Sociave obtém certificação de qualidade e pisca o olho aos grandes hotéis

PorNuno Andrade Ferreira,21 abr 2018 7:57

​Investimento da empresa avícula ascendeu a 10 mil contos e foi feito com expertise nacional

A Sociave concluiu em Março o processo de certificação de qualidade dos seus produtos, com a obtenção do certificado ISO 22000:2005. Depois de quatro anos de trabalho e investimento, a empresa alimentar, sedeada em São Vicente, foi bem-sucedida num processo que, assim espera o administrador João Santos, permitirá abrir novas portas, nomeadamente no sector turístico.

Os processos de certificação não são rápidos. Que caminho percorreram ao longo dos últimos anos?

Nós começámos o processo há cerca de quatro anos. Iniciámos o processo de certificação ISO 22000 (ver caixa) que é o mais alto certificado na área da alimentação e controle de qualidade, porque envolve dois processos: ISO 9001, que são os procedimentos, mas também envolve HACCP, que é para controlo de riscos. Percorremos um longo caminho, árduo, custoso. Custou muito dinheiro à empresa, mas desde o início sempre tivemos a consciência de que este era o caminho. Daqui a alguns anos, quem não estiver certificado não consegue vender, nem no mercado nacional, que está cada vez mais exigente, mas também no mercado turístico. Nós fomos certificados pela APCER – Associação Portuguesa de Certificação, que é a maior certificadora de Portugal, e que nos tem acompanhado em várias auditorias, mas tive a sorte de fazer esse percurso com uma empresa nacional. Quis escolher uma empresa nacional, que é a CVQUALI (ver caixa). Estou satisfeito por ter terminado, por duas razões: conseguimos ser certificados, mas também conseguimos percorrer o caminho com jovens nacionais, que neste momento ficaram mais balizados para prestar este serviço a outras empresas.

Em que áreas foi forçado a investir?

Investimos em duas frentes. A primeira, no processo em si, no custo com auditores, internos ou externos. Tivemos a necessidade de contratar uma equipa de auditores para trabalharem permanentemente connosco, não só pelo processo, mas também para continuarem a fazer auditorias periódicas. Gastou-se muito dinheiro em análises laboratoriais, centenas de contos. Depois, em investimentos que foram feitos para nos adequarmos às exigências, nomeadamente, equipamentos e estruturas físicas. Foram milhares de contos.

Estamos a falar de que valor total?

Se incluir os procedimentos, os equipamentos, algumas reestruturações que tiveram que ser feitas, cerca de 10 mil contos.

A questão da certificação não é totalmente nova em Cabo Verde mas ainda existem poucas empresas certificadas. Este é o caminho?

Certamente. Para ter uma ideia do que significa o certificado, se vier cá uma auditoria ou uma inspecção de um órgão tipo IGAE, ARFA, ou outra, nós só exibimos o certificado, porque ele já diz, por si só, que a empresa cumpre com as normas do códex alimentar e que só produzimos produtos confiáveis, que temos um sistema de rastreamento que dá confiança ao consumidor. Agora, os efeitos não se sentem de um dia para outro, naturalmente. Para muita gente, certificar-se é gastar dinheiro. Nós encaramos o processo como um investimento. Não estávamos a perseguir o certificado, o certificado é o fim. Queríamos mesmo implementar as normas internas, seja de controlo de qualidade, seja dos investimentos que deviam ser feitos.

Que perspectivas é que se abrem com esta certificação?

Espero que, doravante, não haja mais empecilhos para vendermos às cadeias de hotéis em Cabo Verde, que levantaram a hipótese de só comprarem produtos nacionais se fossem certificados. Isto é uma questão que está a ser debatida, a nível nacional, há muito tempo. Nós já percorremos esse caminho, já demos provas que temos condições de produzir em quantidade necessária para abastecer o mercado nacional. Temos preços competitivos, mais competitivos até do que a importação, e já nos certificámos. O problema de qualidade nunca se pôs e agora já estamos certificados, auditados. Já ultrapassámos todas as fases e espero abertura dos que estiveram reticentes até ao momento.

Está optimista, portanto…

Eu imagino um futuro risonho. O país está abraçado ao turismo e nós queremos crescer com este sector, neste mercado. Para que isso aconteça – quando digo nós, refiro-me ao grupo, que está no ramo alimentar, mas também aos agricultores em Santo Antão, Fogo, Santiago – temos que ter melhores transportes e o Governo tem que sensibilizar, não digo obrigar, as maiores cadeias hoteleiras a comprarem os produtos nacionais. Caso contrário, o país não está a tirar proveito do turismo.

O turismo é um sector transversal, em que toda a gente ganha. Temos que criar este conceito em Cabo Verde.

Medidas proteccionistas para o seu sector, como aquelas que foram tomadas este ano noutras áreas, podem fazer sentido?

Eu não gosto. Sempre que me perguntem o que é que o Estado pode fazer, eu respondo: nada. Cada um cumpre o seu papel. Anos atrás, o problema maior era o IVA. Neste momento, isso já não é um problema, porque há o princípio de encontro de contas e as coisas, a nível fiscal, estão a funcionar muito bem. O Estado tem é que regular o mercado, criar condições para que o mercado esteja unido, através dos transportes marítimos, e evitar, de facto, a concorrência desleal.

Portanto, condições para que empresários e industriais, em particular, possam trabalhar sem constrangimentos.

Exacto. Eu não estou a pedir protecção a nível alfandegário. Estou a pedir que se controle a qualidade, por uma questão de saúde pública. Que se criem tarifas mais simpáticas de energia para as industrias. Que se criem condições para que haja regularidade dos transportes marítimos. É isto que eu espero do Estado, mais nada.

A certificação é um investimento

No mercado desde 2012, a CVQUALI foi a empresa de consultoria escolhida pela Sociave para preparar o processo de certificação, quer terminou com a atribuição do certificado ISSO 22000:2005, pela APCER.

Um trabalho árduo, recorda Valdir Barbosa, sócio-gerente da CVQUALI, que destaca a preferência de João Santos por uma empresa nacional, em sentido contrário à prática do mercado.

“A SOCIAVE preferiu apostar numa empresa jovem nacional para juntos fazermos essa caminhada e aprendizagem. A nível de Cabo Verde, costuma-se muito contratar os serviços estrangeiros para dar esta consultoria, o apoio para a certificação”, enaltece.

Ao longo de quatro anos de trabalho conjunto, foi necessário investir em equipamentos mas também na mudança de comportamentos, o que se revelou uma das principais dificuldades.

“Era necessário mostrarque a SOCIAVE vai passar a trabalhar de uma outraforma. Foi preciso dar formação, fazer a sensibilização do pessoal e isso, realmente, foi um desafio muito grande. Mudar a mentalidade das pessoas é um desafio grande”, destaca.

A CVQUALI presta serviços de formação e consultoria na área da qualidade,higienee segurança alimentar. Trabalha no apoio às empresas do sector alimentar, na elevação dos níveis de qualidade e segurança sanitária dos seus produtos. Para Valdir Barbosa a certificação é o caminho.

“Muitas pessoas e empresas olham para a certificação como um custo. Eu costumo dizer quenão se deve olhar para a qualidade e para a certificação como custos, mas sim como investimentos, como um benefício”, acredita.

O responsável da CVQUALI defende um esforço extra das autoridades na sensibilização para a importância da qualidade e certificação mas também, desde logo, para o cumprimento das leis existentes ao nível da segurança alimentar. Quanto aos consumidores, estes “devem ser mais exigentes”.

ADECO pede maior controlo das importações

Para a Associação de Defesa do Consumidor (ADECO), a certificação de qualidade é “extremamente importante”. Lino Monteiro, da organização, recorda que a certificação é uma garantia em vários sentidos, pelo que pede esse nível de exigência para com os produtos importados.

“Temos a garantia de que o produto que consumimos é de qualidade. A certificação diz respeito, também, à saúde pública. Outro aspecto é que a obtenção da certificação chama a atenção das autoridades nacionais para a necessidade de exigirem dos produtos importados a mesma certificação”, observa.

“Nós em Cabo Verde importamos tudo, sem exigir qualquer tipo de garantia. Os produtos vêm congelados. Não sabemos quanto tempo é que o produto esteve no frio, porque uma simples declaração da empresa exportadora talvez não seja suficiente”, acrescenta.

Para Lino Monteiro, representante da ADECO em Santiago, as autoridades nacionais têm cumprido o seu papel nesta área, “mas ainda não é suficiente”.

A norma ISO 22000 baseia-se nos princípios do HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Point ou Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos) do Codex Alimentarius, internacionalmente reconhecidos. O enfoque é a segurança alimentar em todas as etapas da cadeia de fornecimento. Uma organização certificada por esta norma demonstra ao mercado que tem um sistema de gestão da segurança alimentar com capacidade de fornecer produtos seguros.

260

Toneladas de frango produzidas em 2017

1000

Capacidade de produção instalada/ano (em toneladas)

25

Milhões de ovos produzidos em 2017 (em conjunto com a Agropec, outra empresa do grupo)

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 855 de 18 de Abril de 2018.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,21 abr 2018 7:57

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 abr 2018 6:51

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