Eis o mote de uma residência artística, discreta, introspectiva, como éapanágio de todo o processo de criação, a decorrer num ambiente quase monástica, na cidade da Praia. Cidade agitada por outras urgências, por outros afãs, em especial nestes dias que antecedem o 17 de Maio, próximo. Dia em que o povo das ilhas decidirásobre um novo ciclo, quinquenal, de esperança, de expectativas, de angústias, de festas: um novo ciclo político renovado, espera-se que no sentido do que a maior parte de nós augura, ou seja, de melhores dias para a vida das pessoas, sem grandes tensões sociais, sem raivas comezinhas, para que continuemos a fazer o nosso caminho de mar com a serenidade que merecemos e a criatividade que baste.
ATCHA —o título da residência decorrendo no recato do anexo/estúdio da residência do Embaixador do Brasil, na Praia, parece ter sido “achado”e desenhado para este momento, mas não foi. O tempo de criação artística éoutro, éaquele que a caracteriza e lhe dásubstância: a intemporalidade. Não tem agenda, senão aquela que incorpora a si própria não tem outros compromissos senão com a Arte, o “mistério”da arte. Território que dispensa questionamento para além da filosofia, para além das mais profundas reflexões que, perante ela, se nos põem enquanto seres que pensam, projectam e agem, procurando, incessantemente, encontrar no transcendeste um sentido que dêsentido ànossa existência material, tangível.
Promovida pela Câmara Municipal da Praia e apoiada pela Embaixada do Brasil, esta oficina de criação e produção artística no campo da Pintura reúne quatro artistas plásticos. Dois oriundos de Cabo Verde (diápora e residente): Amadeo Carvalho e Yuran Henrique; Paula Deprá, do Brasil e Kwame Sousa, de São Tomée Príncipe. Reunidos e convidados por Érica Silva, a curadora cabo-verdiana de origem num processo de “achar a si mesma”neste mar.
À Érica e seus convidados interessa“pensar aquilo que circula, o que permanece, o que se transforma, o que se perde (e o que se ganha) entre territórios, culturas e experiências”. O mote e a inquietação que depositou no espírito dos pintores convidados para que, ancorados neste mar, possam, a partir de suas insularidades: pessoais, geográficas, culturais e outras, cruzem vivências, a partir das quais criam, sonham e questionam o mundo e sua humanidade láonde ele se manifesta: o devir de cada geração que se renova.
Desafiada pela Vereadora da Cultura do Turismo e da Juventude da CMP, diz-nos Érica, que pretendeu juntar estes quatro artistas plásticos para responder a um desafio que se pôs a si própria: encontrar-se num território que lhe pertence: de sangue, de história e de memória, mas que, todavia, ainda não conhece. Para tanto quiz encontrar pessoas, artistas plásticos, com um objectivo comum. O Amadeu jáera convidado da vereadora e eu, pensando nos territórios que eu conheço melhor e que têm ligação com Cabo Verde, convidei seus representantes: a sua diáspora, neste caso, Londres onde o Amadeu vive e trabalha, Brasil, donde veio a Paula, de São Tomée Príncipe, o Kwame e, o Yuran, de São Vicente. O mar surge como território que nos une. Foi ele que no passado nos trouxe de outros continentes para as nossas ilhas, éele que nos leva de volta para o mundo! Para regressarmos e renovarmos o ciclo, acrescentaria com autorização de Érica. Seráessa a inquietação que esta esta geração de jovens criadores quererádeixar nos nossos espíritos? O espaço de acolhimento, estúdio e jardim cedido pela Embaixada do Brasil foi fundamental para a instalação desta residência. Um espaço intimista, amplo e aberto ao mar, próprio para o que nos propusemos.
Por outro lado, de acordo com o que jáconhecia de Cabo Verde, das lacunas existentes no nosso campo de estudo e trabalho —de acordo ainda com o tema escolhido —propus aos artistas o desafio de encontrar soluções para a realização de seu trabalho. O resultado…vamos ver.
Foram cinco meses de trabalho, de curadoria e de produção, e aqui estamos nós! A primeira parte do programa fez-se no terreno, visitando a Cidade Velha, Tarrafal e Calheta de São Martinho onde, nesses lugares, recolhemos impressões e ensinamentos fundamentais para nos sentirmos em Cabo Verde e, mais tarde, refugia-mo-nos nos ateliers para pensar, discutir, projectar, pintar, despintar, desenhar, rasgar e voltar a desenhar. Assim como na vida, acrescentaria eu, mais uma vez com a anuência de Érica.
E os pintores? Que dizem eles quando são, a contragosto, sacados do chão de seu mar que épintar o mundo que nos escapa, para falar de si e do seu trabalho? Éneste momento que refletem para láda obra. Para nos ajudar a perceber-lhe o sentido que nos escapa. Isto, se a obra de Arte terásentido para além da sua eventual finalidade: despertar/agitar sentidos adormecidos.

—Só o facto de estar em Cabo Verde sou um novo Amadeo. De cada vez que regresso sinto a necessidade de produzir respirando esta atmosfera, o ambiente quotidiano que me envolve, empola-me. Éonde consigo revisitar e resgatar memórias, pesquisar, renovar-me. Éuma possibilidade que eu não tenho láfora, especialmente, onde vivo, em Londres. Sempre que aqui estou produzo bastante. E descobri porquê. O calor de minha gente, a luz, a música, faz deste meu lugar um campo favorável para mim e para o meu trabalho. Diz-noz Amadeo, que continua:—Para além disso, a oportunidade de participar nesta residência, enriquece-me de forma especial, diferentemente das que participo noutras latitudes. Aqui, mais do que produzir trabalhos que possam ser vistos por todos que quiserem vir vê-los éa oportunidade de viver, literalmente, com os meus colegas no tempo em que aqui estamos. Trabalhos juntos, discutimos juntos —não sósobre nosso ofício —viajamos juntos pelo interior da ilha, comemos juntos, brincamos juntos, construímos pontes de afecto e de amizade que se prolongarão para ládeste tempo.
Conhecendo o que jáconheces do país neste campo da criação artística o que pensa Amadeu sobre o “estado da nação”neste domínio? —Sempre que aqui estou penso que a melhor forma de encarar o que aqui se passa neste nosso campo de realização émontar sistemas de educação. Encarar a educação como sustentáculo incontornável para trazer os jovens àdescoberta da importância de uma educação artística no seu processo de desenvolvimento pessoal. Independentemente, diria eu e sei que o Amadeo concorda, de uma eventual opção profissional nesse domínio.
É a vez do Kwame que estápela primeira vez em Cabo Verde: —Levo desta residência muita coisa. Mais do que a produção artística que ésuposto realizarmos, éa produção de pensamento sobre o nosso trabalho pessoal que aqui estáresultando de forma muito especial. Aqui estou correndo mais riscos. Talvez porque estou vivendo um Cabo Verde que faz parte de mim, da minha história e que atéagora vivia apenas no meu imaginário, aliás de todos nós, sãotomenses. A minha curiosidade e descoberta, a partilha de afectos, técnicas de expressão e o convívio do dia-a-dia com os colegas e a ilha que nos acolhe dáuma dimensão muito especial a esta residência. Saio daqui pintando melhor, saio daqui com Cabo Verde dentro de mim.
E a Paula? Que vem aqui descobrir que o seu Brasil, a partir de 1500, começou aqui, no dia em que Pedro Álvares de Cabral foi levado “sem querer”—pela corrente fria das Canárias—, de Porto Velho, ilha de São Nicolau, para as praias do sul da Bahía. O mar levou Cabral, o mesmo mar trouxe Paula.
—A residência para mim começou no dia em que tive que atravessar o Atlântico para chegar aqui. Éuma experiência absolutamente nova. Jáfiz outras residências no Brasil, mas esta ésingular. Éa primeira vez que estou num país africano. E, chegando aqui, consigo perceber melhor o Brasil. Dois países que compartilham o mesmo passado histórico, a partir de um certo momento, e muitas histórias que atravessaram este mar. Aqui começo a entender a crioulidade e como éque ela chega ao Brasil. E ainda como éque os modos de vida daqui e de láse repetem, não sóno litoral, como no interior dos nossos países. Por isso, observando este quotidiano consigo lembrar de muita coisa no Brasil. Étudo muito diferente e familiar ao mesmo tempo.
No que respeita àparte oficinal éextraordinária a experiência que vou tendo nesta residência. Passando aqui o tempo, todos juntos, o nosso trabalho pessoal vai ganhando outras dimensões, vai-se misturando, por osmose, com o cada um. Saímos daqui nutridos uns de outros, e isso, juntando a memória resgatada que nos une e a experiência vivida com as pessoas noutras comunidades da ilha têm-me marcado profundamente.
E o Yuran? O que éque ele discorre de ládo cimo dos seus quase dois metros?
—Quando a Érica me convidou para integrar este grupo senti de imediato que esta residência iria ter outro significado para mim, iria trazer-me novos arejamentos para a minha cabeça para além do prazer de, mais uma vez me juntar ao Amadeo e ao Kwame com quem trabalhei em São Tomée Príncipe. Por outro lado, um projecto desta natureza, de arte contemporânea, na Praia, pela sua pertinência, tem todo o sentido para nós e, penso, para os colegas que estão ou pretendem escolher este caminho de sua realização pessoal. Para mim esta residência éo desembocar da Bienal de Arte de São Tomée Príncipe onde nos conhecemos e desde aíacompanha-mo-nos mutuamente. Este facto —para além de outros de natureza criativa que nos aproxima —, somando ao de estarmos juntos a partir da convocação de Érica traduz a natureza desta residência na Praia. Oportunidade que me leva a pensar que jáétempo de acontecer nestas ilhas uma Bienal de Arte, seguindo os passos da de São Tomée Príncipe onde alguns artistas plásticos cabo-verdianos têm marcado presença. Jáéhora de retribuirmos, e este formato de residência poderia ser o pontapéde saída.
Oxalá, digo eu e fecho este texto.
No próximo dia 23, na Praia, no anexo/estúdio da residência do Embaixador do Brasil, entre as 17 e 21h e de 24 a 26, entre 15 e 20h, os mais curiosos —esperando que sejamos muitos —, terão oportunidade de sentir e questionar o resultado deste mar que traz e leva sentidos, corpos e novos desígnios a partir destas ilhas abençoadas.
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Érica Silva (1989):cabo-verdiana, curadora e escritora, com residência em Londres. No seu trabalho cruza artes visuais, poesia e investigação curatorial centrada na memória, território e identidade. Écofundadora da plataforma KUTUDU e tem desenvolvido projetos entre Cabo Verde e a diáspora.
Amadeo Carvalho (1985): cabo-verdiano, trabalha entre pintura, poesia e fotografia. Vive entre Londres e Cabo Verde, desenvolvendo uma prática enraizada na diáspora africana. Utiliza materiais como carvão, pigmentos vulcânicos e serigrafia. A sua obra reflete sobre ausência, memória e identidade no espaço atlântico.
Yuran Henrique (1993): cabo-verdiano, sua prática pictórica se constrói de forma íntima e introspetiva abordando questões de identidade, corpo e memória através de linguagens visuais sensíveis. Desenvolve processos lentos e críticos, muitas vezes ligados àexperiência pessoal.
Kwame Sousa (1980): são-tomense, cruza espiritualidade e matéria na sua obra. Explora símbolos, rituais e deslocações culturais no contexto afro-atlântico; investiga o visível e o invisível, entre terra e mar, tradição e contemporaneidade.
Paula Deprá (1994, Brasil): brasileira, centrada na pintura a óleo, destaca-se pelo uso intuitivo da cor e pela construção de atmosferas sensíveis. Explora gestos, materiais e emoções de forma direta e experimental.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1273 de 22 de Abril de 2026.
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