‘NaNosMon’ : Apresentado aplicativo móvel de rastreamento da doença

PorAndre Amaral,29 jun 2020 13:06

Estes tempos de COVID-19 são, sem dúvida, tempos de crise e dificuldades várias. Mas são também tempos com espaços abertos para a inovação. Um grupo de cidadãos juntou-se e, usando as novas tecnologias, criou um aplicativo que permite o rastreamento de casos da doença em tempo real via telemóvel. Hélio Varela, um dos criadores da aplicação ‘NasNosMon’ explica como tudo funciona e qual o objectivo deste software que vai estar ao alcance de cada um de nós.

Comecemos pela pergunta óbvia. O que é a app ‘NaNosMon’?

É um aplicativo, desenvolvido por um grupo de cidadãos cabo-verdianos, para o rastreamento de contactos digitalmente, com o objetivo de combater a propagação do novo coronavírus. Com o desconfinamento ficou claro o aumento de casos positivos. Era uma situação previsível, pois o vírus tem mais espaço de propagação. Existe o risco de piorar com a abertura das fronteiras. Actualmente a forma de rastrear contactos próximos de quem contraiu o vírus é manual. Se os números dispararem será difícil manter o controlo da situação. NaNosMon visa exactamente complementar o actual rastreamento manual, de forma a que possamos desconfinar e abrir as fronteiras de forma mais controlada.

Sendo um aplicativo de rastreamento como é que vai funcionar? O que é preciso?

É bastante simples. Basta descarregar o aplicativo a partir das lojas da Google ou Apple, e o resto é feito de forma automática e totalmente anónima pelo aplicativo.

Sempre que se fala em utilizar novas tecnologias levanta-se a questão da privacidade do utilizador e a protecção de dados. Como serão assegurados estes dois pontos com a ‘NaNosMon’?

Essa é a parte mais forte do NaNosMon. Este aplicativo segue na íntegra o protocolo Europeu DP-3T (Decentralized, Privacy-Preserving Proximity Tracing). Este protocolo, aprovado pela Comissão Europeia e apropriado pela Google e Apple, tem a privacidade, anonimato e protecção dos dados pessoais como valores fundamentais. Toda a informação de rastreio, para além de ser anónima, é registada nos telemóveis e em momento algum é processada centralmente. Toda a interacção do cidadão com o aplicativo é anónima e voluntária.

Em termos de eficácia da aplicação. Não basta apenas ter um smartphone. Quais os passos necessários para que esta aplicação funcione de forma plena?

Para que este aplicativo seja efetivamente eficaz e ajude na retracção da propagação do vírus, tem que haver uma adesão em massa pela população. Se não houver escala, a eficácia deste instrumento será muito reduzida. Fazendo uma comparação com o uso das máscaras, é uma situação muito semelhante. Se for usada pode minimizar a propagação e salvar vidas humanas. A utilização deste aplicativo depende do exercício de cidadania de todos nós, onde somos estimulados a pensar em nós, na nossa família e na nossa comunidade.

E quanto ao número de utilizadores, qual a percentagem de utilizadores necessária para que os dados ali trocados produzam resultados fiáveis?

Segundo um estudo da Universidade de Oxford, haverá uma forte retracção da propagação, caso se consiga que pelo menos 56% da população utilize o aplicativo. É um desafio da Nação Cabo-verdiana, que acreditamos ser possível atingir.

Consegue concretizar números? Quantos utilizadores serão necessários a nível nacional para que os dados sejam fiáveis?

Na cidade da Praia temos a expectativa de ter 66.000 pessoas a descarregar o aplicativo. O mesmo rácio aplica-se nas zonas mais afectadas.

Os dados vão ser armazenados? Vão ser utilizados apenas para rastreamento dos casos de COVID-19?

Como referi, os dados de rastreamento serão armazenados nos nossos telemóveis de forma anonimizada e após 21 dias são automaticamente eliminados do próprio telefone. A relação com um servidor central só existe para comunicar anonimamente para a comunidade que poderá ter estado em contacto com um cidadão que contraiu o Coronavirus. Mesmo esses dados de comunicação, que repito são anónimos, são apagados ao fim de 72 horas. O sistema está desenhado para eliminar toda a informação assim que terminar a pandemia.

Que passos faltam para que a aplicação esteja disponível ao público?

Após a necessária aprovação da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), e a publicação no BO no dia 20 de Junho, tornando o NaNosMon no aplicativo oficial de rastreamento em Cabo Verde, submetemos para a Google e Apple a solicitação de introduzirem o aplicativo nas suas Lojas. Acreditamos que demorará cerca de 15 dias a disponibilização do NaNosMon nas lojas internacionais. O Governo determinou igualmente um período de testes controlados para que as entidades sanitárias possam sentir e calibrar este importante aplicativo. Após esse exercício então NaNosMon ficará disponível para a sociedade. Acredito que nos primeiros dias de Julho venha a estar disponível nas lojas

E qual a data de lançamento?

Não existe uma data oficial, uma vez que a Google e a APPLE não se comprometem com um tempo de resposta. Mas acredito que em Julho estará disponível para uso.

A app será gratuita?

Sim. O aplicativo será gratuito e as operadoras CV Telecom e UNITEL T+ irão permitir que quem o quer descarregar, que quer a sua utilização, não necessite de Megas disponíveis.

A Apple e a Google têm políticas bem definidas quando à gestão e armazenamento de dados. Esta app cumpre essas políticas?

Na verdade a Google e a Apple inspiraram a sua solução (API Exposure), exactamente no mesmo protocolo (DP-3T) em que desenvolvemos a nossa solução. Assim sendo, existe total “compliance” com os requisitos da Google e Apple.

Há também a questão da interconectividade com outras aplicações do género que estão a ser criadas a nível mundial. Isso vai acontecer com a ‘NaNosMon’? Será possível viajar de Cabo Verde para outro país e usar o ‘NaNosMon’?

Esse é um ponto fundamental. O protocolo DP-3T está a transformar-se num standard internacional. No próprio protocolo está prevista a interoperabilidade entre os diferentes Países. Assim sendo, este aplicativo estará integrado com os aplicativos semelhantes na Europa e outras partes do mundo. Um cabo-verdiano que viaje para qualquer País Europeu verá a NaNosMon a funcionar como se estivesse em Cabo Verde

E o contrário? Um turista que chegue a Cabo Verde tem assegurada a interconectividade entre o aplicativo que esteja a usar e o ‘NaNosMon’?

As viagens entre Europa e Cabo Verde, por exemplo, serão bastante mais seguras, pois os aplicativos continuarão a funcionar entre os países. Este facto poderá acelerar a confiança dos turistas a visitarem Cabo Verde, que está a seguir os padrões Europeus. De referir que NaNosMon está a arrancar ao mesmo tempo que muitos Países Europeus e, em alguns casos, estão à frente.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 969 de 24 de Junho de 2020. 

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Autoria:Andre Amaral,29 jun 2020 13:06

Editado porSara Almeida  em  4 jul 2020 23:20

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