Operadores não concordam com calendário do governo

PorJorge Montezinho,10 jun 2018 7:37

Não está em causa a decisão de conceder livre circulação para cidadãos europeus, mas sim as datas para a sua entrada em vigor. O tema juntou à mesma mesa, esta segunda-feira, membros do executivo e empresários ligados às principais operadoras turísticas instaladas em Cabo Verde. Os privados consideram que a questão da supressão dos vistos não tem sido analisada da melhor forma, o que tem criado incertezas e preocupações no seio dos operadores. Além disso, também se queixam de não terem sido ouvidos apropriadamente.

De um lado, Olavo Correia, Ministro das Finanças, Paulo Rocha, Ministro da Administração Interna e Gilberto Barros, Secretário do Estado Adjunto para as Finanças. Do outro, representantes da TUI, da Thomas Cook, da Barracuda, da Associação das Agências de Viagens e Turismo de Cabo Verde, da Associação Cabo-verdiana dos Agentes e do The Resort Group, responsáveis por mais de 80 por cento do fluxo de turistas para Cabo Verde. A reunião foi pedida pelos privados que operam no sector.        
Apesar do tema da supressão de vistos ter sido já debatido entre o governo e o Presidente da Câmara de Turismo de Cabo Verde (CTCV), os associados da CTCV, pelo que apurou o Expresso das Ilhas, não consideram que as opiniões de Gualberto do Rosário expõem as ideias dos operadores, que afirmam mesmo que nunca foram ouvidos pelo representante máximo da CTCV. Os representantes do sector consideram, inclusive, que o posicionamento público do Presidente da CTCV tem criado controvérsias e que Gualberto do Rosário tem falado mais em nome próprio do que em nome dos mandantes.
Cabo Verde anunciou, há mais de um ano, que pretendia isentar unilateralmente os cidadãos europeus e do Reino Unido de vistos de curta duração em Cabo Verde, mas a entrada em vigor da medida tem vindo a ser sucessivamente adiada. E este encontro tinha o objectivo de ajudar a um diálogo positivo entre o Governo e os principais “players”, harmonizar as posições e expor ao executivo as preocupações e possíveis cenários de soluções.   
Um memorando enviado ao governo diz mesmo que em função das muitas dúvidas, sugere-se o adiar da implementação da isenção de visto para um momento em que se encontrem reunidas todas as condições para que a entrada em vigor da medida não seja um embaraço para a actividade turística em Cabo Verde. Como o turismo cabo-verdiano é essencialmente balnear, tem também o seu calendário próprio (o chamado calendário IATA) e como o sector trabalha com antecipação de pelo menos dois anos, no fundo, o que os operadores pretendem é que a futura data de implementação seja coincidente com o início de um período IATA (1 de Novembro 2019 é o exemplo referido), mas nunca a meio de um período IATA. Ou seja, a isenção de vistos a partir de 1 de Janeiro do próximo ano não deverá acontecer.
Mas há outras questões a preocupar os operadores turísticos. Numa altura em que os dados do turismo internacional mostram que destinos concorrentes estão novamente a atrair visitantes (a Turquia apresenta níveis de crescimento de 70%, o Egipto cresce a 80% e a Tunísia regista um crescimento de 200%) e Cabo Verde apresenta um crescimento negativo de 4%; os empresários temem que a futura taxa, que substituirá o actual valor do visto, possa influenciar negativamente o preço final do pacote e, por consequência, os níveis de procura por Cabo Verde.
Mesmo a designação da nova taxa – taxa de segurança – não é do agrado dos operadores, que consideram mesmo que esta escolha tem uma conotação negativa. O Expresso das Ilhas contactou Victor Fidalgo, que representou o The Resort Group nesta reunião com o governo, e o consultor explicou que os privados consideram que este é um “nome infeliz”. “Substituir o visto por uma taxa de segurança dá ideia que na política do turismo a questão securitária tomou a supremacia. A nossa preocupação é melhorar a qualidade do destino turístico, onde a segurança é apenas mais um elemento”, diz.  
Outro problema levantado pelos operadores é que desde que foi anunciada a isenção de vistos para cidadãos europeus e Reino Unido em Cabo Verde, tem-se falado sobre a implementação de uma plataforma de registo dos visitantes a Cabo Verde. Segundo os privados, até ao presente momento, a referida plataforma continua a ser um mistério para todos os intervenientes, no que diz respeito ao seu formato, conteúdo e como funcionará.
“O governo considera que há matéria para reflexão”, sublinha Victor Fidalgo, “pelo que ficou decidido a constituição de um grupo de trabalho, com representantes do negócio e com a equipa do governo que tem estado a trabalhar nesta matéria, para ver se são corrigidos alguns aspectos para que a medida seja boa para todos. O que interessa é que a medida não perturbe o fluxo de turistas. Os operadores têm já uma máquina montada, é preciso adaptá-la ao novo sistema, mas é preciso tempo para transição”.
A posição do governo ainda não é conhecida, mas o texto do Ministro Olavo Correia no Facebook parece abrir uma porta de entendimento. “O Turismo é o motor da dinâmica macroeconómica do país. É importante para os cabo-verdianos e para a economia de Cabo Verde. Neste âmbito, é essencial que o Governo e os principais “players” que actuam no sector estejam alinhados, pelo que é muito importante este diálogo contínuo para que possamos, então, formar entendimentos em matérias que sejam essenciais para o negócio – Turismo - e para a qualidade do Destino Turístico - Cabo Verde”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 862 de 6 de Junho de 2018.

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Autoria:Jorge Montezinho,10 jun 2018 7:37

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  11 jun 2018 8:41

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