Raimundo Melo: do amor pelo desporto à devoção pelos “pixels”

PorWilliam Vieira,20 abr 2021 9:41

Este artigo só foi possível devido a colaboração de muitas personagens do passado do desporto nacional. Queria antes de iniciar, deixar uma palavra de apreço a estes homens, muito deles estando no anonimato desta sociedade mediática e que quase ou nenhum contributo têm dado na divulgação da história do desporto nacional. Um muito obrigado da minha parte.

Origem familiar e Infância

Filho de Agostinho Lima Barber e Etelvina Nogueira de Melo, Mundinho sempre alimentava uma enorme devoção pelas modalidades desportivas com especial ênfase para o Voleibol e futebol.

Mundinho Melo nasceu a 18 de dezembro de 1929, na emblemática zona do Plateau na cidade da Praia. Segundo descrevem Mascarenhas (2021) e João Tavares (1989), começou muito cedo a carreira de desportista em vários campos pelados pela cidade da Praia.

Desde a zona de Monte Agarro, (atual zona do Liceu Domingos Ramos) passando por vários bairros, com bolas de trapos, participavam em vários confrontos com diferentes equipas da cidade.

Contudo o que mais lhes empolgavam eram os torneios em épocas de Mundiais de seleções.

Nos finais dos anos 40, muitos jovens de outras zonas na Praia, deixavam os seus clubes para atuarem nas suas seleções mundiais, representando vários países como Portugal, Inglaterra, Brasil, Espanha, Uruguai, sendo esta última particularmente a equipa escolhida de Raimundo Melo, no sentido de simularem uma Copa do Mundo, realizado na cidade da Praia, no campo apelidado de Copa Cabana, atual Praia Negra, situado a sensivelmente 3 minutos da praia da Gamboa.

Primeiro clube, serviço Militar e chegada a Bissau

Representou o seu primeiro clube em Cabo Verde através do Rápido Clube, fundado por Cândido Vasconcelos, nos finais dos anos 40. Em 1950, deixava o Rápido e os jogos de fraldas com os colegas na cidade da Praia para em São Vicente cumprir o serviço militar obrigatório.

Atuou ali pela Académica de Mindelo e pela seleção local, tendo-se distinguido como melhor marcador da temporada e a partir dali consumou como um caso sério no desporto nacional.

Sob a influencia de João Burgo Tavares, diga-se de passagem, o Primeiro Diretor Desportivo de Cabo Verde, residente naquele período na Guiné-Bissau, conhecedor do talento de Mundinho, junto do Sport Bissau e Benfica, influenciou o clube a convidá-lo para reforçar a equipa que curiosamente ele representava na época.

Convencidos os dirigentes do clube, em outubro de 1951, a bordo do navio “Manuel Alfredo”, Melo viajava para uma nova jornada na sua vida.

Segundo informações extraídas daquele período, a sua passagem por Bissau foi de enorme sucesso e no dia 15 de outubro do mesmo ano, Mundinho fazia a sua primeira estreia em Bissau, defrontando a UDIB- a União Desportiva Internacional de Bissau.

Contra a UDIB apontou o seu primeiro golo ao serviço do clube encarnado, num jogo em que se registava no final do encontro um empate a uma bola.

No mesmo período de estreia, ganhou uma enorme popularidade naquele país irmão. Na época 1951/52, foi o melhor marcador do campeonato, sendo uma das pedras basilares na renovação do título de campeão pelo Benfica de Bissau.

Foram no Benfica de Bissau, os seus companheiros, Mário Silva, João Burgo Tavares, Anterino, Homem Preta e muitos outros. Em 1952, integrou a seleção da Guiné-Bissau que se deslocara a Dakar e Conacri e no mesmo ano em Bissau, defrontou a seleção de São Vicente.

Ao longo da sua carreira desportiva na Guiné-Bissau, realizara 46 jogos, tendo faturado 29 golos. Em 1955, troca por vontade própria a cidade de Bissau, onde usufruía de uma vasta popularidade, pela cidade da Praia.

De novo teve um curto período em representação do Rápido Clube, sob a orientação do já falecido sr. Roçadas.

Portugal: SL Benfica e B. C. Branco e regresso ao Sporting da Praia

Em 1964, jogou por um curto período no SL Benfica. Esteve ali durante apenas dois meses na formação encarnada. Realizou apenas um jogo pela equipa reserva que na altura contava com Dú Fialho, um outro conterrâneo e notório atleta na época.

A pedido do Benfica de Castelo Branco, foi reforçar essa equipa, onde também demorou pouco tempo, tendo regressado à Praia e alinhado pelo Sporting que então se fundia com o Rápido Futebol Clube.

Representou o Sporting desde 31 de outubro de 1954 até à sua festa de despedida para a França em 1964.

Na mesma época conseguiu conquistar a bola de prata, instituída pela antiga delegação da Associação de Futebol de Cabo Verde, como melhor marcador do Campeonato de Futebol de Sotavento, na época de 1963/64.

O derradeiro desafio e último jogo oficial de Mundinho disputado em Cabo Verde, tinha sido contra os Travadores a 7 de junho de 1964, jogo de repetição do Campeonato de Santiago de 1963/1964. Depois do embarque de Maia, Mundinho foi sempre capitão do Sporting.

Foi igualmente dirigente do clube e seu fotografo oficial. Mundinho também tinha uma outra paixão. O mundo dos “pixels”.

Segundo relatos, aquando da sua passagem por Guiné, tinha um estúdio montado para dedicar ao mundo da fotografia. Orlando corrobora também da mesma opinião de Burgo, que para além do amor pelo desporto, Mundinho tinha um amor inequívoco pela arte de fotografar e que inclusive, foram-lhes tiradas várias fotografias em diversas circunstâncias, quer em Bissau quer na Praia.

Trágico acidente de viação e legado

Em 1964, ainda sob o regime fascista, Mundinho deixa a capital, com destino a França, em busca de uma vida melhor.

Pouco tempo depois, viria a triste noticia sobre o desastre de viação em França, em que Mundinho e mais 3 cabo-verdianos perderam a vida. O brutal acidente ocorreu na estrada nacional n.10, a cerca de 10 quilómetros de Bordéus, onde supõe-se, pelas declarações prestadas pelo motorista do camião-cisterna, contra a qual houve o primeiro embate que, Arlindo fatigado por ter guiado toda a noite, teria adormecido ao volante a fração de segundos suficiente, para que o veículo saísse da sua mão e resvalado sucessivas vezes, fosse embater violentamente no camião cisterna, que rolava lentamente em sentido contrário. Depois chocou com uma arvore.

A tristeza e consternação percorreu todos os recintos onde Mundinho exibiu-se. Para além das ilhas de Cabo Verde, chegou a Bissau, através da Rádio, numa nota escrita por João Burgo Tavares, onde tinha deixado várias amizades e muita popularidade.

Mundinho tinha apenas 34 anos, mas deixou um excelente legado sobretudo para a geração vindoura, mostrando todo o potencial ao longo do seu curto período de vida, ficando assim notabilizado como um dos maiores talentos que as ilhas de Cabo Verde viu nascer quer tanto para o futebol e como também para o voleibol. 

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Autoria:William Vieira,20 abr 2021 9:41

Editado porAndre Amaral  em  6 mai 2021 22:19

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