Cabo Verde tem desde Agosto do ano passado uma taxa de inflação negativa. Teoricamente isso seriam boas notícias para os consumidores por significar uma descida constante dos preços. Isso é apenas a teoria.
O Instituto Nacional de Estatísticas anunciou, esta semana, que, pelo sexto mês consecutivo, a taxa de inflação estava em valores negativos (ver gráfico). No entanto basta uma visita a qualquer superfície comercial para perceber que essa descida não se reflecte no bolso dos consumidores.

Parte dos consumidores ouvidos pelo Expresso das Ilhas diz que não sabe o que é ou não consegue explicar o conceito de inflação. A outra parte, a que sabe, explica mas diz no final, de forma quase unanime: “Eles dizem que está a descer, mas não noto nada disso quando venho às compras”. Há mesmo alguns que dizem que os preços sobem a cada dia que passa.
Porque não descem os preços?
“Aqui há várias variáveis que entram em jogo”, começa por adiantar o economista Paulo monteiro Jr ao Expresso das Ilhas. “As pessoas estão com pouco rendimento disponível, a carga fiscal é muito forte quer a directa quer a indirecta” situação que faz com que o rendimento disponível das famílias cabo-verdianas não permita grandes despesas.
Para este economista “em segundo lugar temos de considerar o cabaz” de produtos que permite “medir a taxa de inflação” e, no caso da classe média cabo-verdiana “o cabaz pode estar muito desfasado porque o que ela consome pode não ser o que consta no cabaz oficial”, explica.
Segundo este economista “no Eurostat há um cabaz harmonizado de preços no consumidor e esse cabaz é comum a todos os países da área do Euro”. “Agora se você tem uma classe média que tem um determinado cabaz de consumo que não está reflectido no cabaz que é ponderado oficialmente, efectivamente o INE pode anunciar uma diminuição de preços que o consumidor não sente no dia-a-dia”.
Cabo Verde em deflação?
O anúncio da descida da taxa inflação em valores negativo pode então, segundo Paulo Monteiro Jr, permitir que se fale numa deflação da economia nacional. “Sim. Tecnicamente quando há uma diminuição generalizada e sistemática dos preços, do ponto de vista económico considera-se que há uma situação de deflação”, explica.
Como consequências desta queda constante dos preços este economista aponta para um “adiamento de investimentos”, tanto por parte tanto dos consumidores como dos investidores que ficam na esperança de que “os preços baixem ainda mais”.
A situação de deflação não é para Paulo Monteiro Jr mais perigosa do que a inversa. “Tem riscos, porque pode levar os consumidores a adiar a implementação do seu plano de consumo. Uma situação que, numa perspectiva de médio prazo, não é desejável. Mas penso que a inflação tem mais perigo, mais riscos para a sociedade”.
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