Como pode o Património da Humanidade contribuir para o desenvolvimento das comunidades?

PorJorge Montezinho,23 jan 2016 6:00

Património e desenvolvimento. Genuinidade e oferta turística. Turismo de massas e turismo de alto valor acrescentado. Estado e privados. Gestão e monitorização. Estes foram alguns dos temas abordados por especialistas portugueses que participaram na conferência internacional: Festas Nhu Santo Amaro – Património religioso, turismo e Desenvolvimento local, que fez parte do cartaz das festas do Tarrafal.

 

Até que ponto uma área classificada como Património da Humanidade pode contribuir para o progresso da comunidade desse território? Esta foi a pergunta que esteve na origem da Douro Generation, uma associação de cidadãos preocupados com questões de desenvolvimento. Por trás dessa interrogação estava a classificação, em 2001, do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO. A região deu um salto enorme em termos de notoriedade a nível mundial, mas continuava a ser uma das mais pobres de Portugal.

“Hoje, o Alto Douro Vinhateiro é considerado destino turístico de excelência e é o sétimo destino sustentável do mundo, em mais de 130”, explica ao Expresso das Ilhas António Martinho, presidente da direcção da Douro Generation. “Sendo a primeira região demarcada e regulamentada do mundo, e tendo estas insígnias, mais um conjunto de prémios, como é que continuamos com o PIB per capita dos mais baixos de Portugal? Nós tínhamos a obrigação de fazer esta pergunta: o que temos de fazer para o Douro dar o salto?”.

Desde início, houve a consciência que a cultura desempenha um papel crucial nas motivações dos turistas. Mas é também um factor de desenvolvimento. Considerou-se então que seria benéfico inventar formas de cooperação entre destinos que se distinguem pela oferta de produtos culturais. A começar por destinos cujos territórios contêm regiões vinhateiras classificadas pela UNESCO como Patrimónios da Humanidade, localizadas na Europa, mas de igual modo, Sítios que integram a lista da UNESCO e que são, de uma forma ou outra, expressões da cultura portuguesa, em vários países do Mundo, assim como Sítios de reconhecido valor natural.

Nascia assim o World Generation Project com o objectivo de “fomentar a cooperação entre povos, regiões e nações, através da concepção, execução e apoio a programas e projectos que fomentem a preservação, valorização e promoção da riqueza histórica, cultural, ambiental e socioeconómica das regiões”. A Cidade Velha, Património Mundial da Humanidade desde Junho de 2009, foi um dos Sítios que embarcou neste projecto, tendo mesmo participado no fórum que decorreu no ano passado, em Vila Real, no norte de Portugal, onde se abordou a problemática do crescimento. 

Mas, a questão mantém-se, já há reflexos no desenvolvimento da região? Helena Teles, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), entidade que faz a gestão do Alto Douro Vinhateiro Património Mundial da UNESCO, afirma que sim. “Nos últimos anos o Douro deu um salto qualitativo. É conhecido mundialmente. É uma referência, não só do nosso vinho do porto, mas pelos vinhos de mesa de qualidade, hoje considerados dos melhores do mundo. É um destino turístico que está a afirmar-se e tem uma visibilidade que há uns anos não tinha”.

Os habitantes da região, garante Helena Teles, têm sentido, dos últimos anos a esta parte, grandes alterações. “Houve muito investimento no Douro. Todas as vilas e cidades tiveram projectos de requalificação urbana, em que viram melhoradas as suas condições. Em termos de acessibilidades o Douro também está agora muito bem, com a abertura do túnel do Marão. As vias municipais são boas. A maior parte da população tem infra-estruturas e saneamento básico. Acho que deu um grande salto qualitativo. O que até aqui se notava era que as populações não sentiam uma real mais-valia por serem Património Mundial e acho que na última fase isso se começa a sentir, essencialmente pela comunicação”.

“Enquanto entidade gestora sentíamos um problema que era: os agricultores queriam fazer as suas intervenções à sua maneira, mas tinham de seguir as regras, e isso custava-lhes dinheiro. Hoje em dia vêem isso como um ganho”.

Segundo os números de 2013, os últimos disponibilizados, a região do Douro passou de 2000 camas, em 2009, para 3200 camas. As dormidas duplicaram, de 250 mil para cerca de 500 mil. Os barcos hotel, uma das apostas turísticas da região, que aproveita a navegabilidade do Rio Douro, transportaram cerca de 50 mil turistas por ano. Ultimamente, este segmento já começa a deixar dinheiro na região porque os turistas já saem do barco: vão às quintas, vão às cidades, vão ver monumentos ou locais religiosos. Entretanto, houve também investimentos de turismo rural, e as localidades começaram a sentir ainda mais os efeitos do turismo.

“À volta da unidade de turismo rural tem movimento o minimercado, tem movimento a padaria, tem movimento o fumeiro regional e outras pequenas unidades de actividade económica que se instalam nas aldeias. Isso é importante e não aparece muito na estatística, mas está a promover uma revolução”, diz António Martinho.

E que tipo de turismo tem estado o Douro a tentar atrair? “Nunca turismo de massa”, sublinha Helena Teles, “porque o Douro não é um destino para turismo de massa. Mas, também não precisa de ser para um determinado nicho de segmento muito elevado. Hoje em dia, o Douro tem de beneficiar do grande salto turístico que o Porto deu. E o Porto transformou-se porquê? Porque passou a receber voos low cost. É evidente que os turistas que chegam de low cost, principalmente os jovens, também têm de ter a possibilidade de ir ao Douro. Temos de fazer um trabalho que é conseguir que esse turismo que chega ao Porto consiga também chegar com alguma facilidade ao Douro. O Douro pode ter o seu turismo alavancado pelo turismo do Porto”.

“Houve um tempo”, completa António Martinho, “em que os responsáveis políticos diziam que ao Douro só interessava o turismo de 4 e 5 estrelas. Eu, nas minhas funções na Entidade Regional de Turismo do Douro [de que foi presidente], recusei isso porque um bem cultural deve ser fruído por toda a gente. Eram bem-vindos os hotéis de 3 estrelas, como era bem-vinda a requalificação das residenciais em hotéis de 1 e 2 estrelas. Foi um trabalho interessante e percebeu-se que isso acabava por valorizar o turismo. Porque o jovem turista que hoje vem de mochila, amanhã virá com a família, dar aos filhos as experiências que ele teve quando não tinha capacidade para se alojar em hotéis de 4 e 5 estrelas”.

A oferta duriense é diversificada: paisagens naturais, a vida nas quintas, o tratamento da videira, a feitura do vinho, o imaginário ligado à presença mourisca, a presença dos monges de Cister e os próprios mosteiros, as adegas desenhadas por arquitectos de referência como Siza Vieira e Souto Moura, os monumentos dos concelhos que integram a região.

“As coisas têm de ser genuínas quando as mostramos”, diz Helena Teles. “A paisagem assombra qualquer um, estamos a falar de um museu sempre diferente e ao ar livre. Depois, é conjugar isso com a identidade das pessoas, o valor que as vilas e as aldeias têm, a sua arquitectura tradicional. Temos de ter gente empreendedora, que mantém a tradição de uma forma inovadora. Ou seja, manter o tradicional e ter algo diferente que surpreenda sempre as pessoas pela positiva, diversificando a oferta aos nossos turistas”.

E Cabo Verde? Qual foi a ideia com que ficaram nesta primeira visita ao arquipélago? “O Tarrafal surpreendeu-me”, admite Helena Teles. “Em Portugal ouvimos falar muito do Sal e da Boa Vista e não ouvimos falar da ilha de Santiago. Para mim, foi uma surpresa muito grande, porque nesta ilha conseguimos ter tudo: praia e natureza. Este turismo pode ser muito potenciado. É evidente que ainda há muito a fazer porque as infra-estruturas básicas não existem. Ao hotel, por vezes, não chega água, por exemplo, e os turistas querem água. E isso compete à administração, primeiro criar as condições e só depois se atraem os turistas”.

E há o outro património: a Cidade Velha, a morna, as festas religiosas. “A parte imaterial é fundamental”, continua a representante da CCDR-N, “é um excelente caminho, porque é preciso conhecer a história, as tradições. Por exemplo, aqui as festas de Santo Amaro, podem trazer muita gente à região. É uma fonte de atracção. Estão a candidatar as festas a património nacional, mas um dia pode haver uma candidatura a património mundial, conjuntamente, por exemplo, e é uma coisa que eu acho que tem muito potencial, com o Campo de Concentração. Acho que o Tarrafal pode tirar muito partido disso, porque quem vem a Cabo Verde quer vir ao Campo de Concentração, que tem também o seu lado imaterial, tem a sua história, as figuras que lá estiveram, o que se fazia. Tem de se criar toda esta história à volta de um destino que se pretende afirmar”.

“Quer se queira quer não, as festas de Santo Amaro têm a ver com identidade”, completa António Martinho. “Se há milhares de pessoas que estão na diáspora e vêm cá cumprir promessas, isto tem uma carga de identidade e de cultura imaterial muito grande”.

“Veja a morna. Hoje está espalhada pelo mundo. E é uma componente da identidade cabo-verdiana. Quando cheguei a Cabo Verde fiz questão de comprar um CD de Cesária Évora. Há em Lisboa? Há, mas não é a mesma coisa”, conclui o presidente da Douro Generation.  

 

Alto Douro Vinhateiro

Criada em 1756 por iniciativa do governo do Marquês de Pombal, como a primeira região demarcada e regulada no mundo, o Alto Douro Vinhateiro, é um exemplo de uma região tradicional que vive em torno da produção vinícola, seja do afamado vinho do Porto, seja dos mais recentes vinhos de mesa de grande qualidade. Todos esses vinhos provêm dos socalcos que rodeiam o rio Douro e os seus afluentes, onde muros de xisto suportam alas de videiras carregadas com cachos de uva branca ou tinta.

Não só a paisagem é alterada pela produção do vinho, mas também o ritmo da vida dos durienses. Se o Inverno é marcado pela calma e pelo sossego, que parece transparecer nas videiras despidas, a transição do verão para o outono traz a azáfama das vindimas, com um descer e subir de cestos e tesouras de poda, nas encostas povoadas por trabalhadores.

Reconhecendo a importância da paisagem e das actividades tradicionais de produção de vinho, em 2001, a UNESCO classificou como Património Mundial 24 600 hectares do Alto Douro Vinhateiro, repartidos por 13 concelhos.

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 738 de 19 de Janeiro de 2015.

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Autoria:Jorge Montezinho,23 jan 2016 6:00

Editado porRendy Santos  em  22 jan 2016 13:37

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