A participação da Stellar CV na IOAI começou muito antes da chegada a Astana. Na verdade, podemos recuar bastante, até uma outra competição: a FIRST Global Challenge, de robótica, em que Cabo Verde tem participado.
Pedro da Cruz dos Santos, então aluno do 12.º ano na Escola Industrial e Comercial do Mindelo (EICM), já tinha participado em quatro edições e prepara-se para a sua quinta e última FIRST Global Challenge, que decorre na Coreia do Sul de 7 a 10 de Outubro. Numa dessas edições, a de 2024, em Atenas, conheceu uma colega da Team Madagáscar com quem continua a manter contacto. Foi ela quem lhe falou da IOAI. Pedro pesquisou e avançou com uma proposta à direcção da escola e ao professor Jorge Michael Rocha, coordenador de TIC da EICM.
O professor viu o regulamento e questionou-se: "será que é possível mesmo?" Os valores envolvidos, a logística, a inexistência de precedente no país -tudo parecia "muito ambicioso". Mas decidiu-se: "Vamos tentar", disse.
A direcção da escola mostrou “abertura total”, e começou o processo que levaria o professor e quatro alunos à IOAI.
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O primeiro passo foi a acreditação do país, uma vez que Cabo Verde nunca tinha participado nesta Olimpíada. Era preciso mostrar que a EICM tinha condições técnicas para ser entidade organizadora e preparar uma equipa a nível competitivo.
Provou-se isso, e a escola foi acreditada. Seguiu-se a selecção de uma equipa nacional, como exigido pela organização. Jorge contactou escolas em todas as ilhas de Cabo Verde, e a adesão superou as expectativas: quase 500 alunos participaram na competição nacional, realizada sob a alçada da EduSpace, organização que apoia a competição internacional.
"São eles que controlam, por exemplo, a realização dos testes. Enviam os testes, nós aplicamos, e eles dão a avaliação", explica o professor.
Estávamos em Janeiro e começava então a competição nacional, num processo desenhado em fases sucessivas de afunilamento. "Começa com um teste teórico, fácil, para atrair mais participantes", refere, sublinhando que o objectivo não era apenas seleccionar uma equipa, mas também "despertar o interesse dos alunos para a área de inteligência artificial".
À medida que as provas avançavam, o nível de exigência subiu, filtrando um grupo de 11 finalistas (três raparigas e oito rapazes) que realizaram mais testes e também entrevistas em inglês. Aliás, o domínio do inglês foi fundamental, tendo em conta que toda a competição é em inglês.
A competição nacional prosseguiu e no fim, foram seleccionados os quatro alunos que, juntamente com o mentor Jorge Michael Rocha, formariam a Team Stellar CV: Alexandre Nascimento, José Aguiar e Pedro da Cruz dos Santos, os três da EICM, e Nilson Leite, da Escola Secundária Polivalente Cesaltina Ramos, na Praia.
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Selecção estava feita, faltava agora preparar os quatro alunos para uma competição para a qual Cabo Verde ainda não tinha qualquer experiência.
E o tempo não jogava a favor. Devido ao calendário de exames, tiveram apenas cerca de um mês de preparação mais intensiva, entre finais de Junho e Julho.
Era pouco, sobretudo porque havia muito para aprender. Os desafios da IOAI exigiam não só programação básica em Python, como machine learning, treino de modelos de inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados - áreas que ainda não fazem parte do currículo regular.
“É uma coisa que, para nós aqui em Cabo Verde, é um pouco complicada. Não ensinamos isso nas escolas”, resume Jorge.
E não era difícil apenas para os alunos. Também os treinadores - Jorge Michael Rocha e os professores Stephan Rocha e Estefânio Silva - tiveram primeiro de aprofundar os próprios conhecimentos para poderem orientar a equipa.
Mas todos estavam motivados.
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A meio da preparação, chegou a primeira grande complicação: a mudança do país anfitrião. A edição de 2026 estava prevista para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, mas razões de segurança, entre outras, levaram a organização a transferir tudo para Astana, no Cazaquistão. Para uma equipa que já lidava com orçamento apertado, foi um choque logístico. Ir para os Emirados não exigia visto. Ir para o Cazaquistão, sim, um visto presencial solicitado em embaixada, neste caso a de Lisboa.
“Foi o primeiro dia que pensámos em desistir”, recorda Jorge.
Pedir o visto em Portugal implicava novas camadas de burocracia. Era preciso obter visto Schengen– “essa parte também foi um pouco complicada” – e ficar em Lisboa, numa altura em que a equipa ainda não tinha financiamento garantido.
Mas não desistiram: negociaram com a organização e trataram de tudo online, com contactos por email com o cônsul do Cazaquistão em Lisboa. Resolvido esse capítulo burocrático, a equipa passou uma semana em Lisboa à espera da autorização, alojada num apartamento alugado para o efeito, aproveitando o tempo para continuar a treinar.
Tudo isto foi possível graças a um concurso interno da organização: "Têm uma competição de apoio financeiro para países que não conseguem arcar com as despesas. Fomos um dos 24 países seleccionados para receber esse apoio, que cobre a maior despesa, que são as passagens aéreas", conta Jorge Michael Rocha.
A esse apoio somou-se o de empresas nacionais, como NOSI, ENAPOR e MOAVE, com financiamento monetário; da IMPAR, que garantiu os seguros de viagem e a generosidade de uma emigrante cabo-verdiana, Isaura Frances, que, ao saber da campanha de crowdfunding criada para a viagem, ajudou a equipa a ultrapassar a meta estabelecida.
E de Lisboa partiram para Astana, uma cidade que desafiou a imagem que tinham do Cazaquistão: uma cidade moderna, segura, tecnológica. “É mesmo uma cidade futurista", descreve Jorge.
E um país onde, nota o professor, a inteligência artificial é assumida como prioridade nacional, integrada na estratégia de desenvolvimento tecnológico do país.
destaque = “Pedro”
Ali se juntaram a estudantes, líderes de equipa e acompanhantes de mais de cem países, para uma semana de provas e actividades pensadas para aproximar delegações e para os próprios mentores, até porque "durante as competições, não temos contacto com os adultos", nota o professor.
Participavam cerca de meio milhar de alunos de todo o mundo com um gosto em comum por estas áreas. Alunos como Pedro, que chegou a Astana como o elemento mais experiente da Stellar CV. Esta foi, como referido, a sua quinta participação presencial num concurso internacional, a sexta contando o NASA Hackathon, realizado em formato online.
O seu interesse pelas tecnologias começou cedo, com a utilização de computadores desde pequeno. Mas há um momento de que se lembra em particular: o pai mostrou-lhe um filme, Robosapien, sobre um pequeno robô que resolvia problemas. Estava criado o gosto.
No 7.º ano, na Escola Técnica, entrou num projecto do WebLab e fez formação em robótica e instrumentação. A partir daí chegou à equipa de robótica de Cabo Verde.
A inteligência artificial viria mais tarde, à medida que esta começou a ocupar cada vez mais espaço no seu quotidiano.
"Já programava e comecei a pesquisar sobre como eram desenvolvidas essas redes neuronais artificiais. Dali para a frente, continuei com várias pesquisas, pequenos projectos, e assim foi”, conta o estudante.
A passagem da robótica para a inteligência artificial não lhe parece, por isso, uma mudança radical. Mas as competições são diferentes.
Na robótica, explica Pedro, trabalha-se a partir de um desafio temático e o robô tem de cumprir determinadas tarefas numa espécie de jogo simbólico. Na IOAI, a lógica era outra: "Foi uma abordagem de resolução de problemas reais, para o contexto real do mundo."
Entre os desafios estavam o reconhecimento de padrões em imagens, a autenticação de caligrafias e a organização cronológica de mensagens para reconstruir o sentido de uma conversa – em Python, recorrendo a bibliotecas como PyTorch e scikit-learn.
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A competição arrancou e, nos primeiros momentos, a equipa não estava particularmente confiante. No primeiro desafio, em grupo, a formação cabo-verdiana não chegou ao top 10 anunciado pela organização.
Seguiram-se as provas individuais, de seis horas, com três exercícios de programação. "Foram desafios que nos tiraram mesmo da zona de conforto, à equipa toda. Houve momentos em que estávamos mesmo desapontados", lembra Pedro, que descreve o processo como uma sucessão de decisões: ler, interpretar, perceber o problema, construir o algoritmo, programar, testar, submeter – nem sempre com sucesso à primeira, com erros que era preciso localizar depressa.
"Há momentos, posso dizer, de quase pânico", conta. A pressão não vinha só da dificuldade técnica, mas da consciência de representar um país: "Estamos ali com o dever, o compromisso de representar de forma digna o nosso país." A partir do segundo dia, a equipa conseguiu dar a volta.E o resultado final ultrapassou as expectativas.
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Alexandre Nascimento e Nilson Leite conquistaram, cada um, um terceiro lugar, correspondente a uma medalha de bronze. José Aguiar e Pedro da Cruz dos Santos também foram distinguidos, recebendo ambos menções honrosas.
Para uma estreia absoluta, num território sem tradição de ensino formal de inteligência artificial, o resultado colocou Cabo Verde, de forma algo inesperada, ao lado dos melhores.
A missão foi, pois, cumprida com louvor. Mas não termina aqui.
A ideia é continuar a participar na IOAI, cuja edição de 2027 se realizará em Singapura. Para isso, Jorge Michael Rocha quer começar os treinos o mais cedo possível, mesmo antes da selecção da equipa representante.
“A minha ideia é contactar todas as escolas onde há programação e seleccionar os melhores para a competição, porque vi que dois meses de treinamento é muito pouco. São coisas que eu identifiquei, estratégias que vou aplicar aqui”, refere o mentor da Stellar CV, Jorge Michael Rocha.
Pretende-se também aproveitar as parcerias e contactos com as equipas do Brasil, Portugal e África do Sul, que se disponibilizaram para partilhar plataformas para apoio à preparação.
A nova equipa será, necessariamente, diferente. Os quatro alunos “pioneiros” terminaram todos o 12.º ano, e seguem para o ensino superior. Já não serão elegíveis para a competição.
Mas a ambição do professor vai além da competição em si: quer levar a discussão até ao Ministério da Educação, defendendo a integração da IA nos currículos escolares.
"A inteligência artificial é o futuro. Todas as tecnologias estão a começar a ligar-se à inteligência artificial, e acho que isso tem que estar no currículo escolar. Isso já existe noutros países, e, se nós vamos competir, ficamos sempre em desvantagem", aponta. "Estamos a ficar para trás."
A estreia de Cabo Verde mostrou que há talento para competir. Falta agora, pois, criar as condições para que esse talento possa ser preparado, desenvolvido e multiplicado. É essa, para o mentor da Team Stellar CV, a verdadeira missão que começa depois de Astana.
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A Olimpíada
Criada em 2024, a Olimpíada Internacional de Inteligência Artificial (IOAI) é uma competição científica destinada a estudantes do ensino secundário com menos de 20 anos. Os participantes não se limitam a problemas teóricos: desenvolvem código e modelos de IA para desafios reais, em áreas como visão computacional, processamento de linguagem natural e machine learning. A competição combina provas individuais e em equipa, e aborda ainda questões éticas ligadas à utilização da IA.
A primeira edição, na Bulgária em 2024, reuniu cerca de 200 estudantes de 32 países. Em 2025, em Pequim, participaram 300 estudantes de 61 países. A terceira edição, em Astana, no Cazaquistão, de 2 a 8 de Agosto de 2026, bateu novo recorde, com mais de 500 participantes de 108 países. Foi nesta edição que Cabo Verde participou pela primeira vez.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291 de 26 de Agosto de 2026.
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