Os peões do Éder

PorÉder Pereira,27 abr 2020 7:17

​Em Junho de 2015, o GM português António Fernandes realizou na ilha da Boa Vista uma exibição de simultâneas às cegas, vencendo categoricamente os três oponentes.

Sidney Spínola ficou tão maravilhado com esse evento e, aproveitando a minha passagem pelo Sal no ano seguinte, misturando como sempre o xadrez com férias, propôs-me que no final das atividades das ‘’Aulas de Xadrez com Éder Pereira’’, fizesse também o mesmo feito, isto é, jogar xadrez simultaneamente com três jogadores sem ver os tabuleiros e as peças.

Claro que para um iniciante na modalidade ou simplesmente para uma pessoa qualquer, jogar xadrez às cegas pode parecer algo como bruxaria, mas para um Grande Mestre, realizar duas ou quatro partidas contra oponentes com centenas de Elo FIDE inferior ao seu nível, pode ser coisa tão simples quanto preparar uma sandwich. Bom, o mesmo não se passa quando o “simultâneador” é um tal de Éder Pereira, mero trabalhador comum que joga um ou dois torneios por ano e só estuda xadrez quando os campeonatos se aproximam.

A minha resposta foi um “não’’ categórico acompanhado por um certo humor sarcástico, mas depois expliquei-lhe seriamente que nem por sombras seria capaz de jogar nesta vertente contra três oponentes. Disse que talvez faria uma partida com um jogador à escolha, mas mesmo assim seria uma ideia a analisar, visto que teria que me preparar, ganhar confiança e, se o fizesse, teria de ser num ambiente informal, após as aulas, junto com a nossa família enxadrezística, sem público, sem mídia, nem divulgação. Seria uma partida às cegas, às cegas.

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Pelo sim, pelo não, ao fim e ao cabo acabei por ser convencido e até hoje pergunto-me como foi que o Mr. Spínola conseguiu tamanha proeza. Acordamos a data, o local e o jogador escolhido. Pronto, agora sabia que tinha ‘’trabalho de casa’’, queria estar devidamente preparado visto ter assumido tal responsabilidade. Quando era adolescente jogava xadrez de uma forma constante e exaustiva, de tal forma que saía de casa apenas para jogar, saltava as refeições e praticava até às tantas da noite. Tornei-me tão dedicado ao xadrez que o meu pai se viu obrigado a esconder-me ora as peças ora o tabuleiro. No entanto não foi isso que me parou. Comecei a imaginar o tabuleiro e as peças e planeava as jogadas na minha cabeça. Contudo, há mais de uma dezena de anos que não jogava xadrez dessa forma.

Se o combinado com o Sidney foi que a partida ficaria em sigilo, ele fez deliberadamente o contrário. ‘’Pelos sacrifícios de Mikhail Tal!’’, resmunguei quando vi a publicidade do evento na página oficial da Axsal com cartaz e tudo, convidando toda gente e com direito a um fotógrafo profissional. Na próxima edição trago a análise desta partida às cegas que acabou por ver a luz do dia.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 960 de 22 de Abril de 2020. 

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Autoria:Éder Pereira,27 abr 2020 7:17

Editado porSara Almeida  em  28 mai 2020 10:19

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