O papel do Estado Novo no desenvolvimento do desporto cabo-verdiano (1933 a 1974)

PorWilliam Vieira,28 ago 2020 11:59

A minha primeira consideração sobre este assunto já fora há mais ou menos 3 anos. Em maio de 2017, depois de terminar uma afável leitura com alguma profundidade sobre o período salazarista e o regime ditatorial, pude extrair as minhas deduções sobre o período que se estendeu em Portugal e nas colónias ultramar desde 1933 a 1974.

Para simplificar, sobretudo à geração Y Millennials (1980 a 1995) e Geração Z ( de 1995 até a atual data), o conceito Estado Novo é assinalado por um período de regime político tirano, absoluto, onde não existia liberdade expressão, sendo impossível o “pluripartidarismo” e quem se opunha ao regime, era perseguido e até morto caso fosse necessário. Mas nem tudo foi realmente imperfeito como nos fizeram acreditar!

Entrando na Segunda República Portuguesa ou Estado Novo, trouxe alguma ordem, disciplina, educação cívica-académica e algum estanque social como a libertinagem que hoje é muito presente na nossa sociedade, onde reina muitas vezes, o desrespeito, a falta de ética, a má educação e o prazeroso “bitaite” sem fundamento, que em nada acrescenta à sociedade.

“Á Kel bez, é ka era si, tudo alguém ta durmiba ku porta aberto ki ninguém ka ta atreveba entraba kasa di kelotu, á kel tempo ka ta bem mas”. Assim cresci, e sobretudo na minha meninice até hoje continuo a ouvir essa e outras expressões dos mais graúdos- sobretudo advindo da geração Baby Boomers (de 1945 a 1964) e Geração X (de 1965 a 1979) - sobre aquele tempo, onde reinava a paz, o ambiente era pacífico e havia respeito mútuo.

Saudosismo à parte, entrando no período pré salazarista, é importante realçar nas ilhas de Cabo Verde, então província ultramarina de Portugal, decretava assim, o fim do grupo de ginástica, de origem Checoslovaca, Sokols de Cabo Verde, a 17 de fevereiro de 1939 e em substituição, muito devido à instituição do Estado Novo, ou se quisermos também apelidar de Salazarismo, deu lugar à Mocidade Portuguesa.

A Mocidade Portuguesa era uma organização portuguesa - incluindo Cabo Verde ultramarino - que estimulavam jovens para o desenvolvimento integral da capacidade física, a formação do carácter e a devoção à pátria.

Indo ao encontro com a história nacional, durante o período de 60, já existiam dois liceus em Cabo Verde, Adriano Moreira na Praia e Gil Eanes em São Vicente.

A participação nas atividades da Mocidade Portuguesa era obrigatória para os estudantes naquele período na Praia e em São Vicente.

A sua estrutura era bem organizada, cada qual com as suas tarefas bem delineadas, onde havia 4 escalões etários. Iniciando pelos Lusitos que iam dos 7 aos 10 anos, os Infantes, dos 10 aos 14 anos, os Vanguardistas, dos 14 aos 17 anos e os Cadetes, dos 17 aos 25 anos. Os dois primeiros grupos eram os únicos de filiação obrigatória.

É inegável que a Mocidade Portuguesa contribuiu de forma exponencial para massificar a prática de todas as modalidades existentes na altura. Casos de Andebol, Atletismo, Futebol, Ginástica, Voleibol, levando o Desporto Escolar para os dois liceus existentes naquele período nas ilhas.

Ainda neste período, foram várias as figuras que se notabilizaram no desporto nacional.

Centralizando apenas nas ilhas de Cabo Verde e não querendo estender para o campo de muitas individualidades, gostaria apenas de citar aqui dois nomes proeminentes naquela época: Luís Bastos e Ulisses Pinto.

Dois nomes insuspeitos naquele período, muito ligado à Mocidade Portuguesa, onde a região de Santiago era liderada por Bastos e a região de São Vicente era comandada por Ulisses Pinto.

Segundo algumas afirmações extraídas de algumas personalidades com muita credibilidade que presenciaram aquele período e tiveram uma relação direta com a Mocidade, foram peremptórios em alegar que “Luís Bastos, para além do futebol naquele período, era também a maior referência do voleibol de Santiago, representando o quadro da Mocidade Portuguesa na região de Santiago. Para não variar, Ulisses Pinto, praiense de origem, residido em São Vicente, representava o quadro Mocidade portuguesa na ilha de São Vicente”.

Havia sempre uma grande rivalidade entre Santiago e São Vicente, mais em concreto entre as cidades de Mindelo e da Praia. Eram organizados campeonatos regionais e de províncias e a rivalidade das ilhas de Santiago e São Vicente era de enorme importância social.

Indo ao encontro com a história, “o período do Estado Novo, veio a robustecer enormemente a rivalidade desportiva entre as ilhas de São Vicente e Santiago”,  William Vieira.

Podemos então alegar que a Mocidade Portuguesa, através do Estado Novo, veio contribuir para a massificação da atividade física em Cabo Verde, de forma organizada e através dela contribuiu de forma positiva para a evolução da Educação Física em Cabo Verde e o aumento da prática de diferentes modalidades desportivas no país.

38 Anos depois, em 1974, ela foi extinta devido ao derrube do regime Salazarista pelo movimento das Forças Armadas de Portugal, liderado pelo capitão Salgueiro Maia, no mítico dia 25 de abril de 1974, apelidado por muitos como” a Revolução de 25 de Abril de 1974”, dando assim lugar à Democracia e à Terceira República Portuguesa.

Este texto é de responsabilidade do autor 

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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Autoria:William Vieira,28 ago 2020 11:59

Editado porSara Almeida  em  29 ago 2020 11:09

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