Perante a actual conjuntura económica será que os pais ainda conseguem fazer poupança para os filhos?

PorSheilla Ribeiro,6 nov 2023 8:54

Num cenário económico desafiador, as decisões dos pais sobre a poupança para a educação dos seus filhos variam amplamente, reflectindo tanto o esforço quanto os obstáculos que enfrentam. Enquanto alguns lidam com desafios como a falta de contas poupança e a tentativa de educar os seus filhos financeiramente, outros conseguem criar contas exclusivas para essa finalidade, mesmo que isso envolva sacrifícios e adaptações.

Amara Pereira, mãe de um rapaz de oito anos, revela que, por uma série de circunstâncias, ainda não criou uma conta poupança para seu filho.

"Eu não criei uma conta poupança para o meu filho por desleixo, porque fui ao banco criar e pediram-me um documento que na altura não tinha. Por preguiça acabei por deixar para depois e nunca mais fui. Mas, penso em criá-lo uma conta brevemente", justifica.

Apesar de não ter uma conta poupança formal para o seu filho, Amara não negligencia a educação financeira, fazendo experiências que mostram a importância de se poupar.

" A minha sogra deu-me um dinheiro que era para dividir entre o meu filho e o primo dele. Dividi e dei-lhe 200 escudos que era para gerir durante uma semana. No primeiro dia, entretanto, foi à escola e gastou-o de uma só vez na escola com coisas doces. Tive de falar com ele e ensinar por que não se deve gastar todo o nosso dinheiro de uma vez, que é preciso economizar", conta.

Amara também reconhece o desafio de educar o seu filho sobre finanças, especialmente quando ele é propenso a gastar.

"Depois dessa primeira experiência tentei outras vezes mas também não deu certo, ainda é muito esbanjador. Dei-lhe um cofre, inclusive, mas não obtive resultados, se colocar uma moeda hoje, amanhã vai ao cofre apanhar outra vez. O problema é que temos uma vizinha que vende doces no tabuleiro, então o mínimo de moedas que eu dou para colocar no cofre, ele destampa e vai comprar doces, sou consciente que tenho um trabalho duro pela frente quanto a educação financeira", diz.

No entanto, Amara está determinada a criar uma conta poupança para seu filho, já que acredita que não é difícil poupar, mesmo perante a crise.

Para Edna Carvalho, a ideia de uma conta poupança surgiu imediatamente após o registo de nascimento do filho, com o objectivo de garantir um futuro financeiramente seguro, principalmente para custear os seus estudos.

Contudo, Edna destacou que a realidade financeira da família trouxe desafios inesperados para a manutenção da conta poupança.

"A ideia era colocar, todos os meses, uma determinada quantia na conta e nós não poderíamos mexer naquela conta. Apenas o nosso filho poderia mexer na conta quando tivesse idade suficiente para isso. Essa poupança serviria para custear os estudos dele, ou algo que no futuro se mostrasse de extrema necessidade. Mas, principalmente para custear os estudos", esclarece.

A mãe revela que, embora a intenção original fosse poupar regularmente, a vida trouxe desafios inesperados e falharam em fazer o depósito mensal para a conta poupança.

"Em casa, temos um porquinho com algum dinheiro e há dias abrimos o cofre e tinha mais de dois mil escudos que depositamos na sua continha. Na conta mesmo, depositávamos o dinheiro de abono, mas fomos retirando. Para dizer a verdade, essa conta ficou mesmo só por abrir porque a ideia principal que tínhamos de transferir, mensalmente, um valor, caiu por terra porque não faz sentido fazermos uma poupança sabendo que temos outras pendências, outras prioridades, porque a criação de um filho não é apenas o futuro, mas também o presente”, afirma.

A ideia de Edna e o marido é retomar, o quanto antes, o plano de poupança mensal. Para isso, têm estado a organizar, financeiramente, para que desta vez consigam cumprir esse objectivo.

“Percebemos que essa conta poupança é algo importante a se fazer, até porque, no futuro, vai nos trazer um certo alívio financeiro, já que não teremos de nos preocupar em como pagar a universidade", acredita.

Edna Carvalho também reconhece os desafios financeiros enfrentados por muitas famílias perante a actual conjuntura económica, e diz que está difícil poupar.

"Os salários mantiveram-se, e houve um aumento de preços generalizado, em alguns produtos houve um aumento de 50%. Sem falar que muitos pais têm de pagar um jardim, mais ou menos seis mil e quinhentos escudos para poder trabalhar, mais o lanche e outras despesas, com o mesmo salário de quando o custo de vida era menor. Se antes era difícil poupar, hoje é ainda mais difícil”, considera.

Mais do que poupança, um legado

Por sua vez, Diva Pereira, acredita que a poupança não é apenas uma responsabilidade financeira, mas um legado a ser transmitido às próximas gerações.

Conforme revela, com o marido, estabeleceram contas poupança para cada um dos seus três filhos, depositando mensalmente uma quantia considerável.

"Criamos essas contas pensando no futuro, quando chegar a altura de fazer licenciatura. Depois do 12.º ano, quando os filhos vão para a universidade, podemos não ter esse dinheiro. Apesar de saber que o banco pode financiar, mas quanto menos a pessoa vai ao banco pedir dinheiro emprestado, melhor. Foi nesse sentido que criamos essas contas, para ajudar, apesar de não transferirmos uma grande quantia para essas contas já ajuda muito", explica.

Diva planea aumentar gradualmente o valor transferido mensalmente para as contas poupanças dos seus filhos, reconhecendo que isso pode ser mais benéfico a longo prazo.

"Quero aumentar esse valor já que acabo por gastar o dinheiro com outras coisas sem relevância. Para mim não é difícil fazer essa poupança, prefiro nem pensar que podia fazer outra coisa com esse dinheiro porque senão será pior, faço um esforço", garante.

Esta mãe que preparou as contas poupança dos filhos desde cedo, agora, à medida que a sua filha mais velha conclui o 12.º ano, ela está preparada para utilizar essa poupança para sustentar os custos da universidade. Embora reconheça que o dinheiro economizado talvez não cubra todos os gastos.

Importância de poupar para o futuro dos filhos

Segundo a Consultora em Educação Financeira, Hermem Freire, iniciar uma poupança para os filhos desde cedo, oferece tranquilidade aos pais e responsáveis, uma vez que estão a tomar medidas para garantir um futuro financeiramente seguro para suas crianças.

"Começar a poupança desde cedo para os filhos oferece diversos benefícios, uma delas é a tranquilidade para os pais e responsáveis, sabendo que estão a tomar medidas para garantir um futuro financeiramente seguro para os filhos", afirma Hermem Freire.

Entre os benefícios destacados estão a capacidade de cobrir despesas educacionais, a preparação para imprevistos financeiros e a oportunidade de fornecer aos filhos a liberdade de aproveitar oportunidades futuras, como empreender, viajar ou investir nas suas próprias metas financeiras, oferecendo-lhes maior controle sobre as suas vidas financeiras.

Hermem Freire também ressaltou a importância de estabelecer metas claras ao poupar para os filhos, enfatizando o conceito SMART (específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazos definidos).

"Pergunte a si o que deseja alcançar ao investir nos filhos, seja para pagar pelo ensino superior, apoiar os seus sonhos de empreendedorismo ou criar um fundo de emergência para o futuro", aconselha.

Para criar um fundo financeiro sólido desde a infância, Freire sugere que os pais determinem a quantia a ser poupada usando um orçamento familiar, identificando as suas despesas essenciais, definindo metas de poupança e ajustando os seus gastos de acordo. Isso, segundo ela, é essencial para garantir a estabilidade financeira.

Além disso, Freire menciona a "regra 50-30-20", que divide o orçamento em três grupos: 50% para gastos essenciais, 30% para gastos variáveis e os 20% restantes para objectivos de longo prazo, como a poupança para os filhos.

Contudo, Freire alerta que é importante equilibrar as prioridades financeiras, garantindo a poupança tanto para os filhos quanto para a aposentadoria.

"Os pais devem entender que, embora economizar para os filhos seja importante, a sua própria segurança financeira na aposentadoria também é crucial. Portanto, é essencial priorizar ambas as metas financeiras e estabelecer um equilíbrio adequado", diz.

A consultora também ressalta a necessidade de educar e incentivar os filhos sobre finanças desde cedo, por mesadas, responsabilidades em casa e discussões abertas sobre dinheiro.

Por fim, Hermem Freire destaca os desafios práticos e emocionais que os pais podem enfrentar ao economizar para os filhos, incluindo riscos de investimento, a ameaça da inflação, mudanças nas circunstâncias financeiras e nas metas dos filhos.

A consulta aconselha que os pais estejam preparados para adaptar o seu plano de poupança às mudanças económicas e financeiras.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,6 nov 2023 8:54

Editado porAndre Amaral  em  6 nov 2023 12:34

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