecarga de funções do director artístico dos grupos de teatro, que acaba, muitas vezes, por ser dramaturgo, encenador, professor, director de cena, responsável pelos cenários, figurinos e adereços, além da produção, como é o seu caso.
Apoios
Yannick Fortes explica que, além do Ministério da Cultura, há algumas empresas nacionais que apoiam a Associação Mindelact, mas sobretudo ao nível do festival.
“Temos tido apoio da Câmara Municipal de São Vicente, mas o maior apoio que precisamos no teatro, não só em São Vicente, mas em Cabo Verde, é de espaços e da abertura dos que estão fechados, para os artistas poderem frequentá-los e produzir, porque, em São Vicente, temos a Academia Jotamont, que está fechada. E os artistas precisam de ter acesso aos espaços”, frisa.

O presidente da Associação Mindelact sublinhou que os espaços têm de estar abertos para os artistas e deve existir gestão cultural para permitir a sua dinamização.
“A partir do momento em que uma Câmara Municipal, em qualquer ilha, abre um espaço para os artistas e consegue empregar um artista ou um produtor cultural, criando uma dinâmica, mais actividades culturais vão acontecer”, assegura.
Para Tikai, os apoios existentes são insuficientes, tendo em conta os elevados custos associados à produção de uma peça, desde a sua concepção até à apresentação ao público.
Simónica Sanches realça que os apoios existentes são importantes, mas ainda insuficientes e pouco regulares. “Muitas produções dependem de projectos pontuais, parcerias ou financiamentos externos. Para garantir a sustentabilidade do sector, seria fundamental a criação de mecanismos contínuos de apoio, como fundos específicos para as artes cénicas, incentivos à produção e programas de circulação nacional”.
Patrícia Silva considera que os apoios existentes não são suficientes para a produção teatral no país. “Os editais são insuficientes, as empresas preferem apoiar outro tipo de iniciativas, sobretudo as que arrastam multidões. Não existe ainda uma consciência, por parte das empresas, da importância social do teatro para investirem nesta área. Além disso, a arte que incomoda não costuma ser apoiada”.
Teatro em outro patamar
Para Yannick Fortes, o teatro é uma arte que vive muito da vontade das pessoas. “Temos espectáculos de qualidade, mas ainda faltam infraestruturas. Os artistas podem investir na formação, criar espectáculos de qualidade, mas ainda falta a questão das infraestruturas, espaços para ensaios e aulas. Não é algo que o artista consegue criar; normalmente, são os municípios e o Ministério da Cultura que têm de abrir essas infraestruturas para os artistas”.
Tikai defende que é necessário promover a criação de mais grupos de teatro em todos os concelhos, aumentar o número de festivais e investir na construção e requalificação de salas de espectáculo em todos os municípios.
Por seu lado, Simónica Sanches disse que falta uma mudança de atitude, tanto nos agentes de teatro, para o cultivo do rigor e profissionalismo nas produções artísticas, como nos decisores políticos e culturais, nas decisões que promovam o empoderamento artístico, a empregabilidade através da arte e a transformação da sociedade cabo-verdiana para um consumo selectivo de conteúdos artísticos que promovam o desenvolvimento sociocultural.
Formação
O presidente da Associação Mindelact destaca que, em São Vicente, há sempre cursos de teatro a decorrer, para levar novas pessoas para a arte cénica e para criar uma dinâmica nessa área, porque, como disse, grande parte dos grupos de teatro de São Vicente surgiram desse curso de teatro, que o Mindelact tem vindo a fomentar.
“A Associação Mindelact tem sempre investido na formação, temos dado formação em várias áreas, como iluminação, cenografia, figurinos e interpretação. Temos sempre investido na formação porque realmente acreditamos que a formação é que faz o teatro evoluir no nosso país”, assegura.
Para Patrícia Silva é necessária mais formação especializada: cursos de voz, encenação, direcção de actores, iluminação, cenografia, figurinos e adereços, bem como mais patrocínios.
Tikai salienta que o programa BA-Cultura tem proporcionado alguma formação na área. “Além disso, algumas universidades já oferecem cursos artísticos. No entanto, o mercado nacional é reduzido, o que leva muitos jovens a optarem por áreas consideradas mais rentáveis”.
Simónica Sanches afirma que existem iniciativas de formação e oficinas promovidas por companhias e instituições. Mas muitos jovens entram no teatro por paixão, mas encontram dificuldades em transformar essa paixão numa carreira estável. “É necessário investir mais em formação técnica, profissionalização e criação de oportunidades reais de inserção no mercado”.
Futuro para o teatro
Yannick Fortes relata que vê um futuro promissor para o teatro, não só a nível nacional, mas também internacional. “O teatro cabo-verdiano é reconhecido não só a nível nacional, mas também internacional. Como director do Mindelact, tenho viajado para actividades culturais e as pessoas têm vontade de ver o teatro cabo-verdiano e assistir ao Mindelact. Acho que temos de valorizar isso”.
Na mesma linha, realçou que a arte nacional é muitas vezes mais valorizada no exterior do que em Cabo Verde. “O teatro só terá um futuro promissor a partir do momento em que começarmos a reconhecer o trabalho de quem faz teatro. Quando reconhecermos e ajudarmos a profissionalizar os artistas, vamos perceber que o teatro pode tornar-se uma indústria capaz de movimentar capital. Mas, enquanto não criarmos infraestruturas, continuaremos a ser amadores”.
Já Tikai disse que encara o futuro do teatro com alguma reserva e preocupação, tendo em conta os desafios referidos, que continuam a condicionar o desenvolvimento do teatro em Cabo Verde.
Simónica Sanches realça que vê um futuro promissor, com maior reconhecimento e crescimento, desde que haja investimento contínuo. “O teatro cabo-verdiano tem potencial para se afirmar não só a nível nacional, mas também internacional, levando a nossa cultura além-fronteiras”.
Na mesma linha, Patrícia Silva refere que vê um futuro esperançoso, pois “a Xpressá está a plantar sementes nas crianças e jovens que poderão dar continuidade a este trabalho”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270 de 01 de Abril de 2026.
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