“Ajudar pequenas e médias empresas é uma prioridade para nós”

PorAndre Amaral,15 out 2022 8:59

Cabo Verde e a Sociedade Financeira Internacional assinaram um programa de investimentos no valor de 50 milhões de dólares a serem canalizados para os sectores do turismo e da conectividade interna. No entanto, há “outros sectores que nós também queremos apoiar, mas que não estão incluídos nesta quantia porque ainda não temos projectos definidos de maneira concreta”, diz Sérgio Pimenta, Vice-presidente para África da Sociedade Financeira Internacional, em conversa com o Expresso das Ilhas.

O que é a SFI? Que organismo é este dentro do Banco Mundial?

A Sociedade Financeira Internacional é a entidade do grupo do Banco Mundial que está focalizada no desenvolvimento do sector privado. Fazemos parte do mesmo grupo, o Banco Mundial faz empréstimos aos governos e nós fazemos empréstimos, ou investimentos em capital ou garantias ao sector privado. Nesse contexto de desenvolvimento, nós temos o mesmo mandato de desenvolvimento, mas utilizando mecanismos diferentes. Nesse mandato a SFI também tem uma capacidade de trabalho de conselho. E nós fazemos essa assistência técnica de duas maneiras: por um lado fazemos assistência técnica a governos sobre questões de desenvolvimento do sector privado e por outro fazemos essa assistência directamente a empresas privadas sobre um grande número de assuntos que podem ser a governança corporativa, standards ambientais, novas oportunidades, novos mercados.

Anunciaram o estabelecimento de um programa de investimentos em Cabo Verde no valor de 50 milhões de dólares. A que áreas e a que sectores se destina?

Este programa são os investimentos que contamos fazer nos próximos meses, porque achamos que é necessário acelerar as nossas operações aqui e podermos estar mais presente e ter uma presença financeira de investimento mais importante. Este pipeline de projectos está centrado principalmente em dois sectores que são importantes para Cabo Verde. Um é o sector do turismo, vamos financiar uma cadeia de hotéis aqui no país. E o segundo é o apoio à conectividade, neste caso estaríamos a apoiar o sector dos aeroportos. Mas são dois temas que nesta visita achei que são sectores muito importantes e que nós queremos apoiar. Há outros sectores que nós também queremos apoiar, mas que não estão incluídos nesta quantia porque ainda não temos projectos definidos de maneira concreta. Queremos apoiar tudo o que seja a economia digital, porque é um sector importante, que pode criar muitos empregos e, por isso, queremos fazer mais neste sector e ver como é que podemos fazer: se será no lado da infraestrutura, no da educação, no lado das startups. Há muita coisa que se pode fazer nesse sector. Nós temos uma oferta de produtos que é larga e estamos interessados em ver se há oportunidades no sector. Todo o aspecto da industrialização e sector agrícola, ou seja, como é que se pode desenvolver uma economia que esteja a criar empregos neste país à volta de sectores que já estão bem-sucedidos como é o caso do turismo. Por exemplo, quando se financia um hotel este vai consumir produtos alimentares, serviços de transporte, de turismo, etc. Muito disso, hoje em dia, em Cabo Verde, continua a ser importado. Ora, se pudermos ajudar pequenas e médias empresas a fornecer os hotéis essa é uma prioridade para nós.

Dentro deste sector da economia digital o que pode diferenciar Cabo Verde dos outros países. O que é que Cabo Verde pode oferecer que torne o país interessante para quem queira investir cá nesse sector da economia digital?

Eu responderia de duas formas. Primeiro quero indicar que em todo o ambiente de negócios, o governo tem feito um trabalho muito bom para construir um ambiente de negócios que encoraja o investimento. É isso que se vê no que respeita à estabilidade política, mas também à estabilidade económica. Mesmo nestes tempos incertos que estamos a atravessar há um rumo que o governo está a seguir que dá um certo nível de confiança a investidores do sector privado. Quando se compara com outros países do mundo, países em desenvolvimento, é algo que, sinceramente, acho que temos de destacar que Cabo Verde está a ser muito bem-sucedido e a competitividade do país é muito importante. Porque o investidor que queira fazer um projecto vai escolher um país onde haja maior estabilidade. Agora em termos de competitividade natural, Cabo Verde tem uma proximidade aos mercados europeus e americanos, mas ainda mais aos mercados africanos. Temos aqui 1.200 milhões de pessoas no continente que estão abertas para criar mais oportunidades. Sendo um país de língua portuguesa é evidente que Cabo Verde tem a vantagem de trabalhar com países como Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe que têm uma facilidade de negócios maior. Mas não só. Todos os países de língua francesa ou inglesa que há em África são mercados que podem utilizar Cabo Verde como uma plataforma. Acho que, hoje em dia, a tendência em África é de se ter uma visão mais regional. As empresas estão, cada vez mais, a pensar em mercados africanos em vez de pensar em mercados de fora do continente. Ora, pensando em mercados regionais os países mais estáveis vão estar na primeira linha em termos de sucesso, porque vão ter a melhor facilidade em entrar e aceder a esses novos mercados. E isso é um aspecto que acho em que Cabo Verde tem a possibilidade de se tornar um campeão nesta região liderando em muitos aspectos. E quando se fala em economia digital, fala-se de uma economia que não conhece fronteiras. Podemos ter aqui actividades que poderão servir todo o continente africano e isso é algo que deveremos apoiar e que é muito interessante.

Em todos os sectores o desenvolvimento vai-se fazendo por estágios. Acha que Cabo Verde, ainda dentro deste sector da economia digital, já tem condições para atrair grandes empresas?

Tem totalmente razão que o desenvolvimento se faz por fases, mas também há uma aceleração. Chegar a determinados patamares de desenvolvimento não é um processo linear. Há fases a que é mais difícil chegar e outras a que se chega mais facilmente. Quando se trata da economia digital, como muitas outras economias, há um efeito de cluster: ter várias actividades que estão conectadas e que se podem ajudar umas às outras. Por isso, quando se começa vai mais devagar e depois as coisas podem acelerar. Eu acho que no sector digital Cabo Verde tem vantagens que deveriam permitir acelerar relativamente depressa. Tem acesso a cabos submarinos e vai haver mais, tem uma base do sector que é estável, mas também se vêem muitas oportunidades de haver mais concorrência, mais actores. Particularmente, acho que o sector das telecomunicações está a evoluir. Não só a telecomunicação pura e dura, mas também outros canais de distribuição como a e-educação, o mobile banking e, isto, acho que é a próxima etapa para Cabo Verde. Estou muito optimista de que isto possa acontecer.

Cabo Verde sofreu um impacto muito grande com a pandemia e agora com a guerra na Ucrânia. Ainda mais por causa da economia estar dependente do sector do turismo. É altura de começar a diminuir o investimento no turismo?

Não. Não diria isso. Cabo Verde é uma economia muito pequena e muito dependente do turismo. A pandemia não permitiu que os turistas chegassem. É evidente que esta é uma situação extremamente difícil. Mas as autoridades tomaram medidas muito fortes para limitar o impacto da pandemia. Medidas como a aposta na vacinação, que nem todos os países que dependem do turismo fizeram. Isso permite dar confiança aos turistas para voltarem. Hoje em dia os turistas já estão a regressar e acho que isto é muito importante. Houve uma crise que ainda não acabou, porque o impacto vai-se fazer sentir durante vários anos. Agora temos a guerra na Ucrânia que vai acrescentar dimensão a essa crise pelos impactos nas cadeias de distribuição, sobre a inflação, etc., etc. Mas houve boas medidas para tentar minimizar os impactos desta situação. O turismo é uma parte muito importante para a economia, mas deve-se pensar como é que pode evoluir de um turismo de massa para um turismo mais específico como o eco-turismo, o turismo de alta gama, mais especializado. Encorajar, e é aí que a conectividade entre as ilhas entra, que os turistas venham cá não só para visitar o Sal ou uma outra ilha, mas que façam vários destinos. Também há a questão de ver se o turismo alarga o seu período de cobertura. Há muitos anos, aqui, o turismo estava limitado a alguns meses num ano, mas hoje já se vê muito mais turismo durante o ano. Esse tipo de actividades contribui para a sustentabilidade do sector e podem contribuir mais para a economia. Agora quando digo isso é também indirectamente, porque como eu estava a dizer antes, porque é apoiando as pequenas e médias empresas que estão à volta do sector do turismo que há empregos para criar e que são empregos muito importantes. Eu acho que o turismo é uma actividade que cria muito emprego e Cabo Verde tem uma competitividade evidente nesse sector. Não só pela natureza, mas também pelos aspectos culturais, pela cultura de acolhimento. Isso tudo contribui.

Dizia há pouco que Cabo Verde é uma economia pequena. A SFI não costuma fazer investimentos abaixo dos 10 milhões de dólares. Por isso a minha pergunta é se se justifica esse tipo de investimentos numa economia onde falta escala como é o caso de Cabo Verde?

Nós fazemos projectos mais pequenos que esse valor particularmente em países em que a economia é mais pequena. Eu penso que a economia é um continuum de grandes empresas, médias empresas, pequenas e micro. E uma economia saudável é uma economia onde existe uma boa representação dessa classe de empresas, porque cada uma tem o seu papel no desenvolvimento económico. E o nosso papel, na SFI, é de ajudar a sustentar esse continuum. Nós fazemos intervenções a cada nível, mas intervenções diferentes. Numa empresa de tamanho grande ou médio fazemos investimentos directos, de tamanho pequeno fazemos muito mais intervenções através de instituições financeiras e depois também financiamos empresas que fazem micro-finança. Isto quer dizer que com este conjunto de actividades tentamos cobrir da mais pequena empresa até à maior. E é importante fazê-lo, mas não se pode chegar e ver uma micro-empresa e propor o mesmo tipo de documentação jurídica e de trabalho como fazemos a uma empresa grande. É preciso adaptar e isso é parte do que nós estamos a fazer.

As épocas de crise são alturas em que as economias mais pequenas sofrem mais e uma das saídas para essas crises é muitas vezes a emigração. Que entraves é que isto pode pôr ao desenvolvimento do país?

A emigração tem aspectos negativos e positivos. Nós vemos sempre os aspectos negativos como a perda de mão de obra qualificada de um país que necessita dessa mão de obra. O lado positivo, que muitas vezes esquecemos, é a constituição de uma diáspora que depois pode regressar ao país não só com capital, mas ainda mais importante com conhecimento. E o conhecimento da diáspora contribui para o desenvolvimento do país. Agora, vistos os aspectos negativos da emigração, acho que também é muito importante ver o que é que se faz para desenvolver o país para que só vão para fora aqueles que realmente querem e não porque têm de ir. Para isso é muito importante desenvolver um tecido económico no país apoiando as empresas, particularmente as pequenas e as médias. Porque são elas que criam muito emprego e é isso que nós estamos a fazer. Mas temos de ver, nesta questão da emigração, como podemos recuperar o lado positivo.

Texto publicado originalmente na edição nº1089 do Expresso das Ilhas de 12 de Outubro 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Andre Amaral,15 out 2022 8:59

Editado porJorge Montezinho  em  17 out 2022 9:13

pub.

pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.