Projecto inovador vai ensinar programação às crianças

PorSara Almeida,9 abr 2017 6:19

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Num mundo global e cada vez mais informatizado, a literacia digital e a computação são instrumentos fundamentais de inclusão, criação de oportunidades e sucesso. Assim, proporcionar às crianças conhecimentos sobre as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) assume-se como uma aposta educativa crescente. É neste contexto que, em Cabo Verde, nasceu o projecto Coding “Introdução à Programação”, que arrancou na semana passada com uma formação aos professores e vai abranger três escolas-piloto. 

Na sala de informática da escola Secundária Cesaltina Ramos, na Praia, encontramos vários formandos, debruçados atentamente sobre os seus computadores, enquanto um formador percorre a sala atendendo às suas dúvidas. No quadro está projectado um interface, com vários blocos alinhados. Cada um contém um comando. Aqui programa-se em Scratch, uma das linguagens de interface gráfica mais populares no mundo.

Estamos na sala da Formação “Introdução à Programação”, destinada a professores do ensino básico que irão replicar os conhecimentos adquiridos com os pequenos alunos. É a primeira fase do projecto Coding, promovido pelo Ministério da Educação, através da Direcção Nacional da Educação, e em parceria com a Comissão Nacional da Unesco (CNU), a Cooperação portuguesa e a empresa Green Studio (que teve a iniciativa).

Já a partir da próxima semana, o projecto-piloto arranca em três escolas associadas da UNESCO: as EB de Achada Grande Frente e SOS, na Praia, e a escola de Achada Leitão, em Picos, São Salvador do Mundo.


Scratching e projectando

A computação e as TIC têm, na realidade, vindo a posicionar-se, a nível educativo, ao lado de disciplinas tradicionais como a biologia, a matemática ou a física. Uma nova literacia ganha terreno: o código.

Como diz Gloria Ribeiro da Comissão Nacional da Unesco, “no mundo actual globalizado, não basta saber aceder à tecnologia.  Hoje as crianças sabem, intuitivamente, usar programas dos smartphones, tablets, etc., sejam eles de conteúdos lúdicos (jogos, p.ex.) ou de informação e de conhecimento. Mas nos dias actuais – em que a ciência, a tecnologia e a inovação ditam os sucessos dos homens e dos países,  é tão importante aprender a programar quanto aprender a ler e a escrever.”

Assim, “este projecto de “Programação” visa criar novas competências nos mais jovens, propiciadoras de uma Sociedade de Fazedores/Criadores, em contraponto com uma Sociedade de Utilizadores”, sublinha.

Mas o que se faz ao certo  no  Coding  - “Introdução à Programação?

Aqui é ensinada uma popular linguagem de programação, a Scratch, que foi desenvolvida por Mitch Resnick ,  do  MIT, especialmente a pensar nas crianças, explica o formador Eduardo Brinca, que é responsável de informática das empresas do grupo Green Studio .

A plataforma, que é gratuita, permite criar, por exemplo, histórias interactivas, jogos, animações.

A Scratch funciona com blocos, que correspondem a instruções e que vão encaixando, seguindo a sequência de programação . “Temos todos os conceitos normais da programação: as sequências, as repetições…”  Ao funcionar por blocos (ao ter essa interface gráfica) elimina-se por exemplo os erros de sintaxe.

“Se falar com os estagiários [da UniCV], de certeza que todos eles já perderam horas à procura de um ponto e vírgula que faltava”, comenta o programador. 

Há várias ferramentas para crianças, mas a linguagem Scratch é, sem dúvida, a melhor e mais usada no mundo, reforça. 

Na formação, além da linguagem, são abordados “também alguns conceitos das ciências de computação que serão úteis às crianças em qualquer área de actividade que venham a escolher”, explica Eduardo Brinca. 

Aliás, como salienta, o objectivo não é “criar programadores, é mudar a maneira de raciocinar das crianças para daqui a uns anos termos uma geração de em vez de meros utilizadores sejam criadores, pessoas que saibam resolver problemas”.

É como o ler e o escrever, compara Eduardo Brinca. “Aprendemos a ler e escrever e isso permite-nos depois aprender muitas outras coisas. É isso estamos a fazer isso aqui também”. Ou seja, através aprende-se a programar e, posteriormente, a programação permite fazer muito mais. 

 

Programando o futuro 

O Coding segue iniciativas que já se têm vindo a tomar em outros pontos do globo, e visa prover as crianças cabo-verdianas com competências que se estão a assumir como universais. “Devidamente estimuladas e orientadas, as nossas crianças poderão explorar o seu potencial”, com resultados semelhantes aos das outras crianças em qualquer parte do chamado mundo desenvolvido, aponta Adriana Mendonça, Directora Nacional da Educação. 

Assim, este programa, defende, não só se constitui como uma forma de proporcionar as nossas crianças com conhecimentos que lhes podem abrir oportunidades como mostra que é possível iniciar a programação desde tenra idade. 

“Esta iniciativa que representa um piloto daquilo que se faz em países mais desenvolvidos, é uma acção importante realizada hoje para dar frutos num futuro breve”, refere também Glória Ribeiro. 

Além disso, diz a secretaria executiva da CNU, vai de encontro ao que se tem definido como objectivo “importantíssimo” da educação no continente Africano: o acesso à Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI).

Nesse sentido há uma outra mais valia neste projecto made in Cabo Verde: ele será “reportado à UNESCO como exemplo de boas práticas, para implementação em outros países do nosso continente, da lusofonia e outros.”

O relatório, explica, “incluirá a descrição de todas as etapas da formação e seus conteúdos, o nível de “aquisição” da formação dos professores do ensino básico e, brevemente, o nível de aprendizagem dos alunos.” A expectativa é que a UNESCO aproveite e projecto e o recomende, através das Comissões Nacionais dos países africanos. “Desse ponto de vista é também importante para o Ministério da Educação de Cabo Verde”, aponta a secretária executiva.  

 

Mais um pé nas TIC

Num contexto global onde, reconhecidamente, a criação de mais oportunidades para as crianças passa pelo domínio das TIC, o projecto de Saulo Montrond, CEO e fundador da Green Studio, só poderia ser bem recebido. 

“Há já uns cinco anos que na Green Studio estamos a acompanhar o processo das single boards computers e tudo o que está à volta deles. Então, surgiu este projecto, ideia do Saulo”, explica Eduardo Brinca, responsável de informática das empresas do grupo Green Studio e Formador do projecto Coding  - “Introdução à Programação”.

O Coding, que visa ensinar programação às crianças, à semelhança do que já é feito em várias partes do mundo, foi apresentado à Comissão nacional da UNESCO (presidida pela Ministra da Educação, Maritza Rosabal) e ao próprio Primeiro-Ministro. Todos concordaram que este projecto pro bono da Green Studio, era algo em que valia a pena apostar.

Até porque, como avalia Adriana Mendonça, Directora Nacional da Educação, o projecto encaixa perfeitamente em todo o “trabalho que se está a fazer” a nível educativo em Cabo Verde, “com  vista ao alcance dos objectivos do desenvolvimento sustentável” -  particularmente “o objectivo 4, que está relacionado com a educação de qualidade”, numa perspectiva universal .

Também a secretária executiva da Comissão Nacional de Cabo Verde para a Unesco (CNU), Glória Ribeiro, realça a pertinência deste projecto, no âmbito das funções desta Comissão. 

A CNU ”está sempre à procura de iniciativas inovadoras para serem implementadas, muitas vezes em projectos piloto,  pelas Escolas Associadas da UNESCO de Cabo Verde”. E o projecto vai ao encontro dos “sucessivos  programas da UNESCO em matéria de apoio ao desenvolvimento da CTI [Ciência Tecnologia e Inovação ] nos países do continente Africano.”  

Como realçam igualmente estas duas responsáveis, este projecto alinha ainda com o programa do governo, que que preconiza uma “educação de excelência, equitativa e inclusiva… integrada no conceito da economia do conhecimento e num ambiente escolar e universitário com cultura de investigação, experimentação e inovação…”. Nesse sentido, recordam que o Ministério da Educação está já, inclusivamente, a preparar a introdução do ensino das TIC no próximo ano lectivo (2017-2018), a partir do 5º ano de escolaridade.

 

O projecto

A primeira fase do projecto-piloto Coding consiste, na formação de professores, que arrancou no dia 27 de Março e termina no próximo dia 7 de Abril. Nela participam 25 docentes das turmas alvo (turmas do 1 ao 4ª anos de escolaridade).

 Aqui, e conforme explica o formador Eduardo Brinca, os professores aprendem a usar a ferramenta (o Scratch), recebendo igualmente algumas directrizes de como a aplicar no dia a dia com os alunos.

Além dos cerca de 25 professores, participam na formação um técnico do serviço multimédia da DNE e 10 alunos estagiários da UNICV, que serão dinamizadores nas escolas e, assim está previsto, “disseminadores da experiência numa perspectiva de alargamento”,

A ideia é ir “já instigando os estagiários da área e a própria academia para este tipo de trabalho” explica, por seu turno a directora nacional de educação,  Adriana Mendonça, avançado que estes estagiários irão colaborar com a equipa durante toda a duração do projecto.

A partir de dia 9 de Abril, inicia-se a segunda fase, em que o projecto é levado às salas de aula, e que culminará numa feira, a decorrer no início de Junho em Picos e na Praia. Aí serão apresentados os trabalhos desenvolvidos pelos alunos no âmbito do Coding.

 

As Feiras 

No final do piloto Coding , logo no início de Junho serão realizadas duas feiras (uma na Praia e outra em Picos), onde será possível ver os trabalhos realizados pelos alunos ao longo do trimestre. 

Aí, está previsto mostrar não só o que os alunos fizeram com o Scratch, mas também um projecto especial por escola, “provavelmente com alunos mais velhos” e que mostrem maior apetência e gosto, pois “vai um bocadinho além do que estamos aqui a fazer”.

Numa das escolas prevê-se, usando uma “single board computer”, fazer um sistema de controlar o sistema de rega gota-a-gota que vai ficar a funcionar na escola. Numa outra, o projecto delineado é um drone. “É possível fazê-lo com pouco dinheiro e as crianças vão” construi-lo, garante. 

Para uma outra escola esta previsto, como projecto especial, fazer um smartphone, provavelmente em módulos separados, mas que mostre como é possível fazer receber chamadas. 

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 801 de 05 de Abril de 2017.


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Autoria:Sara Almeida,9 abr 2017 6:19

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  9 abr 2017 11:31

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