Robô construído em São Vicente leva Cabo Verde a mais um FIRST Global Challenge

PorNuno Andrade Ferreira,4 out 2026 8:56

A equipa deste ano durante uma visita aos Bombeiros de São Vicente
A equipa deste ano durante uma visita aos Bombeiros de São Vicente

Cabo Verde volta este ano ao FIRST Global Challenge, competição em que participa desde a primeira edição, em 2017, levando à Coreia do Sul mais uma geração de jovens e um novo robô construído em São Vicente.

Cinco estudantes cabo-verdianos, com idades entre os 15 e os 18 anos, partem no próximo domingo para Incheon, na Coreia do Sul, onde vão representar Cabo Verde no FIRST Global Challenge 2026. O centro da participação é um robô construído em São Vicente, nos laboratórios da UTA/ISECMAR, depois de centenas de horas de trabalho.

No conjunto, a selecção integra dez estudantes, todos de São Vicente, provenientes de diferentes escolas secundárias da ilha e com idades entre os 14 e os 18 anos. Três raparigas e dois rapazes seguem para a Coreia do Sul, acompanhados por dois mentores universitários.

O FIRST Global Challenge reúne anualmente equipas de mais de 190 países e funciona combinando competição e colaboração. As equipas recebem um conjunto padronizado de componentes e têm de desenhar, programar e construir um robô capaz de executar as tarefas definidas para cada edição. Este ano, o tema é a prevenção e o combate aos incêndios florestais.

O robô cabo-verdiano foi construído de raiz pelos estudantes. O trabalho passou pelo desenho do chassis, pela montagem de sistemas de locomoção omnidireccional, de braços de captação mecânica e de um sistema de elevação. Em paralelo, a equipa de programação desenvolveu o código responsável pelo controlo dos motores e sensores e pelo comportamento autónomo. Há ainda estudantes envolvidos na comunicação e na logística da participação.

Vasco Costa é o team mentor.

“Este ano, optámos por uma solução mais eficiente, com tamanho menor, mas que consegue dar conta do recado. Diria que a maior novidade é o uso de April Tags. Esta tecnologia permite que coloquemos uma câmara no robô e este avise o condutor quando está na posição para começar a disparar”, afirma.

A fiabilidade foi um dos critérios adoptados no desenvolvimento da máquina, num contexto em que substituir rapidamente uma peça pode ser muito mais difícil para a equipa cabo-verdiana.

“Como não temos a facilidade de encomendar peças de substituição que cheguem no dia seguinte, a nossa principal métrica foi a fiabilidade. Escolhemos mecanismos de elevação simples e sistemas de transmissão directos para minimizar os pontos de falha mecânica durante os embates na arena”, comenta.

Fazer caber todas as funções necessárias dentro do espaço disponível foi, segundo a equipa, o principal problema técnico.

“O robô precisa de recolher as bolas, dispará-las para os armazéns e ainda conseguir subir numa barra de metal super lisa. Fazer tudo isso no espaço que temos exige muita criatividade, soluções bastante inovadoras, fora da caixa, diria eu”, declara.

O trabalho ocupou tardes depois das aulas, fins-de-semana e feriados.

“Estamos a falar de centenas de horas de trabalho. A equipa tem sacrificado fins-de-semana, feriados e finais de tarde, após as aulas regulares”, diz.

A preparação deste ano ficou condicionada pelo atraso na chegada do kit oficial. Segundo a equipa, o material foi recebido apenas em Setembro, quando habitualmente chega em Julho. Apesar disso, a selecção parte com o objectivo de melhorar os resultados das edições anteriores.

“Partimos com a ambição de superar as classificações anteriores de Cabo Verde e de sermos reconhecidos como uma das alianças mais fiáveis da competição. O objectivo concreto é chegar pelo menos aos play-offs, onde estarão as 24 melhores equipas, e, a partir daí, tentar chegar o mais longe que conseguirmos. Contudo, o fundamental é garantir que temos um robô que não falhe mecanicamente nos momentos críticos e que os nossos estudantes interajam, criem pontes e troquem conhecimentos com jovens de quase 200 países”, antecipa Vasco Costa.

Cabo Verde participa no FIRST Global desde a primeira edição, realizada em Washington, em 2017. A equipa esteve posteriormente nas competições da Cidade do México, de Dubai, de Genebra, de Singapura, de Atenas e da Cidade do Panamá. As edições de 2020 e 2021 decorreram remotamente devido à pandemia.

O projecto continua, para já, concentrado em São Vicente, mas tem uma visão “100% nacional”. A intenção é alargar a participação no futuro, através da associação que está a ser criada.

A equipa aponta o encerramento dos laboratórios WebLab como uma oportunidade perdida para aumentar o contacto de estudantes de diferentes concelhos com a programação e a robótica.

“Queremos também usar o mediatismo que a FIRST Global proporciona para provar que a robótica não é um luxo, mas uma ferramenta de educação básica. O objectivo futuro é criar núcleos de robótica nas escolas secundárias de todo o país para que o talento possa ser detectado mais cedo, partilhado e multiplicado”.

A competição decorre entre 7 e 10 de Outubro, em Incheon. Antes disso, a equipa fará a apresentação oficial da delegação no TechPark do Mindelo, a 2 de Outubro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1296 de 30 de Setembro de 2026.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,4 out 2026 8:56

Editado porFretson Rocha  em  4 out 2026 9:46

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