Júlio Almeida: “Cabo Verde arrisca perder o comboio”

PorJorge Montezinho,12 jan 2019 7:33

​Engenheiro e administrador da Tecnicil Indústria, Júlio Almeida falou com o Expresso das Ilhas sobre os desafios que a nova indústria colocam ao arquipélago e sobre os riscos que correm as empresas nacionais que não conseguirem acompanhar o ritmo de transformação. E as perspectivas não são as mais animadoras.

Participou como orador no workshop sobre a Indústria 4.0 – Uma aposta para Cabo Verde?, onde falou dos desafios para a indústria cabo-verdiana e começava exactamente por aí: quais são esses desafios?

O grande desafio é adequar-se a essa indústria. A indústria 4.0 é um estádio bastante avançado das indústrias, baseada em plataformas virtuais, e que responde a questões específicas dos clientes. É uma fase em que a produtividade – o calcanhar de Aquiles da indústria cabo-verdiana – é essencial. Neste momento, estudos comprovam o interesse das empresas mundiais devido às vantagens que se podem tirar da digitalização da indústria. Por exemplo, as empresas esperam que as suas receitas podem aumentar 2,9 por cento ao ano até 2021, o que corresponde a 493 biliões de dólares anuais. Isto porque esperam apostar em novos produtos, de base digital, que permitem ao consumidor desenhar o seu próprio produto. Aumenta-se assim também o portfólio com base nas necessidades dos clientes e melhora-se o acesso dos clientes àquilo que precisa através das plataformas digitais. Mas além de aumentar as receitas, a indústria 4.0 vai permitir reduzir os custos em cerca de 4% ao ano, devido à redução do tempo de entrega e à maximização dos equipamentos. As empresas, face a estas vantagens, têm comprometido cerca de 5% das suas receitas anuais, exclusivamente, para investimentos na digitalização. Portanto, o desafio de Cabo Verde está em não perder este comboio. O desafio de Cabo Verde é conseguir juntar-se às empresas mundiais que vão nesta direcção, inclusive as próprias empresas portuguesas com quem competimos mais directamente. Portugal, neste momento, é responsável por quase 50% das importações de Cabo Verde, se Portugal está a prever aumentar as suas receitas em 10%, diminuir os seus custos em 10% e aumentar a sua eficiência em 10%, podemos ver o quanto isso pode representar na competitividade das empresas em Cabo Verde com os produtos que vêm de Portugal. É como tenho dito há muito tempo: falta uma política para a industrialização de Cabo Verde.

Essa é uma das questões que se põe, Cabo Verde ainda está a falar em industrialização quando o mundo já avança para a indústria 4.0 e como disse: o país não pode perder o comboio, mas arrisca-se a perder o comboio.

Sim, arriscamo-nos a perder o comboio e eu não acho que isto sejam coisas que possamos diminuir o impacto, porque vai ser real. A competitividade vai ser real. O Professor Nuno Mangas referiu um exemplo de uma empresa de calçado portuguesa em que o cliente entra, desenha o seu próprio calçado e recebe-o em casa dias depois. Não são miragens, e actualmente cerca de 86% das empresas portuguesas esperam alcançar o estádio avançado de digitalização até 2020. Aqui, tanto os responsáveis pelas indústrias como o público têm deveres nessa área, têm de analisar estas questões e chegar a uma conclusão sobre que caminhos percorrer para que possamos juntarmo-nos às empresas que já vão à nossa frente.

Uma das exigências sempre referidas quando falamos da indústria 4.0 é a da mão-de-obra altamente treinada. Existe em Cabo Verde?

Não temos essa mão-de-obra. E muitas vezes, para além do treino, é a atitude das pessoas. Mas não temos essa mão-de-obra altamente treinada em Cabo Verde. Bem, na realidade, as indústrias 4.0 vão ser mais geridas por equipamentos do que por pessoas e essa mão-de-obra treinada não será a mão-de-obra convencional de um operador de equipamento, serão engenheiros informáticos, serão pessoas no BackOffice que farão as transacções dos clientes, etc., porque a indústria 4.0 será completamente automatizada e muitos dos equipamentos industriais que temos em Cabo Verde ainda nem sequer são automatizados e muitas vezes o nosso mercado nem sequer tem condições de garantir que investimentos que possamos fazer nessa área tenham o retorno esperado.

A indústria 4.0 começou nas incubadoras e na ligação entre as universidades e as empresas. Vê isso como uma realidade a curto prazo em Cabo Verde?

Eu sei que é uma necessidade. Se pode ser visto como uma realidade a curto prazo depende da consciencialização que tivermos das nossas necessidades e do empenho que colocarmos na sua resolução. Mas que é uma necessidade, é. Isso não tenho dúvidas. Sei que há muitos jovens em Cabo Verde a desenvolver software, aplicações e que podem ser de grande utilidade para o futuro nessa área.

Têm é de ser apoiados.

Tem de haver condições. Mais do que apoio é fundamental permitir que as pessoas tenham as suas ideias, consigam aceder a financiamentos e consigam ter condições para concorrer com os nossos competidores estrangeiros. Ainda hoje [terça-feira] ouvi o ministro das Finanças dizer que o timing da administração pública não anda em paralelo com o das empresas e dos investidores, portanto, ainda estamos a viver esses problemas e estamos a perder tempo com eles.

Ou seja, além de ainda não estarmos preparados para a indústria 4.0, temos de ser mais rápidos a tomar decisões para chegar lá.

Pois. Mas como acelerar é que é o problema. Neste momento quase todos estão à nossa frente. Eventualmente podemos estar à altura de alguns países da nossa sub-região, mas mesmo assim temos muitos outros com um nível de industrialização, de longe, superior a Cabo Verde. De longe. A nossa participação industrial no PIB anda à volta dos 7%, e pelo que apurei deve até ter diminuído nos últimos tempos. Não podemos augurar algo de muito bom neste momento. Acho que vai ser duro para as empresas cabo-verdianas se não acompanharmos a evolução. E, no limite, salvo algumas raras excepções, eventualmente as empresas cabo-verdianas não conseguirão manter-se e sucumbirão às pressões da concorrência das indústrias mais eficientes do que as nossas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 893 de 9 de Janeiro de 2019.

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Autoria:Jorge Montezinho,12 jan 2019 7:33

Editado porChissana Magalhães  em  14 jan 2019 7:44

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