Pela terceira vez consecutiva, a ilha do Sal acolheu o Global Carrier Connectivity Meeting (GCCM) África, o maior encontro dedicado ao continente da comunidade internacional de operadores de telecomunicações. A edição deste ano voltou a bater recordes de participação e confirmou Cabo Verde como anfitrião permanente do evento, que, a partir de agora, passa a realizar-se todos os anos no mês de Junho.
Para a administradora executiva da CVTelecom, Isa Neves, este percurso representa muito mais do que o simples sucesso de uma conferência internacional. É o reflexo directo da estratégia da empresa para posicionar Cabo Verde como uma plataforma de conectividade de referência entre África, a Europa e as Américas.
A génese do sucesso no Sal
A ideia de trazer o GCCM para Cabo Verde surgiu quase de forma espontânea em 2023. Isa Neves recorda uma conversa fundamental com Wida Schmitz, CEO da organização, num momento em que esta procurava um país africano para receber o encontro pela primeira vez. "Como todo o cabo-verdiano é atrevido, disse-lhe: por que não experimentar Cabo Verde?", recorda a administradora.
A proposta foi recebida com alguma prudência. As dúvidas da organização incidiam, sobretudo, na capacidade logística do país: as ligações aéreas, a oferta hoteleira, a qualidade das salas de conferência e a experiência na organização de um evento desta magnitude. Segundo a responsável, a resposta da CVTelecom foi contundente: demonstrar que Cabo Verde não reunia apenas as condições mínimas necessárias, mas possuía a qualidade exigida para acolher um encontro internacional desta envergadura.

Os preparativos arrancaram em Novembro e culminaram, poucos meses depois, com a realização da primeira edição na ilha do Sal. Desde então, o evento tem crescido de forma consistente. Nesta terceira edição, o número de participantes aumentou mais de 20% face ao ano anterior, reunindo alguns dos principais operadores internacionais que participam regularmente em encontros do sector realizados na Europa, Médio Oriente, África e Américas. O sucesso foi imediato e, no final da primeira edição, a organização confirmou a continuidade do evento no arquipélago. "Não foi propriamente uma surpresa, mas foi muito gratificante perceber que entregámos exactamente aquilo que tínhamos prometido", afirma Isa Neves. O crescimento da iniciativa obrigou a um reajuste no calendário: após uma estreia em Abril e uma segunda edição em Fevereiro, o mês de Junho passou a ser a data definitiva, permitindo uma melhor articulação com outros eventos do sector.
Uma comunidade onde se fazem negócios
Mais do que uma conferência técnica, o GCCM constitui uma plataforma mundial que reúne mais de 300 operadores de telecomunicações para a partilha de conhecimento, discussão das principais tendências do mercado e o desenvolvimento de novas oportunidades comerciais. Ao longo de vários dias, decorrem conferências, mesas-redondas e apresentações conduzidas por especialistas internacionais, permitindo às empresas participantes aceder gratuitamente a conhecimento altamente especializado, muitas vezes difícil de obter, sobretudo para operadores de menor dimensão.
Contudo, a componente comercial é igualmente determinante. "Há efectivamente negócios. As pessoas compram, vendem capacidade. Não vêm cá apenas para passear", sublinha Isa Neves. É precisamente essa vertente que a CVTelecom pretende potenciar, aproveitando o encontro para reforçar a sua presença internacional e estabelecer novas parcerias estratégicas.
Cabo Verde como hub digital
Para a administração da CVTelecom, a realização consecutiva do GCCM no arquipélago reforça a imagem de Cabo Verde como uma plataforma de conectividade. A localização geográfica, entre três continentes, é um dos seus maiores activos. No entanto, a administradora sublinha que essa vantagem só produz resultados quando acompanhada por investimento contínuo em infraestruturas tecnológicas.
É neste contexto que a CVTelecom tem expandido a sua actividade para além do mercado nacional, comercializando capacidade internacional junto de operadores da Europa, África e Américas. Os cabos submarinos EllaLink e WACS, que inicialmente asseguravam as necessidades de conectividade interna, passaram a desempenhar um papel abrangente, transportando tráfego internacional entre diferentes continentes. Hoje, através destas infraestruturas, circulam comunicações que chegam ao Brasil, Estados Unidos, diversos países europeus e mercados africanos como Senegal, Nigéria e Quénia.
Esta aposta responde também às limitações naturais do mercado nacional. "Somos cerca de 500 mil habitantes. O mercado interno já não tem grande margem para crescer. Precisamos de rentabilizar os investimentos que fazemos", explica Isa Neves. O crescimento internacional tornou-se indispensável para garantir a sustentabilidade financeira dos investimentos necessários à manutenção de uma rede moderna, resiliente e preparada para as exigências crescentes. Garantir baixa latência, elevada disponibilidade e redundância implica investimentos significativos, difíceis de suportar apenas com a dimensão do mercado nacional. Actualmente, a empresa mantém relações comerciais com operadores do Brasil, Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola e África do Sul, consolidando a sua presença global.
Infraestruturas: Cabos submarinos e centros de dados
Após consolidar a presença internacional, a prioridade é reforçar as infraestruturas que sustentam essa estratégia, focando-se em duas áreas essenciais: cabos submarinos e centros de dados. No que toca à rede interilhas, a substituição dos cabos existentes é uma prioridade, pois a infraestrutura aproxima-se do fim da sua vida útil e a empresa considera indispensável garantir uma rede robusta.
Também os centros de dados ocupam um lugar central. Recorrendo à expressão "os dados são o novo petróleo", Isa Neves lembra que a empresa, que já dispõe de um centro de dados em funcionamento e tem em carteira uma infraestrutura de maior dimensão e com padrões tecnológicos mais exigentes. O objectivo é responder às necessidades de clientes que procuram alojar informação em ambientes seguros, resilientes e certificados. Segundo a administradora, já existem empresas estrangeiras a utilizar infraestruturas instaladas no país, tendência que deverá intensificar-se com o reforço da capacidade tecnológica nacional.
Resultados concretos do GCCM
Para além da visibilidade, o encontro no Sal traduziu-se em resultados práticos. Na área dos centros de dados, foram identificados dois novos potenciais clientes (um africano e outro europeu) com quem já decorreram reuniões de trabalho. Paralelamente, a CVTelecom fechou um contrato com um operador do Senegal que representará uma receita mensal significativa.
As reuniões permitiram ainda acelerar negociações estratégicas. É o caso da Angola Cables, com quem os contactos ganharam novo impulso, e da portuguesa MEO, cujas conversações registaram avanços relevantes. Grande parte destes acordos relaciona-se com a comercialização de capacidade nos cabos submarinos. No caso da Angola Cables, a parceria vai além: as duas empresas estudam mecanismos de cooperação assentes na troca de capacidade permitindo optimizar recursos e criar novas oportunidades para ambas.
Um futuro digital baseado na inclusão
Questionada sobre a visão para o desenvolvimento digital de Cabo Verde, Isa Neves distingue a estratégia da empresa das políticas públicas do Estado, mas acredita que o país reúne condições para se afirmar como uma plataforma digital de referência. A ambição passa por transformar Cabo Verde num centro regional de conectividade, alojamento de dados, serviços digitais e criação de emprego qualificado.
Contudo, defende que esse desenvolvimento só faz sentido se beneficiar toda a população. "Independentemente da ilha ou da comunidade onde se vive, todos devem ter acesso. Se não for inclusivo, não vale a pena", sustenta. A empresa mantém o investimento para reduzir zonas sem cobertura e pretende tornar os serviços mais acessíveis economicamente, preparando novas ofertas comerciais. A sustentabilidade ambiental é outro eixo: a empresa acelera o investimento em sistemas de energia solar, contando já com infraestruturas alimentadas exclusivamente por painéis fotovoltaicos, reduzindo custos operacionais e a dependência energética.
Desafios: Talento, IA e infraestrutura
Apesar dos progressos, o sector enfrenta desafios exigentes: o consumo acelerado de dados e a rápida evolução tecnológica obrigam a um investimento contínuo. Numa geografia arquipelágica, assegurar uma cobertura de qualidade é complexo, mas a prioridade urgente é a renovação da rede interilhas e o estudo de um terceiro cabo submarino internacional para garantir redundância ao WACS, complementando o EllaLink e o cabo SHARE (parceria com a Senegal Numérique).
Além da infraestrutura, a transformação digital, a incorporação de Inteligência Artificial e, sobretudo, a formação de recursos humanos são decisivas. "O sector muda a uma velocidade enorme. Precisamos de pessoas com novas competências", afirma Isa Neves, realçando que a renovação geracional em curso na CVTelecom visa integrar profissionais preparados para as novas exigências tecnológicas.
Três anos de mudança no posicionamento internacional
O balanço dos três anos de GCCM África é claramente positivo. O evento tornou-se parte da agenda internacional dos principais operadores; as inscrições esgotam mais cedo, os patrocinadores aumentam e a componente técnica e formativa atrai especialistas de topo. Nos debates, realizados integralmente em inglês sobre temas como soberania dos dados e evolução tecnológica, os quadros cabo-verdianos participam de igual para igual. "As pessoas não estão ali para fazer de coitadinhas", declara Isa Neves.
Após três edições, Cabo Verde deixou de ser apenas anfitrião para se tornar um interveniente activo, capitalizando a sua posição estratégica no Atlântico. Enquanto prepara a quarta edição, a CVTelecom reafirma que o caminho é continuar a investir em conectividade, infraestruturas e talento. Numa economia digital, a localização geográfica é uma vantagem, mas só produz valor quando acompanhada de visão estratégica, capacidade de investimento e uma presença firme nos mercados internacionais.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.
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