Desenvolvimento humano e a luta contra as incertezas

PorJorge Montezinho,17 set 2022 8:57

Cabo Verde é o 128º país do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano, tendo recuado quatro lugares desde o intervalo entre os anos 2015 a 2021, segundo dados do último ranking, publicado no passado dia 8 deste mês. O arquipélago não está sozinho neste retrocesso, 90% dos países do mundo passam pelo mesmo. A principal razão para este atraso global? As crises sucessivas que o mundo tem enfrentado nos últimos anos.

A Suíça lidera pela primeira vez a classificação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que engloba 191 países. A crise da pandemia, os impactos na economia e a baixa expectativa de vida afectaram as nações lusófonas. Portugal está na posição mais alta do grupo das nove economias que compõem a CPLP, Moçambique está no lugar mais baixo [ver caixa].

O mais recente Relatório de Desenvolvimento Humano, “Tempos incertos, vidas instáveis: Construir o futuro num mundo em transformação”, publicado pelo PNUD, sublinha que há camadas de incerteza a acumularem-se e a interagir para desequilibrar a vida no planeta de forma inédita. Nos últimos dois anos, o impacto foi devastador para biliões de pessoas.

O desenvolvimento humano voltou aos níveis de 2016, deitando por terra grande parte do progresso alcançado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Aliás, pela primeira vez em 32 anos, o IDH – que mede a saúde, a educação e o padrão de vida de uma nação – cai globalmente em dois anos consecutivos.

O índice divide em três o desenvolvimento humano: muito elevado (entre as posições 1 a 115), médio (116 a 159) e baixo (160 a 191). Os 5 primeiros lugares do ranking são ocupados pela Suíça (com um valor de 0,962), Noruega (0,961), Islândia (0,959), Hong Kong (0,952) e Austrália (0,951). Há oito países africanos entre os que têm desenvolvimento humano muito elevado: Maurícias (63º com 0,802), Seychelles (72º com 0,785), Argélia (91º com 0,745), Egipto e Tunísia (ambos os países em 97º com 0,731), Líbia (104º com 0,718), África do Sul (109º com 0,713) e Gabão (112º com 0,706).

Cabo Verde está classificado entre as nações de desenvolvimento médio e nesta secção há dois países africanos que aparecem primeiro que o arquipélago: Botswana (117º com 0,693) e Marrocos (123º com 0,683). No fim do ranking estão o Níger (189º com 0,400), o Chade (190º com 0,394) e o Sudão do Sul (191º com 0,385).

Novos níveis de incertezas

O relatório que acompanha o IDH sublinha que vivemos num mundo onde as preocupações são a nota dominante: a pandemia, que provocou reviravoltas no desenvolvimento humano em quase todos os países e continua a provocar mudanças imprevisíveis; a guerra na Ucrânia e noutros locais; temperaturas recorde, incêndios e tempestades, campainhas de alarme de um planeta cada vez mais desequilibrado; crises agudas que provocam incerteza crónica e contribuem para um quadro de tempos inconstantes e vidas instáveis.

A incerteza não é algo de novo. Há muito que a Humanidade se preocupa com pragas e epidemias, violência e guerra, inundações e secas. Como refere o relatório, “não existem inevitabilidades, apenas duras incógnitas”. Mas os novos níveis de incertezas estão a interagir para criarem novos géneros de incerteza – um novo complexo de incerteza – nunca vistos na história da Humanidade:

As perigosas mudanças planetárias do Antropocénico [termo usado para descrever o período mais recente na história do Planeta, quando as actividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima e nos ecossistemas];

Amplas transformações sociais a par da Revolução Industrial;

Os imprevistos e oscilações das sociedades polarizadas.

Crise atrás de crise

As crises mundiais têm-se sucedido: a financeira em 2008, a climática em curso, a pandemia e uma crise alimentar mundial eminente. “Existe uma sensação incómoda de que qualquer controlo que tenhamos sobre as nossas vidas está a escapar-nos”, lê-se no relatório, “que as normas e instituições em que costumávamos confiar para a estabilidade e prosperidade não estão a corresponder às necessidades que advêm do actual complexo de incerteza”.

Os sentimentos de insegurança estão a aumentar em todo o globo, uma tendência que se verifica há, pelo menos, uma década. Mesmo antes da pandemia, 6 em cada 7 pessoas, a nível mundial, sentiam-se inseguras.

Mas se nem tudo está bem, também nem tudo está perdido. Como sublinha o relatório, políticas que se foquem nos três I’s (investment, insurance and innovation – investimento, protecção e inovação) vão ajudar as pessoas a navegar no novo complexo de incerteza e a prosperar.

O investimento, desde as energias renováveis à preparação para pandemias e perigos naturais extremos, aliviará as pressões planetárias e preparará as sociedades para melhor enfrentarem os choques globais.

A protecção também contribui para salvaguardar as pessoas das contingências de um mundo incerto. O aumento global da protecção social na sequência da pandemia fez exactamente isso, ao mesmo tempo que mostrava a pouca cobertura da segurança social existente e quanto ainda está por fazer. Os investimentos em serviços universais básicos como a saúde e a educação também têm uma função seguradora.

A inovação nas várias formas – tecnológica, económica, cultural – será vital na resposta aos desafios incertos e desconhecidos que a humanidade enfrentará. Apesar da inovação ser um tema que diz respeito a toda a sociedade, aos governos compete a criação dos incentivos políticos certos para a inovação inclusiva, mas também tornarem-se parceiros activos em todo o processo.

Não é possível voltar atrás

“As pessoas são a verdadeira riqueza das nações”, escreve Achim Steiner, Administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. “Cada nova crise relembra-nos que quando as capacidades, escolhas e esperanças das pessoas de futuro se sentem goradas, o bem-estar das nações e do planeta é o dano colateral”.

“Imaginemos o inverso: como seriam as nações e o planeta se ampliássemos o desenvolvimento humano, incluindo a agência e as liberdades das pessoas. Seria um mundo onde a criatividade é libertada para redefinirmos o futuro, para renovarmos e adaptarmos as instituições, para criarmos novas histórias sobre quem somos e o que valorizamos”, continua o responsável.

“O herói e o vilão na história actual de incerteza são um só: a escolha humana”, conclui Steiner. “É demasiado fácil encorajar as pessoas a procurar por sinais de esperança ou afirmar que o copo está meio cheio em vez de meio vazio, pois nem todas as escolhas são iguais. Alguns – sem dúvida os mais importantes para o destino da nossa espécie – são impulsionados pela inércia institucional e cultural, gerações em construção”.

Para onde vamos a partir daqui é connosco

O objetivo do desenvolvimento humano é ajudar as pessoas a levarem vidas que valorizam, expandindo as suas capacidades. O Relatório do Desenvolvimento Humano deste ano deixa o desafio de ambicionar mais do que um mero ajuste. O repto é o de libertar o potencial humano, explorar a criatividade e diversidade, ancoradas na confiança e solidariedade. Imaginar e criar futuros nos quais se prospera.

Como recorda o relatório, uma das grandes lições da história é que conseguimos realizar muito com pouco se trabalharmos em conjunto para atingir objetivos comuns. “A existir um ingrediente secreto para a magia humana, será esse”, lê-se no documento. Nesta era turbulenta, pode definir-se a direcção, mas não garantir o resultado. As boas notícias são que há mais ferramentas que nunca para ajudar a navegar e a corrigir o curso.

“Ainda assim, nenhuma quantidade de tecnologia substitui uma boa liderança, acção colectiva e confiança”, conclui o relatório do Índice de Desenvolvimento Humano. 

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CPLP no IDH 38º Portugal (0,866) 87º Brasil (0,754) 128º Cabo Verde (0,662) 140º Timor-Leste (0,607) 145º Guiné Equatorial (0,596) 148º Angola (0,586) 177º Guiné Bissau (0,483) 185º Moçambique (0,446)

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1085 de 14 de Setembro de 2022.

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Autoria:Jorge Montezinho,17 set 2022 8:57

Editado porFretson Rocha  em  18 set 2022 8:19

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