Em memória de Ben David: “Peugeot, Citroen ou Renault, agora escolha!”

PorWilliam Vieira,5 set 2020 7:20

Filho de Manuel Ben David e de Olinda Serra Ben David, sobrinho dos fantásticos desportistas Adérito Sena, Aires Sena e Alector Sena, Ben David nasceu a 5 de dezembro de 1926, na cidade de Mindelo em São Vicente.

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“Dutche”, como era conhecido em Cabo Verde pelos familiares, amigos e conhecidos, na vida social e no desporto, começou a compor a sua história nas ruas de Mindelo passando também pelo mítico Estádio de terra batida da Fontinha- hoje o atual Estádio Municipal Adérito Sena.

Foi no SC Mindelense onde se iniciou, se preparou e desenvolveu os seus atributos como atleta para que o mundo do futebol se rendesse aos seus pés e para que fosse aclamado um dia no reino do futebol como “o melhor avançado de sempre a ser visto a jogar até então”.

Atingiu o plantel dos Leões da Rua da Praia com apenas 18 anos, num clube onde sempre foi apontado como um dos melhores de Cabo Verde e recheado de grandes talentos, como se afigurava na época.

O talento do jovem já era muito assinalável e o futebol ultramarino de Cabo Verde não correspondia às expectativas e o desejo de David e sua família. As dificuldades inerentes de um território insular além-mar, com bastantes desafios - como a questão financeira, logística e a seca - repercutiam quer na vida social e também no desporto das ilhas. Por isso, um dos tios de David, Alector Sena, tentou preparar o melhor futuro possível para o sobrinho naquela época.

Chegada a Portugal e a fuga dos holofotes

Em 1946, chegou a Portugal pelas mãos do seu tio Alector, antigo jogador do Mindelense e também do Boavista de Portugal. Naquela altura, gigantes portugueses como FC Porto e SL Benfica já tinham ouvido falar sobre uma tal “pérola crioula” vindo das ilhas de Cabo Verde na qual a sua destreza pelo desporto rei era promissora. Os 3 grandes tinham o atleta debaixo de olho, porém Ben revelava ser um rapaz modesto e não queria que a sua vida se tornasse o epicentro das atenções.

A sua preferência inclinou-se para o Unidos de Lisboa, com um simples propósito - obter um emprego que lhe garantira uma vida sem percalços - aliando o futebol que para ele não considerava ser o prioritário.

O primeiro contratempo chegou-lhe logo depois de algum tempo em Lisboa. A empresa que patrocinava o UL deixou de o fazer, ficando o jovem atleta sem o que mais pretendia, uma vida pacata e sem sobressaltos. Sentiu-se logo obrigado a procurar outro clube.

Do Barreiro surgiu uma proposta quase que irrecusável da CUF (atualmente Grupo Desportivo Fabril do Barreiro), que lhe propôs um lugar na equipa de futebol e um emprego como mecânico na sua fábrica de automóveis.

Aceitou a proposta do clube e partir dai encontrou estabilidade para praticar futebol. Na CUF alinhou por duas temporadas na segunda liga, entre a época desportiva de 1945/46 e 1946/47. No clube de Barreiro encontrou-se com jogadores que futuramente iriam dar créditos no futebol português, formando no Sporting Clube de Portugal, o famoso quinteto apelidado de “os cinco violinos”. Dois deles, Manuel Vasques e José Travassos, formaram com Ben David o trio de ataque da CUF naquele período.

Não aos 3 grandes de Lisboa e sim ao Atlético CP

Depois de duas épocas ao serviço do CUF, os 3 grandes de Lisboa, já com registo de campeões nacionais (Belenenses, Benfica e Sporting), voltaram à carga. Ben David esquivara-se novamente dos holofotes, preferindo ingressar no Atlético em detrimento dos 3 grandes clubes lisboetas.

Chegada ao Atlético e chamada a seleção portuguesa

O Atlético propôs-lhe 500 escudos/mês, com a promessa de jogar a titular. No Atlético atingiu o zénite do futebol Português. A sua integração no clube não foi fácil nos primeiros tempos. Apesar do seu talento e qualidade que todos lhe reconheciam naquele período, só deu o ar da sua graça em 1948/49, onde foi finalista da Taça de Portugal.

Contudo, o ano de explosão só se deu, um ano mais tarde, em 1949/50, onde ajudou o Atlético a conquistar a terceira posição do campeonato de Portugal, ficando à frente do FC Porto e Belenenses.

A declaração do amor eterno ao Atlético e a nega aos 5 violinos

Em 1951, recusou uma nova proposta leonina, muito mais vantajosa do que tivera anteriormente. Foi convidado pelo Sporting, no mesmo período a participar numa digressão ao Brasil, no sentido de participar num torneio nas terras de Vera Cruz.

Segundo informações extraídas daquele período, Ben brilhou naquela digressão e encantou os adeptos brasileiros numa das partidas no mítico estádio de Maracanã.

A paixão leonina aumentava a cada jogo pelo jovem cabo-verdiano. Mesmo com a presença de Peyroteo, Travassos, Albano, Correia e Vasques, optou por não ficar no clube de Alvalade, regressando ao seu modesto trabalho e ao seu amado clube que ocupara um lugar no seu coração.

Seleção portuguesa

A sua atuação o colocava com o rótulo de melhor avançado em Portugal. Devido ao imenso talento chegou a seleção portuguesa com naturalidade, e em 1950, recebeu a primeira chamada a seleção das quinas, para um amistoso diante da poderosa seleção inglesa, que no último encontro entre as duas formações, ganhara os britânicos por 10-0.

O Estádio Nacional abarrotou-se de gente para ver este grande embate. Portugal perdera por 3-5. Apesar da derrota, Ben ficou marcado para a história do futebol luso, marcando 2 golos na sua estreia pela turma das quinas, num encontro onde os jornalistas ingleses aclamaram “o mulato”, como “o melhor avançado que tinham visto jogar até então”.

O jogo com a Inglaterra foi o primeiro a nível de seleções. Viria a adicionar mais 5 jogos com a camisola portuguesa. Números escassos devido ao pouco número de jogos realizados a nível de países naquela altura.

Na temporada 1950/51, deu sequência às boas exibições e aos golos marcados, agregando ao resultado coletivo da sua equipa. O Atlético terminava o campeonato na quarta posição, enquanto, a nível individual, terminou a corrida ao título de melhor marcador do campeonato português na segunda posição, atrás de um dos cinco violinos, Manuel Vasques, com 26 golos.

“Peugeot, Citroen ou Renault, agora escolha!”

A partir daquele período, ficou reconhecido também fora do território português. Não se fez muito tempo e o clube francês Stade Français, um clube de Paris, lhe propôs um salário de 6 mil escudos/ mês, 5 vezes superior ao salário que auferia no Atlético. Ainda o clube gaulês lhe ofereceu mais 1800 escudos por cada vitória fora e 1000 por cada vitória caseira. Além do contrato e prémio de jogo, o clube parisiense oferecia-lhe um estágio de especialização mecânica numa das 3 grandes fábricas francesas de automóvel, a Peugeot, Citroen e Renault, deixando à sua escolha.

Perante aquele contrato estratosférico, naquele período, o cabo-verdiano nunca iria declinar a proposta. No entanto o Stade Français tinha de negociar ainda com o Atlético para transferência do atleta. O clube alcantarense solicitou 300 mil escudos como contraproposta por um dos melhores jogadores portugueses e um dos melhores do mundo na sua posição na altura. O clube francês não abriu os cordões à bolsa e desinteressou-se pelo concurso do jovem mindelense, cancelando a proposta de transferência. Mesmo tendo visto a ser lhe recusado uma proposta que lhe mudaria completamente a sua vida, permaneceu fiel ao clube português.

Em 1951/52, terminou o campeonato português mais uma vez, na lista de melhores artilheiros do campeonato, na segunda posição, com 24 golos marcados, agora depois de José Águas,

Em suma, Ben “Dutche” David era um dos grandes nomes do futebol português, inclusive foi decretado naquela altura, como sucessor do lendário Peyroteo na equipa lusa e foi também, um jogador consagrado sem nunca ter jogado nos 3 grandes de Lisboa e no FC Porto.

Lesão e final de carreira

Em 1952/53, chegou o mítico Ex treinador do FC porto Josef Szabo e durante aquele período começou o declínio do avançado crioulo de origem judaica. Uma grave lesão no menisco fez com que a sua carreira caísse por terra, ainda dentro da casa dos vinte.

Encerrou a carreira com um total de 130 jogos em Portugal e 104 golos marcados, 100 deles no Atlético, o seu clube amarelo, azul e branco do coração.

A 14 de fevereiro de 1956, foi organizado sob a égide do Atlético, a sua despedida dos relvados, no estádio da Tapadinha, um jogo entre o Atlético e Oriental onde o jogo terminaria 4-2 a favor da equipa da casa. Durante todo o jogo, o momento mais esperado foi a sua entrada, aos 15 minutos do final do encontro, recebido debaixo de chuvas de aplausos e aclamações por parte de quem viu jogar uma das maiores glórias do futebol das ilhas de Cabo Verde e português, adotado e acarinhado pelo futebol metropolitano nas terras de Dom Afonso Henriques.

Vida fora de campo e óbito

Em 1955, saiu de Portugal continental com destino à ilha dos Açores, local de muitas similaridades com a sua terra natal. Ali treinou a Santa Clara, União Sportiva, Marítimo da Graciosa e União Micaelense. Depois de deixar o futebol, trabalhou na RTP Açores, sendo responsável pelo programa Teledesporto. Em ponta Delgada instalou-se, constituiu família e faleceu no dia 5 de dezembro de 1978, precisamente no dia que completava 52 anos.

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Autoria:William Vieira,5 set 2020 7:20

Editado porSara Almeida  em  18 set 2020 15:19

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