ENTREVISTA: “Cabral só é comparável a Mandela” – Otelo Saraiva de Carvalho

PorJorge Montezinho,23 set 2010 23:00

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Otelo Saraiva de Carvalho, coronel. Foi o estratega do 25 de Abril, e homem de confiança de Spínola, na Guiné, até 1974. No período pós-revolucionário entram em rota de colisão, porque Otelo escolhe a via socialista. Esteve em Bissau, entre 1970 e 1973, onde, apesar de nunca ter conhecido Amílcar Cabral, não deixa de elogiar o homem e o político. Mesmo estando em campos opostos, durante a guerra colonial, Otelo Saraiva de Carvalho, em entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas, afirma que a morte de Cabral foi "um choque enorme", perdendo-se assim, diz, "talvez o maior líder africano de sempre".

Expresso das Ilhas - Começo com uma pergunta directa. Quem foi, para si, Amílcar Cabral?
Otelo Saraiva de Carvalho
- A minha opinião sobre Cabral é a melhor possível. A minha convicção é que foi, e seria, se não tivesse sido assassinado, talvez o maior líder africano. Ao nível de um Nelson Mandela.

No que se apoia para afirmar isso?
No testemunho de várias pessoas, que o conheceram, nomeadamente de um tio meu, que tinha exactamente a idade do Amílcar, teriam ambos 86 anos hoje, foi contemporâneo de Amílcar Cabral na Casa dos Estudantes do Império, quando o Amílcar estudava cá, no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, e o meu tio tinha por ele uma estima enormíssima. Dizia que o Amílcar era um daqueles homens multifacetados; tinha um jeitão para jogar futebol, tocava viola, cantava e era um excelente aluno, era, o que podemos considerar, um homem completo. Depois, quando aos 32 anos funda o PAIGC, vindo do Movimento de Independência da Guiné, em 1956, torna-se num grande líder político, porque tinha uma boa formação política e uma vontade de independência, muito clara, em relação ao fascismo colonial português.

Uma vez que esteve na Guiné [entre 1970 e 1973], notava-se essa influência política de Amílcar Cabral?
Era de facto muito grande. Ele era um homem muito respeitado, principalmente por aqueles, como foi o meu caso, que tiveram acesso aos textos dele. E vi, de facto, qual era o espírito, humanista, de grande fraternidade entre os povos. Impressionou-me sempre muito e aos meus camaradas oficiais do exercito. Todos tinham um grande respeito por um adversário que, de facto, o merecia. O próprio Spínola, enquanto general comandante e governador da Guiné, tinha por ele um respeito muito grande. Considerava que era um homem com quem se podia estabelecer um diálogo e um contacto muito estreito, que só não foi possível porque o governo português, fascista e ditatorial que então havia. Salazar recusou todas as hipóteses de dialogo com o Amílcar, apesar do pedido por ele feito. Mais tarde, Marcello Caetano também não permite ao Spínola, através de Leopold Senghor, que serviria de intermediário, qualquer diálogo com Amílcar Cabral. Poderíamos ter enveredado por um caminho que seria em tudo diferente daquilo que foi. No pós 25 de Abril, tivemos de optar por uma solução mais rápida e menos bem preparada.

Na sua análise, porque haveria esse medo de negociações por parte de Portugal?
Começa no próprio Salazar. Ele nunca visitou qualquer colónia portuguesa, nunca saiu daqui, esteve sempre fechado na sua torre de marfim. E recolhia informações que eram dadas pelos governadores, informações que muitas vezes não serviam para nada. Eu julgo que ele terá tido sempre uma ideia fixa que era de não ficar na história como o governante que permitiu a separação do Portugal, uno e indivisível, desde o Minho até Timor. Havia aquela perspectiva de não querer ser responsabilizado, perante a história, da desagregação de um país com séculos de existência. E isso impede todas as conversações. O Samora Machel, com quem tive um contacto de muita amizade, depois da independência, disse-me uma vez, "vocês fizeram de facto uma coisa notável, é que ainda foram a tempo. Ao fazerem o 25 de Abril, ao derrubarem o fascismo e o colonialismo, permitiram ainda que as relações entre Portugal e as antigas colónias, pudessem ainda hoje perdurar. De contrário, se a guerra colonial continuasse, nós estávamos preparados para lutar mais 50 anos, mais 100 anos e vocês não. E não haveria hipóteses de qualquer relação futura".

Falou-me da influência que os escritos de Cabral tinham nos próprios oficiais portugueses, eu li também que a própria Guiné estará na origem da sua vontade de democracia, como era, enquanto oficial português, ter de lutar contra outro ‘irmão de ideologia' chamemos-lhe assim?
Era uma situação, de facto, bastante insustentável. Eu quando ingressei no exército, foi por influência do meu avô [antigo capitão do Exército Ultramarino Português] que me convenceu, com um argumento sólido, quando me disse, "se tu quiseres, um dia, participar no derrube do fascismo em Portugal, só o consegues entrando no exército". E, de facto, ele tinha razão. Agora, quando começa a guerra colonial eu fui contrariado, mas era a minha profissão. Estive em Angola, em 1961, regresso lá de 65 a 67, e em 1970 fui mobilizado para a Guiné, onde estive até 1973. Já deitava, de facto, guerra pelos olhos, e a minha perspectiva era, "havemos de criar as condições para derrubar este governo". E felizmente aconteceu.

Bissau que acaba por estar, também, na génese do 25 de Abril.
O antecedente imediato do MFA, o Movimento dos Capitães, começou em Bissau. As primeiras reuniões foram em finais de Julho. Em Agosto foi elaborado um manifesto, redigido por mim, contra o regime e a guerra colonial, que no dia 5 de Setembro é enviado para o Presidente da República, para o Primeiro-Ministro, para o Ministro da Educação, para o Ministro da Defesa e para o Vice-chefe do Estado Maior do Exército. A 9 de Setembro, dá-se a primeira grande reunião, em Portugal, com a presença de 136 capitães. Mas, o início é, de facto, em Bissau.

Li também que, se o 25 de Abril falhasse, um dos planos alternativos era tomar a Guiné e tornar o país independente.
Depois do 16 de Março [primeira tentativa de derrube da ditadura em Portugal, que falhou] houve ordem para não haver mais comunicações entre nós, para que o governo pensasse que estávamos derrotados. Entretanto, o major Aragão vem a Lisboa, mandatado pelo Movimento dos Capitães da Guiné, para saber o que estava a passar-se, se tínhamos desistido. E foi falar com gente da ala spinolista de quem recebeu a indicação para contactar comigo. Reunimos e tranquilizei-o, dizendo o que estava a passar-se, é então que ele me diz que, se por acaso as coisas não correrem bem, estão preparados, em Bissau, para iniciar conversações imediatas com o PAIGC, prender o governador, os comandantes, e declarar a Guiné independente. Proposta que aceitei.

Voltando à Guiné. Em 1960, foi enviado ao governo português um memorando, em que o PAIGC dizia que o trabalho feito no terreno estava a tornar o povo cada vez mais consciente politicamente. Quando esteve na Guiné, apercebeu-se, de facto, dessa convicção?
Sem dúvida. O caso do massacre de Pijiguiti, em 1959, é um exemplo. A greve foi organizada pelo PAIGC, a quantidade de pessoas que é morta cria um amargo de boca ao partido. Sentem-se responsáveis, não é? E veja a clarividência de Amílcar Cabral, que não inicia de imediato a luta armada. Primeiro, ainda envia esse memorando, para o qual nunca há resposta, ainda vai criando quadros, sobretudo gente de Cabo Verde, para o PAIGC, e só em 1963 é que começa, de facto, a luta armada. Mesmo nas intervenções internacionais, Cabral tem sempre um grande cuidado em separar o que é o povo português, que é irmão dos outros povos, dos outros portugueses que governam, também, esse povo, de uma forma ditatorial e fascista.

Aliás, nesse mesmo memorando é proposta a solução pacífica.
Exactamente, e é terrível que não tenha sido aceite. Mas, Salazar era um homem que não iria mexer uma palha para aceitar sentar-se à mesma mesa com um engenheiro agrónomo que, ainda por cima, tinha estudado em Portugal, e que agora queria a independência da Guiné. Para ele isso era absurdo. Amílcar Cabral estendeu, de facto, a mão, a uma independência pacífica, mas tanto Salazar, como, mais tarde, Marcello Caetano, recusaram essa possibilidade.

A morte de Amílcar Cabral, na sua análise, que marcas deixou?
Antes de mais, deixe-me dizer que foi um choque muito grande, esse dia 20 de Janeiro de 1973. Eu ainda estava na Guiné, e foi um choque, principalmente pelas circunstâncias em que ocorreu.

Conseguiu perceber essas circunstâncias?
Não muito bem, confesso. Sempre me pareceu que houve uma certa articulação com gente da Guiné Conakry, no sentido de eliminar o Amílcar, que estava ali a subir demasiado, numa estrutura intelectual e política que ofuscava o Sekou Touré. Terão sido dissidentes, dentro do próprio PAIGC? Terá havido influência, de facto, da polícia política portuguesa, da PIDE? Penso que a PIDE poderá ter tido algo a ver com isso, se bem que o Fragoso Alves, que chefiava a delegação da PIDE em Bissau, tenha negado sempre qualquer interferência. Mas a verdade é que, num dos restaurantes que eu frequentava, trabalhava um rapaz que era diferente dos outros empregados. Eu perguntei quem era, e informaram-se que era um rapaz chamado Momo Touré, que tinha sido capturado pela PIDE, e que depois tinha sido posto em liberdade e conseguido aquele emprego. Aquilo pareceu-me estranho, porque a PIDE não costumava ser tão magnânima, muito menos para membros do PAIGC. Eu tive sempre a sensação que ele tinha sido colocado naquele restaurante, muito frequentado pelos militares, para recolher informação, que transmitiria à PIDE. Depois, este mesmo Momo Touré, aparece no grupo que vai liquidar Amílcar a Conakry. Como é que ele lá aparece? Fugiu outra vez às malhas da PIDE? Não sei, não tenho explicação para isso. Certo é que ele aparece lá. O que se terá passado mesmo? Ainda não há resposta.

Com a mão portuguesa por trás, ou não, acaba por ser uma jogada negativa para Portugal.
Exactamente, uma vez que a guerra aumenta de forma terrível. Também porque o PAIGC consegue mais material bélico, claro, mas o cenário piorou, e muito, para os militares portugueses.

Uma última questão, já alguma vez experimentou este exercício, analisar o que seria hoje Cabo Verde e a Guiné, se Cabral não fosse assassinado?
Num cenário desses, acho que, principalmente a Guiné, não estaria no estado em que está. Já fui à Guiné duas vezes, depois da independência, e achei aquilo muito mau. Uma pobreza terrível, as notícias de estar a transformar-se num narco-estado. É terrível, terrível. Eu sempre gostei muito da Guiné, do povo da Guiné, tive uma relação muito próxima com o Rafael Barbosa, conversámos muito. Foi muito importante, para mim, ter conhecido todo esse povo. Só lamento, nunca ter conversado com um homem brilhante, notável e multifacetado que foi Amílcar Cabral.

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Autoria:Jorge Montezinho,23 set 2010 23:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  23 set 2010 23:00

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