Há ciência (e vida) para lá da pandemia

PorNuno Andrade Ferreira,3 jan 2021 9:19

A covid-19 fez as manchetes, mas outros feitos científicos mudaram a nossa perspectiva sobre a vida e o universo. Seleccionámos cinco exemplos.

1.A 28 de Abril, num brevíssimo milésimo de segundo, uma rajada rápida de ondas de rádio (fast radio burst) atingiu o planeta Terra. Depois de meses de trabalho, astrónomos perceberam a origem do estranho sinal, abrindo portas a uma resposta há muito procurada. Na revista Nature, um grupo de cientistas revelou que uma das possíveis fontes desses fenómenos será um objecto estelar, magnetar, uma estrela jovem de neutrões, formada pelo remanescente de uma grande estrela depois da sua explosão, dona de um poderoso campo magnético.

2.Em Setembro, um artigo publicado na Nature Astronomy anunciou a detecção da molécula fosfina (PH3) na atmosfera de Vénus. A descoberta é uma prova importante de possível actividade biológica na alta atmosfera (cloud decks) do planeta. A detecção de PH3 não é uma evidência suficientemente robusta para se declarar a existência de vida, mas deixa pistas para próximas investigações.

3.As cientistas Emmanuelle Charpentier, francesa, e Jennifer A. Doudna, norte-americana, ganharam o Nobel de Química 2020, pelo desenvolvimento do método de edição do genoma. A dupla desvendou as chamadas ‘tesouras genéticas CRISPR/Cas9’, através das quais os cientistas poderão mudar, de forma muito precisa, o DNA de animais, plantas e microrganismos. A tecnologia tem um impacto revolucionário nas ciências da vida, abrindo portas para novas terapias de combate ao cancro ou para a cura de doenças hereditárias.

4.No primeiro fim-de-semana de Dezembro, a China anunciou a entrada em funcionamento de um reactor desenvolvido com o objectivo de criar energia por fusão nuclear e capaz de gerar temperaturas de 150.000.000ºC. Chamado de ‘sol artificial’ (o núcleo do Sol atinge 15.000.000ºC), este reactor funciona a partir da união de dois átomos leves, formando um núcleo mais pesado. A cada reacção de fusão é libertada uma grande quantidade de energia. Os entusiastas da técnica acreditam que estamos perante uma verdadeira alternativa limpa aos combustíveis fósseis.

5.Pela primeira vez numa década, um protótipo de vacina contra o VIH chegou este mês à fase 3 – a última – do processo de testagem, avançando para os ensaios clínicos, que se prolongarão durante os próximos 24 meses. A vacina, desenvolvida pela Janssen, recorre a um adenovírus modificado, a mesma técnica que o laboratório utilizou no seu projecto de imunizante para a covid-19.

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2020 foi um ano importante para a ciência?


Hélio Rocha

Investigador da Universidade Jean Piaget

Sim, na medida em que, devido à pandemia, houve uma aparente valorização dos resultados de estudos realizados por cientistas, que possibilitaram dar uma resposta rápida a uma situação de magnitude global, a covid-19. No entanto, devido ao foco na resposta à pandemia e também devido ao confinamento, muitas outras áreas científicas viram os seus trabalhos atrasados e o financiamento reduzido.

O ano também foi bom no quesito comunicação científica, uma vez que despertou muito interesse do público para as questões científicas. Por outro lado, revelou uma realidade muito preocupante, um grande grau de iliteracia científica.


Vânia Teófilo

Bolseira do Instituto de Higiene e Medicina Tropical

Creio que 2020 foi um dos anos mais importantes para a ciência, visto que a situação da covid-19 trouxe para a realidade diária uma necessidade de saber mais sobre os processos e procedimentos envolvidos nos estudos de saúde, desenvolvimento de vacinas, etc. Foi também reconhecida a importância do trabalho dos centros de investigação.

Infelizmente, também houve um aumento do cepticismo e desconfiança no processo científico, devido a declarações por vezes contraditórias das autoridades de saúde.

Enquanto para os investigadores este processo de assimilação de novas informações faz parte do desenvolvimento natural do conhecimento, para outras pessoas pode parecer um pouco caótico.


João Evangelista

Director da Faculdade de Turismo da Universidade Fluminense

O ano de2020 foi desafiador para a ciência.Enfrentar uma pandemia e, ao mesmo tempo, desenvolver pesquisas paracombatê-la, não é uma tarefa fácil.A pesquisa cientificaprecisa de tempo para identificar, diagnosticar e testar as hipóteses do problema.

Um factor que merece destaque nesta análise refere-se à cooperação científica entre pesquisadores de diferentes países e continentes.

O ano de 2020 reafirma o papel da ciência para a humanidade e confirma que acções de cooperação na ciência e outras áreas sempre produzirão melhores resultados do que acções individuais, principalmente quando se trata de um problema global. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 996 de 30 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,3 jan 2021 9:19

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 jan 2021 15:52

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